PRECONCEITO RACIAL

Cabeleireiro de Taís Araújo é acusado de racismo. Atriz se pronuncia

Cabeleireiro de Taís Araújo é acusado de racismo. Atriz se pronuncia

Taís Araújo interpreta Vitória na trama, uma das personagens principais (Foto: Reprodução/TV Globo)

Publicado em Notas 29/08/2020 às 10:16

A modelo Mariana Vassequi se pronunciou em sua conta no Instagram após ter sofrido racismo durante um trabalho. Em um vídeo que circula nas redes sociais, publicado pela influenciadora Kemilly Fox, ela aparece numa palestra com o cabeleireiro Wilson Eliodorio, que exibe seus cabelos. Na ocasião, o profissional e a modelo foram contratados por uma marca de produtos capilares para demonstrações de “como tratar cabelos étnicos”.

Produtores deixam programa de Ellen DeGeneres após investigação sobre racismo e assédio

“Esse é filhote do patrão. Patrão comeu aqui e gerou isso aqui”, afirmou o Wilson enquanto tocava nos cabelos de Mariana. Em seguida, ele se aproxima de outra modelo e diz: “Esse também é um cabelo brasileiro, pela ascendência étnica, mas aqui é mais comum. A gente encontra na Europa.”

Após a repercussão do comentário racista, Mariana escreveu um longo texto no Instagram para falar sobre o vídeo e como se sentiu com a situação. “Em meio ao evento, em um dos momentos eu e a Ruth Morgan (outra modelo companheira de trabalho que também estava sendo contratada) nos deparamos ouvindo diversas frases muito ofensivas e racistas! Foi triste mesmo! A gente ouviu tudo, percebeu tudo mas naquele momento por medo de sermos demitidas, por medo de acabar a diária e a gente não receber (pois com a pandemia os jobs trabalhos de modelos caíram muito e cada uma já tinha saído de longe pra estar lá eu saí até de outro estado!) e também pela pressão da profissão por naquele momento se tratar de um ambiente de trabalho onde a modelo já é vista como apenas a boneca sem voz, a boneca que tá lá apenas pra provar roupa, desfilar ou ser fotografada”, começou Mariana.

View this post on Instagram

NOTA DE ESCLARECIMENTO – PARTE 1 Fala galera! Beleza? Pra quem não me conhece eu sou a Mari! Sejam bem vindos a minha página e pra quem já me conhecia eu vou contar um pouco do que aconteceu. Eu não posso citar nomes nem locais por motivos de segurança. Eu fui contratada por uma marca de cosméticos para cabelos, para ser modelo do lançamentos do novo produto linha cachos! A marca escolheu a locação em um salão bem lindo e requintado da cidade de SP e também convidou um terceiro. Um suposto “cabeleireiro profissional” para ministrar uma palestra e o que seria um pequeno curso sobre “como tratar cabelos étnicos”, em meio ao evento, em um dos momentos eu e a @ruthmorgamoficial (outra modelo companheira de trabalho que também estava sendo contratada) nos deparamos ouvindo diversas frases muito ofensivas e racistas! 💔 Foi triste mesmo! A gente ouviu tudo, percebeu tudo mas naquele momento por medo de sermos demitidas, por medo de acabar a diária e a gente não receber (pois com a pandemia os jobs trabalhos de modelos caíram muito e cada uma já tinha saído de longe pra estar lá eu saí até de outro estado!) e também pela pressão da profissão por naquele momento se tratar de um ambiente de trabalho onde a modelo já é vista como apenas a boneca sem voz, a boneca que tá lá apenas pra provar roupa, desfilar ou ser fotografada. Então diante desse medo e dessa estrutura sim machista e opressora! Que silencia mulheres, que silencia a modelo! Que silencia a minha cor! E foi tudo tão rápido, que eu me calei. Mas quando cheguei em casa foi um desmorono e reflexões. Por que nos calamos? E por que ninguém na hora falou nada? Não só nós mas por que dentro de um salão com +10 pessoas, por que ninguém interveio? Acredito que alguns não ouviram, mas a maioria foi pior por que OUVIU mas NATURALIZOU! gente como assim? Que país é esse que mundo é esse que você ouve alguém falar que “esse cabelo ou essa pessoa é um filhote de patrão, por que o patrão comeu uma escrava e gerou isso.” Gente! Como isso pode ser normal? Você sabe o que isso significa? Vou te explicar: – (não cabe o texto inteiro, vai ter textão sim então tive que dividir em dois). Tá no post do lado! 👉🏽 #naoaoracismo

