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05/02/15

Campus Party: O sonho de Nicolelis que renovou esperanças

05 / fev
Publicado por Letícia Saturnino em Campus Party às 9:45

Nicolelis teve uma das palestras mais concorridas. (Divulgação).
Nicolelis teve uma das palestras mais concorridas. (Divulgação).

Cientista brasileiro contou os bastidores que levaram ao histórico chute de abertura da Copa do Mundo feito por um jovem paraplégico

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SÃO PAULO – O neurocientista Miguel Nicolelis deu detalhes dos bastidores da iniciativa internacional que possibilitou a criação do exoesqueleto responsável por fazer paraplégicos andarem usando o cérebro. A palestra de Nicolelis foi a mais ovacionada até agora na oitava edição da Campus Party, evento de tecnologia que acontece em São Paulo até o final de semana.

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Nicolelis fez algo impensável dentro do universo das pesquisas científicas: colocou um prazo estipulado para apresentar seus resultados com o diferencial de ter apenas uma única tentativa em um espaço reduzidíssimo de tempo. Estamos falando da Copa do Mundo. O cientista uniu um time de mais de 100 profissionais ao redor do mundo para fazer o atleta paraolímpico Juliano, que é paraplégico, dar o chute inicial do campeonato.

Conseguiu, mas a repercussão estava bem distante do que imaginava. A Fifa diminuiu o tempo dentro da cerimônia de abertura – “uma das mais horríveis já feitas em uma Copa do Mundo” – para meros 29 segundos e na hora exata decidiu mostrar pouco mais de 4 segundos. Para completar, as redes sociais viraram palco para usuários esnobarem o inédito feito. Até jornalistas relativizaram o enorme esforço científico.

No exterior foi o oposto. Jornais e sites estrangeiros deram um destaque imensamente maior a Nicolelis e seus colegas do que à Copa do Mundo do Brasil. “Não interessa quantos minutos a Fifa decidiu mostrar, o importante é que conseguimos recuperar a dignidade daquele ser humano que passou décadas sem conseguir andar”, disse o neurocientista.

Minutos antes da entrada no estádio do Maracanã, na abertura da Copa do Mundo, Juliano e seus colegas se surpreenderam com a recepção dos figurantes da apresentação. “Cerca de 500 pessoas fizeram um corredor polonês para nós. E começaram a cantar o hino nacional especialmente para nós. É algo que nunca me esquecerei em toda minha vida”, disse Nicolelis com a hora embargada. Horas antes alguém da organização do evento tinha ligado para avisar que os minutos previstos tinha caído pela metade. E ninguém foi anunciado.

“Se fosse em outro país, como os EUA, um apresentador bobo teria feito uma apresentação cheio de pompa, diria para a plateia olhar para o canto do estádio para assistir àquele chute incrível”, disse. Mas até chegar nesse dia, muita coisa aconteceu.

O cérebro que prevê o futuro

As pesquisas de Nicolelis sempre se pautaram no fato de que ainda conhecemos pouco das possibilidades do cérebro dos animais. A descoberta que serviu como base para a criação do exoesqueleto foi o processo que permitiu identificar os sinais cerebrais em tempo real e transferi-los para um artefato. Esses dados já processados podem retornar ao cérebro que interpreta tal artefato como parte do corpo humano.

A descoberta mostrou que o cérebro planeja o futuro um terço de segundo antes do futuro acontecer. “A mente funciona através de comandos ‘ande’, ‘coma’, ‘mexa o braço'”, explicou.

Em 2004/2005, o neurocientista realizou testes com uma macaca chamada Aurora que realizava um teste muito simples. Ela participava de um jogo digital onde recebia um gole de suco de laranja toda vez que colocava uma bolinha dentro de um círculo. Ela fazia tudo com a ajuda de um joystick. “Para nossa surpresa, após quatro semanas Aurora já conseguia fazer o mesmo sem a ajuda do joystick, apenas usando a mente”, disse Nicolelis. “Mais ainda: ela tinha a consciência de que seu braço ocioso poderia ser usado para outras ações, como coçar, nos arranhar, pegar comida”.

