CULTURA

Dia da Consciência Negra: A importância da representatividade

Publicado em Especial Música 20/11/2020 às 11:27
Dia da Consciência Negra: A importância da representatividade

Neste 20 de novembro, dia da Consciência Negra, é hora de conhecer o passado para viver um preste e prospectar um futuro com mais respeito e tolerância racial. Segundo o IMDSC (Media, Diversity and Social Change Institute), entre os 100 filmes com maior bilheteria em 2016, apenas 29% dos personagens eram negros. Uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) mostrou números alarmantes na literatura brasileira: 93,9% dos autores e 92,1% dos personagens são brancos. Essa porcentagem espanta, até porque 54% da população brasileira é declarada negra.

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Ainda segundo a sondagem, os personagens brancos são, geralmente, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) e escritores (6,9%). Enquanto os negros são fantasiados como bandidos ou fora da lei (20,4%), empregados domésticos (12,2%) ou escravos (9,2%). E mais: brancos morrem por doença ou acidente em 60,7% dos casos, já os negros morrem por assassinato em 61,1%.

Com um campo das artes feito por brancos e para brancos, inúmeras dificuldades são enfrentadas pelo processo de empoderamento, uma vez que os negros acabam não possuindo a representatividade devida na indústria cultural.

Mas mesmo com tudo isso, podemos encontrar personalidades negras que ajudaram e ainda ajudam a mudar essa realidade, sendo nomes importantes quando se fala em identidade negra. Para marcar esta data, resolvemos lembrar de ícones artísticos que ajudaram a mudar o cenário hostil que a sociedade ainda apresenta para as pessoas negras no mundo, com muita dignidade, cultura e respeito.

Confira alguns deles:

Elza Soares

(Imagem: Reprodução/Elza Soares)

Ela nasceu em 23 de junho de 1930, em Moça Bonita, favela carioca. Eleita Cantora do Milênio pela BBC de Londres, Elza Soares enfrentou um passado difícil. Ela, mulher negra e pobre, teve que lutar contra o machismo e o racismo, que, apesar de ainda fortes, imperavam na sociedade brasileira.

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Aos 12 anos foi forçada a se casar, e aos 13 anos já foi mãe. Agora, vitoriosa, ela é ícone para feminismo e a luta pelos direitos dos negros. Ainda jovem, ela se apresentou em um programa de calouros na Rádio Tupi. Ary Barroso, apresentador, tinha zombado da forma que ela estava vestida, mas após vê-la cantar, questionou: “Senhoras e senhores, nesse exato momento acaba de nascer uma estrela. De que planeta você veio?”. Elza respondeu: “Vim do Planeta Fome”.


Tim Maia

(Imagem: Reprodução/Site de Tim Maia/Internet)

Sebastião Rodrigues Maia nasceu na Tijuca, Rio de Janeiro, em 28 de setembro de 1942. Ele era o filho mais novo de uma família de 12 irmãos, e desde criança teve que trabalhar entregando marmitas para não faltar comida em casa.

Aos 8 anos entrou para o coral da igreja, e chegou a compor uma banda chamada The Sputniks, em 1957, a qual tinha nomes como Roberto Carlos entre seus integrantes. Em 59 partiu para os EUA, tentando uma vida melhor, e foi morar em Tarrytows. A cidadezinha, com pouco mais de 11 mil habitantes, proporcionou ao cantor um contato único com o Jazz e a música negra.

Ainda com dificuldades, ele foi obrigado a furtar comida dos mercados e pular as catracas do transportes públicos. Ao se pego, foi deportado e voltou ao Brasil com uma bagagem cultural única. Ele juntou o ritmo do Jazz com o Samba e o Baião. Com seu cabelo Black Power e suas ideias, ele é um ícone do empoderamento negro até hoje.


Wilson Simonal

Wilson Simonal agitou o Rio de Janeiro no século passado

Apesar de ter seu nome ligado à Ditadura Militar por muitos anos, o nome de Wilson Simonal foi limpo com o documentário Ninguém Sabe o Duro que eu Dei, que esclarece que o cantor não tinha ligação com os militares que governavam o país com punho de ferro.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1939, serviu ao exército e cantava nas festas do regimento. Em 1961, foi descoberto por um produtor musical e começou sua carreira profissional. Em seu LP, chamado “Wilson Simonal tem algo mais”, ele fez uma nova leitura de clássicos da Bossa Nova, acrescentando um toque de Jazz com “suingue”.

Ele, ao lado da icônica Sarah Vaughan, cantou o “Oh happy days” e “The shadow of your smile”. Com seu Black Power e suas canções, não só encantou o Brasil, mas também abriu espaço para outros cantores negros conquistarem um mercado dominado por artistas brancos.

Certa ocasião estava conversando com meu anjo da guarda, e ele virou-se sério pra mim e disse: “Simona, ou você vai ser alguém na vida, ou vai morrer crioulo mesmo.

Wilson Simonal


Cartola

Cartola

Angenor de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1908, e é considerado um dos maiores sambistas da história da música brasileira. Ele lançou músicas inesquecíveis como “O Mundo é um Moinho” e “Preciso me Encontrar”. Até hoje artistas nacionais reverenciam seu nome e cantam suas músicas. Recentemente, o rapper Criolo fez uma nova leitura de sua mais famosa canção.


Milton Nascimento

(Foto: Divulgação)

Milton “Bituca” Nascimento é um dos maiores e mais influentes cantores da Música Popular Brasileira. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1942. Após perder a mãe com apenas dois anos, partiu para Minas Gerais. Em 1967, classificou três músicas para o Festival Internacional de Canção da TV Globo, e foi contemplado com o prêmio de melhor intérprete.

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Liniker

(Foto: Reprodução/ Divulgação)

Nascido na cidade de Bambuí, Minas Gerais, Liniker se tornou um ícone para a população negra e LGBT. Com seus dreads, vestido, brincos e batom, ele é resultado vivo de décadas de luta desses dois grupos. Hoje, o grupo Liniker e os Caramelows está entre os mais escutados do brasil.

Neste momento de tanta opressão, me colocar assim, com essa força, é muito importante. As pessoas precisam saber que eu sou negro, pobre e gay e posso ter uma potência também. Sou um artista que se expressa assim. Então, se você está aí, se sente reprimido e tem vontade de colocar seus demônios para fora, mostrar quem você realmente é, coloque-se. Esse é um dos meus maiores desejos como artista desta geração.

Liniker, em entrevista ao El País


Lia de Itamaracá

(Foto: Reprodução/YouTube)

Maria Madalena Correia do Nascimento, mais conhecida como Lia de Itamaracá, nasceu em 12 de janeiro de 1944. Ela compõe e canta desde criança, e lançou seu primeiro LP, o “A Rainha da Ciranda”, em 1977. Apesar disso, não conseguiu seguir com a carreira profissional e continuou trabalhando como merendeira. Na década de 90, foi redescoberta e garantiu lugar no Abril pro Rock de 1998, que levou a cantora a ser conhecida como Rainha de Itamaracá.

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Publicado por
Victor Augusto

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