A post shared by V A S S E Q U I (@marianavassequi) on

“Simplesmente dizer isso é legitimar a cultura do estupro! Quando você diz com essa frase horrível que “patrão comeu” você tá falando de um estupro, ou você acha que mulheres escravas tinham liberdade sobre seu próprio corpo? Você tá banalizando assédio e sendo machista! Vou te dizer uma coisa, querido. Nós não somos filha de patrão nenhum, você conhece minha família? Sabe quem é meu pai, minha mãe? Então cala a boquinha. E parem de diminuir toda uma ancestralidade, diminuir toda uma história reduzindo sempre o negro (a), sempre o cabelo cacheado/afro/crespo à escravidão. Meu amor, a gente existe muito antes desse pequeno detalhe ter acontecido na história da humanidade! Se você olha pra mim e acha que eu sou só isso você está muito enganado e atrasado”, continuou.

“Só entendi o que era racismo na adolescência”, conta Gilberto Gil

View this post on Instagram

NOTA DE ESCLARECIMENTO PARTE 2 (A parte 1 está no post do lado. 👉🏽) – Simplesmente dizer isso é legitimar a cultura do estupro! Quando você diz com essa frase horrível que “patrão comeu” você tá falando de um estupro, ou você acha que mulheres escravas tinham liberdade sobre seu próprio corpo? Você tá banalizando assédio e sendo machista! E vou te dizer uma coisa QUERIDO nós não somos filha de patrão nenhum, você conhece minha família? sabe quem é meu pai minha mãe? Então cala a boquinha. E parem de diminuir toda uma ANCESTRALIDADE, diminuir toda uma história reduzindo sempre o negro (a), sempre o cabelo cacheado/afro/crespo à escravidão. Meu amor a gente existe muito antes desse pequeno detalhe ter acontecido na história da humanidade! Se você olha pra mim e acha que eu sou só isso você está muito enganado e atrasado. – Depois recebi uns stories do suposto cabeleireiro chorando e falando que foi fora de contexto. Ai ai.. eu conto ou você conta @ruthmorgamoficial? Não foi NADA sem contexto! E não foi só o que foi gravado, foi horas de show de horrores! Você disse o que queria dizer e o que pensa! Você disse o que não fala na cara das famosas, mas fala pra modelos que não são famosas, mas mesmo assim nós temos valor! Meu valor não tá no que eu tenho, ou em números mas no meu caráter coisa que diploma e fama nenhum compra BEBÊ. – Outra frase citada: “Esse cabelo é um cabelo que vem do morro, e agora essas mulheres tem dinheiro e agora elas querem ir em salão chique por isso nós temos que saber mexer com elas.” E muitas outras. 💣 – O que essa pessoa banca nas redes sociais é apenas #BLACKMONEY 👉🏽 quando você finge aderir uma causa mas no fundo é apenas por que você vê potencial financeiro e quer lucrar com isso! – Enfim, perdão você pede pra Deus, aqui a gente tá de olho! RACISTAS NÃO PASSARÃO 🔥Agradeço a todas as pessoas de todas as cores e tipos de cabelo que vieram se solidarizar e ajudar no combate ao racismo, e em especial ao movimento negro GRATIDÃO! Obrigada também as modelos que se pronunciaram e ajudaram! Eu quero dizer que continuarei acreditando no meu trabalho e sonhando em ser uma modelo cada vez melhor por que é o meu propósito de vida! 💖

A post shared by V A S S E Q U I (@marianavassequi) on

Por fim, Mariana também citou um vídeo em que Wilson postou chorando e afirmando que a fala foi tirada do contexto. “Não foi nada sem contexto! E não foi só o que foi gravado, foi horas de show de horrores! Você disse o que queria dizer e o que pensa! Você disse o que não fala na cara das famosas, mas fala pra modelos que não são famosas, mas mesmo assim nós temos valor! Meu valor não está no que eu tenho, ou em números mas no meu caráter coisa que diploma e fama nenhum compra. Outra frase citada: ‘Esse cabelo é um cabelo que vem do morro, e agora essas mulheres tem dinheiro e agora elas querem ir em salão chique por isso nós temos que saber mexer com elas‘”, acrescentou a modelo.