A teoria Pelé

Anos depois Nicolelis publicou um estudo onde falava da chamada “Teoria Pelé”. Segundo ele, se fosse feito o escaneamento do cérebro do famoso jogador de futebol brasileiro durante uma partida veríamos representações não apenas das pernas, mas também da bola. “Descobrimos que todo utensílio é identificado pelo cérebro como extensão do corpo”, disse. “Isso vale para a bola, para um violino e até seus smartphones e computadores”, completou.

Os primatas são, portanto, a única espécie na natureza que assimila a tecnologia como parte de si mesmo.

Esse processo é chamado tecnicamente de “plasticidade cortical”, onde o cérebro se modifica para assimilar o uso de um determinado artefato como parte do corpo em sua totalidade. Essas descobertas também ajudaram no desenvolvimento de equipamentos para o tratamento de pessoas com deficiência. Mas uma coisa seria determinante: o cérebro de alguém com deficiência física não perdeu a capacidade de processar informações específicas usadas para andar.

Feito foi um marco para as tecnologias assistivas. (Foto: AFP).
Feito foi um marco para as tecnologias assistivas. (Foto: AFP).

Legado de Dumont

Quando uma pessoa fica paraplégica ou sofre algum tipo de lesão cervical que impossibilita os movimentos o cérebro segue com capacidade de processar informações daquele local, mas as informações não conseguem chegar aos músculos e ossos. A construção do exoesqueleto partiu da ideia de que era preciso criar um “bypass”, um atalho, que permitisse o tráfego desses dados cerebrais.

Já com a iniciativa global criada, Nicolelis e sua equipe desenvolveram um exoesqueleto totalmente adaptado aos pacientes. “Uma pessoa que passou anos imóvel tem uma condição de saúde totalmente singular. Há problemas cardiovasculares, de pele, de ossos”, disse. “Vi muita gente dizer ‘mas como anda devagar, cerca de um passo por segundo’. Mas um paciente paraplégico tem um nível de osteoporose altíssimo. Um movimento brusco poderia causar uma fratura exposta. E como ele não possui sensações na região poderia não perceber, o que levaria a uma infecção grave”, explicou.

Os testes realizados com o traje foram feitos no Centro de Estudos Neurológicos de Natal e em São Paulo em uma parceria com a AACD. Também foi testado uma “pele artificial”, formada por eletrodos que simulavam sensações de pressão e profundidade. Esses sinais eram enviados do pé e das pernas para o antebraço do usuário. A primeira vez que Juliano deu os primeiros passos no traje foi uma comoção para toda a equipe. “Você terá que me emprestar isso quando eu me casar para eu buscar minha noiva no altar”, disse o atleta a Nicolelis. “Está à sua disposição, Juliano”, respondeu.

O exoesqueleto recebeu o nome de Brasil Santos Dumont I, em homenagem ao pioneiro brasileiro responsável por inventar o primeiro avião do mundo. O bisneto do aviador foi chamado para a primeira demonstração do traje, no ano passado. “Se meu bisavô estivesse aqui ele ficaria muito orgulhoso”, disse. Ele entregou o lenço usado por Dumont naquele histórico 26 de outubro de 1906, quando colocou o 14-Bis para voar nos céus de Paris.

Antes da apresentação na Copa, Juliano e a equipe de cientistas foram até o estádio do Coríntians, em São Paulo. Nas costas do traje, as fotos em miniatura dos 106 cientistas do mundo todo que possibilitaram aquele chute histórico. Foram feitas 56 tentativas para chutar a bola, com 55 acertos. “Se a seleção brasileira tivesse o mesmo nível de acurácia eu não precisaria passar vergonha em palestras toda vez que falo do jogo do Brasil na Copa”, brincou Nicolelis.

“Um geek profissional é aquele que não dá importância a quem diz que algo é impossível”, contou. “Quando diziam que seria impossível para alguém no Brasil realizar essas pesquisas sobre o cérebro, mostramos que temos capacidade. Tenho muito orgulho de ser um cientista brasileiro.”


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