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13/12/19
Nereu Pinheiro foi homenageado com a bandeira do Sport, clube pelo qual foi vice-campeão da Copa do Brasil de 1989. Foto: Diego Borges/JC
Nereu Pinheiro foi homenageado com a bandeira do Sport, clube pelo qual foi vice-campeão da Copa do Brasil de 1989. Foto: Diego Borges/JC

O ‘adeus’ a Nereu Pinheiro, o grande revelador de talentos no futebol

13 / dez
Publicado por Diego Borges em Futebol Pernambucano às 12:49

Nunca é uma tarefa fácil dizer adeus definitivamente a alguém. Principalmente se esse alguém é tão significativo quanto foi o ex-técnico Nereu Pinheiro para familiares, jogadores e torcedores dos clubes, onde nunca passou apenas de passagem.

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Fosse acumulando conquistas dentro de campo, fosse plantando sementes na formação de atletas, Nereu se tornou a principal referência no futebol pernambucano e ganhou destaque também a nível nacional como o grande revelador de talentos que se tornou.

O corpo do treinador foi sepultado nesta sexta-feira, no Cemitério Morada da Paz, em Paulista. Vítima de um tumor cerebral aos 71 anosNereu Pinheiro lutou pelos últimos cinco meses, sempre acompanhado de perto pelo ex-jogador do Sport e hoje secretário na Prefeitura de Olinda Chiquinho, que passou de pupilo e se tornou o escudeiro responsável por cuidar do treinador que lhe abriu as portas para o mundo do futebol.

A EMOÇÃO DE CHIQUINHO

“Você nunca está preparado. O professor vinha nesse processo de luta contra a doença, mas a gente nunca se prepara. Um amigo querido que eu amava, tive convívio diário nos últimos três anos, trabalhando comigo na Prefeitura de Olinda e sempre almoçávamos juntos. Tínhamos uma amizade até mais distante antes disso, mas ficam as boas lembranças, ensinamentos e a gratidão que é eterna”, disse Chiquinho, antes de ressaltar. “Ele me ajudou a mudar a minha realidade de vida e isso eu nunca vou esquecer.”

Para o ex-jogador, o olhar de Nereu para revelar talentos era único. “Se você pegar o histórico, a quantidade e a qualidade de jogadores que ele revelou em Pernambuco, só nessa geração de 1990, eu, Adriano, Sandro, Juninho Pernambucano, Leonardo, Bosco, Russo, Ricardo Rocha em uma geração anterior, jogadores que alçaram voos. Ricardo foi campeão do mundo e Juninho é um dos maiores meias da história do futebol. Ele (Nereu) é a maior referência em revelação aqui no futebol de Pernambuco”, crava Chiquinho.

NEREU FOI ‘GARIMPEIRO’ NO SPORT

Não foi à toa que a bandeira do Sport cobriu o caixão de Nereu Pinheiro, do velório ao sepultamento. Juntos, formaram um casamento praticamente perfeito em termos de revelação da base. Como lembrado por Chiquinho, foram inúmeros talentos descobertos pelo técnico ao longo de sua passagem duradoura na Ilha do Retiro, que teve início no final dos anos 1980, como lembra o diretor leonino Wanderson Lacerda.

“Nereu Pinheiro deixou um legado, digo até para o futebol brasileiro. Começou no futebol amador do Sport em 1980, onde eu era diretor da base e o contratei. Convenci o próprio Nereu e Zé Moura, presidente na época, e assim foi feito. Foi o start dentro do Sport e ele conseguiu revelar vários jogadores até de seleção brasileira”, lembra o dirigente.

Wanderson destaca ainda o bom relacionamento que o ex-treinador mantinha com todos ao seu redor no futebol. “Sempre foi um cara muito bem quisto pelas diretorias e pelos jogadores. A quantidade de jogadores em sua despedida é extraordinária. O que significa que se trabalho foi muito competente. Não tinha muito estudo, mas tinha o fundamental, que era o conhecimento do futebol e olho clínico para descobrir jogadores como eu nunca vi”, destacou, antes de desejar. “Que Deus o tenha em um bom lugar. Ele vai estar lá em cima, mas aqui embaixo só deixou amigos.”

NO SANTA CRUZ, A MAIOR CONQUISTA

Dentro de campo, além do vice-campeonato da primeira edição da Copa do Brasil pelo SportNereu Pinheiro alcançou o auge em questão de resultado à frente do Santa Cruz, no Campeonato Brasileiro da Série B de 1999. Ano em que o Tricolor apostou alto com a contratação de medalhões e atletas de alto custo, mas perdeu fôlego e trocou duas vezes de treinador. Na última troca, o acerto veio através da coragem de Nereu. Com ‘carta-branca’ do então presidente Jonas Alvarenga nas mãos, apostou alto na ‘prata-da-casa’. Jovens que viam no treinador a figura de um pai e retribuíam com aplicação dentro de campo.

Receita que se transformou em uma dos acessos mais improváveis do futebol brasileiro – se não o maior. Como no futebol e na vida há coisas que fogem da compreensão racional, a morte de Nereu ocorreu exatamente no dia em que completaram 20 anos do empate entre Goiás e Santa Cruz no Serra Dourada, quando os dois clubes subiram para a Série A.

“Sem dúvidas, para todo jogador em Pernambuco que se destacou com ele, Nereu foi um paizão. Um olheiro oficial, sabia quem tinha futuro”, aponta Batata, ex-volante responsável pelo gol que classificou o Santa Cruz para a fase de mata-mata, contra o Sampaio Corrêa na última rodada.

“Naquele ano de 99, não só eu mas a maioria da prata-da-casa em que ele confiou, ele já conhecia dos juniores que a gente jogava muito contra ele enquanto treinava o Sport. Ele já tinha confiança em quem estava n base. Colocou a gente em campo e sempre foi um pai e nós confiávamos nele. Deu tudo certo naquele ano e através de Nereu a gente conseguiu desenvolver um bom futebol, subindo de divisão. Foi um grande marco não só na vida dele, mas na de todos nós que subimos naquele ano.”

AS MEMÓRIAS DO ‘OLHO VIVO’

O radialista Hélio Macedo acompanha o futebol pernambucano há quase 50 anos. Responsável por reportar inúmeros jogos na extensa carreira, é autor de inúmeras entrevistas marcantes com personalidades como o rei Pelé e diversas coberturas de temporadas com as equipes do estado. Conhecido como ‘Olho vivo’ do rádio, Hélio não tem dúvidas ao apontar o ano de 1999, em que foi setorista do Santa Cruz para a Rádio Jornal como a temporada mais emocionante de sua carreira.

“Geralmente quando uma pessoa morre, muita gente fala ‘morreu porque era bom’, mas Nereu era sim uma figura de anjo. Folclórico dentro do futebol, mas um cara espetacular. Eu tive a felicidade de viver aquele 1999 com o Santa Cruz, em que infelizmente ele veio a falecer no mesmo dia em que completou 20 anos da volta para a Primeira Divisão. Estive acompanhando pela Rádio Jornal, com Aroldo (Costa) e Aderval (Barros)”, relembra.

“Nos deixa essa figura extraordinária, de passagens interessantes. A gente perde até as palavras foge um pouco porque a emoção é grande. Era um amigo extraordinário e uma figura. nosso futebol perde uma grande figura que era o Nereu Pinheiro”, destaca Hélio, antes de apontar uma das principais características do ex-treinador. “É preciso ter muita coragem e perseverança, e acreditar muito no que faz para fazer o que ele fez. Era um descobridor de talentos que a gente infelizmente está perdendo”, lamentou.


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