A outra modelo, Ruth Morgan, também se pronunciou:

View this post on Instagram

Boa tarde meu povo lindo! Primeiramente venho agradecer por todas as mensagens de força e carinho de cada um de vocês, isso está sendo muito importante nesse momento porque vemos o quanto somos fortes unidos. É realmente constrangedor ouvir, ver e rever as palavras infeliz dessa pessoa para com a minha amiga de trabalho, comigo e com toda a nosso povo, e triste você ver que ainda existem pessoas que se referem dessa forma estúpida,sem pensar em todo transtorno que essas palavras cruéis causam a nós. Um povo que passou por situações extremas, que foi arrancada de seus lares por mentiras e usadas como escravas, e hoje continuamos na luta pelo nosso espaço de direito pela liberdade de ser quem somos. E em meio a tudo que passamos ainda hoje temos que lidar com tamanho desrespeito e tamanha falta de consciência de uma pessoa que diz cuidar que diz lutar por uma causa porém quando “ ninguém” está olhando falam e agem de forma contrária. O que tenho a dizer é: Você não é a favor de uma causa só por estudar um cabelo que hoje trás retorno para você, ou pelas quantidade de clientes negras que você atende. Mas como você age com outras independente de dinheiro, fama ou status! Hoje temos que prestar mais atenção em como se referem a nos e aos nossos e não permitir que faltem com respeito a nós e a nossa história! Mais uma vez agradeço a todos vocês pela força que estão nos dando e vamos continuar na luta para que nossa voz seja ouvida e que nossa gente Cresça cada dia mais!🙏💪🏿 UM POR TODOS E TODOS POR UM.🤴🏿👸🏾💪🏿 #blacklivesmatter #black #pretosnotopo #podernegro #juntossomosmaisfortes💪

A post shared by Ruth Morgan (@ruthmorgamoficial) on

Taís Araujo fez um forte desabafo nas redes sociais após o caso de racismo de seu cabeleireiro. A atriz justificou sua demora para se posicionar sobre o fato envolvendo seu amigo por ter ‘ficado sem chão e voz’, pediu que o profissional seja responsabilizado por seus atos e se mostrou incomodada que o racismo no Brasil também está inserido entre pessoas negras.

Taís Araujo fala sobre mulher pisada por PM: “tudo de mais violento e horroroso está naturalizado nesse país”

‘O racismo cometido pelo meu amigo e cabeleireiro Wilson Eliodorio me tirou o chão e a voz. Bateu doído. E por isso demorei a falar. E mesmo o amando não posso passar a mão em sua cabeça. Ele deve se responsabilizar por seus atos e se repensar enquanto homem negro, gay e profissional de beleza. Demorei também porque, antes de tudo, sou uma mulher negra e isto me atravessa. Atravessa a todas nós. Demorei porque é terrível ver que a estrutura racista desse país se perpetua até com os nossos, os que amamos’, escreveu. Wilson Eliodorio é bastante conhecido no mundo da moda e trabalha com os cabelos de famosas como Taís Araujo, Cris Vianna, Lellê e Cacau Protásio, entre outras.

Leia o desabafo na íntegra:

Em seu perfil no Instagram, o profissional se pronunciou com um vídeo. “Tenho muita culpa e muita vergonha por ter dito o que disse. Sobretudo pela dor que causei. Ser negro não me faz imune à construção racista desse país. Estou em reeducação. Desculpa Vanessa. Desculpa Ruth”, disse. veja o vídeo na íntegra:

Compartilhe
Publicado por
Anneliese Pires

Comentários