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12/03/19
Ana Catarina de Melo é enfermeira e coordenadora do Programa Estadual de Imunização em Pernambuco (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)
Ana Catarina de Melo é enfermeira e coordenadora do Programa Estadual de Imunização em Pernambuco (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)

‘Precisamos retomar velhas estratégias: vacinar em creche e escolas’, sugere especialista

12 / mar
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 12/03/2019 às 10:05

No último dia da série sobre as baixas coberturas vacinais, iniciada domingo (10), a coordenadora do Programa Estadual de Imunização, Ana Catarina de Melo, 38 anos, assegura que Pernambuco organiza estratégias para voltar a ter coberturas adequadas. “Ou ajustamos ou a queda das taxas não vai parar.”

Quando vemos algumas coberturas vacinais, na média geral do Estado, percebemos taxas boas. O recorte por alguns municípios, contudo, revelam percentuais baixos. Como se analisa essa situação?

ANA CATARINA DE MELO – É um problema pesado. A cobertura deve ser homogênea. Não adianta Pernambuco ter, por exemplo, 101% de cobertura para uma determinada vacina e, na lista por município, percebermos alguns abaixo de 50%. A taxa adequada do Estado não vai impedir o adoecimento nesses municípios com coberturas abaixo de 50%. Um cenário heterogêneo traz um alerta imenso sobre o risco de bolsões de pessoas susceptíveis ao adoecimento. Ter só 50% de cobertura significa ter a outra metade de cidadãos propensos a doenças.

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Observamos isso com a tríplice viral em Pernambuco, que tem 101% para a primeira dose. Já em Palmares (município da Zona da Mata e sede da 3ª Regional de Saúde do Estado), vemos só 55% na 1ª dose.

ANA CATARINA – Se nem todas as Regionais estão com boas coberturas, isso é um alerta. Ao fragmentarmos por municípios, o susto pode ser maior. Imagine isso com sarampo, altamente transmissível… Quando aparece numa localidade, passa deixando rastro. Não é uma doença que precisa de várias condições para gerar adoecimento. O vírus só precisa ter contato com pessoas não vacinadas e que nunca tiveram a doença. Antigamente, a gente falava em sarampo na Europa. Mas agora está por aqui, pertinho de nós (Amazonas, Roraima e Pará têm transmissão ativa do vírus).

Ainda sobre a tríplice viral, a segunda dose no Estado tem cobertura muito baixa, de 67%. Mesmo com a primeira dose em 101%, a situação é preocupante?

ANA CATARINA – Este é um dos nossos maiores problemas. O Estado atinge meta na primeira dose e não alcança na seguinte, que deve ser aplicada aos 15 meses de vida. Essa segunda dose é feita para corrigir qualquer possível falha vacinal que tenha ocorrido na primeira. É por isso que, quando se tem só uma dose, corre-se risco de adoecer.

Como agir para mudar esse cenário que tanto assusta?

ANA CATARINA – As coberturas realmente estão piorando cada vez mais, e não podemos permanecer nesta situação. Em maio, vamos fazer uma oficina sobre vigilância de coberturas vacinais para capacitar profissionais multiplicadores em monitoramento dessas taxas. A ideia é que eles passem mesmo a vigiar mensalmente cada cobertura, avaliem criteriosamente o sistema de imunização e investiguem se há registros errados. Dessa maneira, podemos detectar imediatamente alguma falha e fazer contato de forma rápida com os municípios. Teremos também materiais educativos para profissionais de saúde e a população em geral. Ainda vamos estreitar os laços com a Secretaria Estadual de Educação para operacionalizar a lei da entrega do cartão de vacina nas escolas. Outra proposta é trazer para a discussão a ampliação dos horários de funcionamento das unidades básicas. Precisamos também voltar a velhas estratégias: vacinar em creche e escolas. Conscientização é outro trabalho na nossa pauta. Quando o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) diz que a não vacinação de uma criança é abandono de incapaz, por que não se cumpre essa imunização? O que leva a isso? O que é tão mais importante do que a não proteção? Precisamos avaliar tudo isso.


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