RELATOS DUROS

Racismo na moda: a modelo Diara Rosa conta que o estilista Reinaldo Lourenço “apontava para as meninas pretas e as tirava do casting”

Publicado em Moda 9/06/2020 às 17:36
Racismo na moda: a modelo Diara Rosa conta que o estilista Reinaldo Lourenço “apontava para as meninas pretas e as tirava do casting”

Diara Rosa, modelo; Reinaldo Lourenço, estilista - Fotos: reprodução

Nas últimas semanas, a luta contra o racismo e pela formação de pessoas antirracistas [pois, mais do que ser contra o racismo, é preciso ser antirracista] tem sido assunto de ampla relevância, ainda bem. Nos últimos dias, esse embate instalou-se no círculo da moda, com relatos de modelos sobre profissionais racistas – entre eles, os estilistas Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço, dois dos principais nomes da moda brasileira. Os casos estão expostos, inclusive, numa conta no Instagram: @modaracista.

A modelo baiana Diara Rosa, uma das vozes que se pronunciou nas redes sociais, falou ao UOL relatos de backstage que viveu. Contou que participou de processos de seleção para campanhas e desfiles de Reinaldo Lourenço, sem nunca ter sido escolhida. “Ficava duas horas em pé, de salto, esperando. Ele tratava a gente de qualquer jeito”, relembrou. “O Reinaldo fazia todo aquele paredão [de modelos] e depois apontava para as meninas pretas e as tirava do casting.” Casting é, digamos, o processo de escolha dos modelos para determinado trabalho.

Sobre Gloria Coelho, Diara Rosa conta que a estilista sequer quis conhecê-la. “Minha agência queria me apresentar para ela, mas ela pegou o meu composite [livro com o portfólio da modelo] e jogou no chão. Eu estava esperando na van e me senti muito triste com tudo aquilo.” A modelo falou mais: “Quando eu era new face [iniciante], meu booker [agente de modelos] disse que não poderia participar do processo da Gloria porque ela não gostava de meninas negras. Então, era uma coisa que todo mundo conhecia”.

“As agências tinham medo de perder o cliente, perder dinheiro, então silenciava as modelos. Nós, em contrapartida, não queríamos problemas”, disse a modelo, dando a entender que os relatos e os “nomes aos bois” só vieram à tona agora fortalecidos pelo movimento Vidas Negras Importam (tradução para o movimento Black Lives Matter, surgido nos EUA após a morte de George Floys por um policial branco).

“Um certo nojo”

A experiência de Diara Rosa com trabalhos no exterior ofereceu a ela uma compreensão ainda mais dura em relação às posturas de Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço diante dela e de outras modelos negras. “Quando trabalhei no exterior, percebi que eles [Gloria e Reinaldo] não são estilistas. O mundo da moda é racista, mas é um racismo estrutural, está em todo lugar. Já Gloria e Reinaldo sentem um certo nojo, sabe?”

Assista a um vídeo publicado por ela em seu Instagram:

“Estou aqui me comprometendo a ser melhor”, diz Gloria Coelho

Gloria Coelho, assim que teve seu nome citado nas denúncias feitas pelas modelos no Instagram, encaminhou mensagem a uma delas, Thayná Santos, responsável por puxar o cordão e incentivar outros colegas de profissão a fazerem o mesmo.

A estilista também divulgou nota em que diz: “Sinto muitíssimo que você ou qualquer outra menina tenha se sentido desprivilegiada ou sem acesso às mesmas oportunidades dentro da minha marca e do sistema de moda. Reconheço que por muitos séculos a moda privilegiou padrões de beleza eurocentristas, e que eu ou pessoas da minha equipe no passado possamos ter compactuado com isso, ou sido interpretados dessa forma. Estou aqui me comprometendo a ser melhor, a garantir que minha equipe seja melhor. Está nas nossas mãos desmantelar o racismo sistêmico.”

“Me comprometo a incluir mais modelos afrodescendentes, indígenas nos meus desfiles. Me comprometo a partir de agora”, lê-se em outro trecho da nota de Gloria Coelho.

Comunicado de Reinaldo Lourenço

Sobre os relatos em que é citado, Reinaldo Lourenço disse em comunicado oficial: “Eu errei. Tenho consciência de que me faltou empatia e compreensão em relação às modelos negras e aos outros profissionais de moda. Desculpem-me”.

Continua o comunicado: “As recentes críticas e observações de quem se sentiu constrangido em algum casting, backstage ou desfile suscitaram autorreflexão. Eu vou mudar, assim como o sistema da moda será obrigado a mudar também. Comprometo-me a promover inclusão efetiva, com mais modelos negras na passarela e nas campanhas. Quero contribuir para que as mulheres negras também sejam respeitadas como consumidoras da moda nacional. Não medirei esforços a fim de ampliar a representatividade e valorizar a diversidade racial brasileira por meio da minha marca”.

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Publicado por
Romero Rafael

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