OS AFETOS

Ensaio na quarentena: a relação afrocentrada do ator Gil Paz e o DJ Iury Andrew

Publicado em Galerias 7/07/2020 às 16:17
Ensaio na quarentena: a relação afrocentrada do ator Gil Paz e o DJ Iury Andrew

O DJ Iury Andrew e o ator Gil Paz, em ensaio feito remotamente, via Facetime - Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem

Convidamos o DJ Iury Andrew e o ator Gil Paz para, na quarentena e em isolamento social, conversarem com o Social1 via WhatsApp e posarem num ensaio via Facetime. O texto é de Romero Rafael e as fotos (em galeria no final do post) são de Dayvison Nunes

Por volta dos 18 anos, o ator Gil Paz confrontou o racismo sem disfarce. Ele se apresentava num hotel em Porto de Galinhas quando foi repelido ao aproximar-se de um turista, que apontou para a própria pele, branca. Gil é oriundo da Comunidade Quilombola Onze Negros, no Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife.

Seu namorado, o DJ e modelo Iury Andrew, nascido e criado em Peixinhos, Olinda, não seleciona um episódio de racismo na vida, mas vai à sinopse do problema social: “O racismo participa das nossas vidas desde o dia em que nascemos; por mais que a gente não perceba de cara, por viver em um país que é muito colonizado”. Ele faz referência ao racismo estrutural, que no Brasil tem sido um tantinho mais debatido desde o assassinato de George Floyd nos EUA, no final de maio.

Mas o fato é que, para chegar a algum lugar, uma pessoa negra tem de mover essa estrutura social racista mesmo quando a hashtag #BlackLivesMatter (ou, quando traduzida, #VidasNegrasImportam) não está em alta. Imagine se ela for negra e também LGBTQIA+ (entenda aqui o significado de cada letra da sigla).

Gil Paz tem movido a estrutura desde que a mãe faleceu, com ele aos 9 anos; desde que a família o notou gay (na maioria dos casos, são os outros quem percebem, antes mesmo que a pessoa se dê conta da própria sexualidade); e também desde que despertou para a arte e que viu o racismo, na cena conta no início dessa reportagem. Já Iury, mais fortemente desde os 18, quando fez-se consciente da sua orientação homossexual.

“O amor preto cura”

Há 5 anos, Gil Paz e Iury Andrew se encontraram e vivem uma relação afrocentrada. Num amor sem opressão pela cor, os dois se entendem nas dores comuns a quem tem a pele preta neste País; e, sobretudo, se incentivam a sonhar. Iury explica: “Um relacionamento afrocentrado vai além da estética. É sobre compreensão, cuidado, afeto – porque nossos corpos negros são, por vezes, desumanizados, marginalizados, estereotipados. Ser um casal preto gay numa sociedade racista, ‘LGBTfóbica’ é uma ato de resistência, uma revolução. O amor preto cura.”

Cura, inclusive, do racismo que desenha as relações entre pessoas brancas e pessoas pretas dentro da comunidade LGBTQIA+. “O ‘meio LGBT’ ainda é muito excludente a corpos como os nossos – corpos negros, ou travestis, ou gordos… A gente não se vê representada”, continua Iury, tocando no que é a ponta de um iceberg que vem sendo derretido – seja através de discussões sobre a sexualização (e só) do corpo negro, que serviria para o ato sexual, mas não para um romance com passeio em praça pública; seja também com o entendimento de que as pautas dos gays brancos de classe média (ainda mais as dos heteronormativos) não são as mesmas dos gays pretos e periféricos.

No caso de Iury, além do relacionamento com Gil Paz, ele encontrou a sua gente e o seu espaço na Batekoo – festa que virou movimento e celebra a cultura preta e as pessoas pretas nas suas diversidades, seja de orientação sexual e/ou identidade de gênero. “A Batekoo foi uma bolha criada para nós, pessoas pretas, sermos livres de toda as formas; para a gente se reconhecer no presente e conseguir projetar para o futuro.”

Carreiras

Foi aos 18 anos que Iury Andrew, hoje com 23, começou a tocar. Por interesse próprio, sem equipamento nem referência próxima. Em 2017, botou som em festas de amigos e agradou. No ano seguinte, abriu para a rapper norte-americana Azealia Banks, em evento do Coquetel Molotov, no Recife. Desde então, já mostrou seu set em outras festas na capital pernambucana e também em Petrolina, João Pessoa, Fortaleza, Salvador e São Paulo. Seu som é baseado numa pesquisa musical de música negra – “no geral, sem sonoridade definida”. Neste sábado (11), ele integra a programação do Coquetel Molotov.Exe. Ouça um set dele:

Seu namorado, Gil Paz, 35 anos, atua desde 2002. Começou no Cabo de Santo Agostinho e, em 2009, no Recife, participou de montagens da Companhia Teatro de Seraphim: “As Confrarias”, “Puro Lixo” e “Em Nome do Desejo”, última peça do dramaturgo e diretor de teatro Antônio Cadengue. Também atua em campanhas de publicidade, participou do especial de Natal da Globo Nordeste “A Presepada” (disponível no Globoplay), do stand up da TV Jornal “Tá Puxado”, com Cinderela e Matheus Ceará (que reprisará nesta sexta, 10, às 14h45, além do filme de Fabiana Karla – o ainda inédito “Lucicreide Vai pra Marte”. Na quarentena, exercitou as várias funções de uma produção – da iluminação à atuação e direção – com o texto “Missa de Corpo Presente”, de Herton Gratto. Assista:

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Publicado por
Romero Rafael

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