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17/10/14

Concentração é mesmo fundamental ao futebol?

17 / out
Publicado por Thiago Wagner em Notícias às 16:33

Técnicos pernambucanos têm opiniões diferentes sobre o tema. Fotos: JC Imagem
Técnicos pernambucanos têm opiniões diferentes sobre o tema. Fotos: JC Imagem

Por Diego Pérez, Marina Padilha, Thiago Wagner e Wladmir Paulino

O assunto é polêmico e motiva discussões entre jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores: a concentração das equipes de futebol nos dias que antecedem a partida. Na última semana, por questões salariais, jogadores do Náutico garantiram que não iam concentrar para o jogo contra o ABC/RN na Arena Pernambuco. Depois de conversarem com o técnico Dado Cavalcanti, voltaram atrás na decisão. Mas será que o confinamento é mesmo necessário?

“O argumento dos jogadores para não concentrar foi que temos uma condição boa no CT, mas eles ficam afastados dos familiares. Temos algumas dificuldades financeiras e fizeram essa solicitação de permanecer mais tempo com a família”, disse o treinador alvirrubro sobre o caso. Para Dado, a concentração é facultativa, mas é uma decisão que cabe à comissão técnica. “A palavra final é minha. Se eu achar que devemos concentrar, a gente concentra. Se não, eu abro mão”, afirmou.

Durante a concentração, o jogador fica hospedado em um hotel onde tem a alimentação e os horários de repouso controlados, contribuindo para um melhor desempenho em campo. Além disso, é mantido longe do convívio dos familiares e amigos para evitar que possíveis problemas o perturbem. Esses, porém, não são os ingredientes que, obrigatoriamente, levam à vitória. No Atlético/MG o técnico Levir Culpi resolveu inovar e poupar os jogadores de se concentrarem na véspera de um jogo como mandante. Hoje, os mineiros ocupam a quarta colocação da Série A e estão na semifinal da Copa do Brasil.

Em Pernambuco, tem quem siga a mesma linha de raciocínio de Culpi. De acordo com o técnico Eduardo Baptista, o mais importante desse “confinamento” é regrar o horário das refeições e do descanso dos jogadores, mas é possível liberá-los se houver conscientização. “Meu projeto no Sport para o ano que vem é abolir isso. Conversar com a família e conscientizar os atletas de que eles precisam comer e descansar bem. Trabalhei por seis anos no Japão e lá só havia concentração, claro, quando viajávamos. Durante todo esse tempo, nunca tivemos problema. Nossa maior preocupação é com a alimentação, mas os atletas precisam ser responsáveis”, explicou.

Ainda segundo Baptista, principalmente os jogadores que são comprometidos se beneficiam por permanecerem no ambiente familiar. “Em casa, principalmente aqueles que são casados e têm filhos relaxam mais. É o caso do Magrão, por exemplo”, conta. Mas o próprio goleiro rubro-negro acredita que os atletas daqui não estão preparados para abolir a concentração. “Acho que no futebol brasileiro os jogadores ainda não estão prontos para não concentrar. Pela vida que alguns levam, de viver em farra e também por causa da alimentação. Muitos, principalmente os solteiros, podem não se controlar e acabam pedindo lanches e saindo da dieta, o que não é certo”, disse o Camisa 1 do Sport.

No Santa Cruz parece que a linha de raciocínio é a mesma que a do goleiro Magrão, pelo menos para o técnico Oliveira Canindé: “O rendimento pode ser o mesmo, mas depende da consciência profissional, o que nem todos têm. Acho que ainda temos que ter a concentração. Léo Gamalho, atacante do Tricolor, já passou pela experiência de permanecer com a família nos dias que antecediam as partidas. “Quando jogava na China não concentrava. Ficava com minha esposas e minhas filhas e jogava do mesmo jeito. Basta você se cuidar e manter a alimentação”, garantiu.

No último mês, temendo o rebaixamento, o Palmeiras contratou um profissional capacitado para ajudar os jogadores a refletir, planejar e agir visando melhorar os resultados. Lulinha Tavares, o coach do alviverde, acredita, assim como Magrão, que o Brasil ainda não pode viver um futebol sem concentração. “Como, culturalmente, ainda não se possui consciência, torna-se necessária e muito válida a concentração. Até porque, com esse calendário apertado em um pais continental, que pressupõe longos e cansativos deslocamentos, diferentemente da maioria dos países europeus, a concentração se transforma em um propício momento para planejamento de ações e aproximação do grupo. A família nesse caso é quem mais se sacrifica”, explica.

E como a família sofre! Tatiane, esposa de Ewerton Páscoa, zagueiro do Sport, garante que é difícil tanto para a mulher quanto para o filho. “Antes de termos nosso filho ele teve que me dar um cachorrinho de presente. Agora, com nosso bebê de quatro meses fica mais difícil porque ele, embora seja muito pequeno, sente a falta do pai. E o pai acaba perdendo acontecimentos importantes na vida dele. Às vezes o Páscoa chega da concentração e já repara que ele tá maior”, disse Tatiane que conta ainda com a ajuda da tecnologia, através de conversas por vídeo, para diminuir a distância.


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