ANÁLISE

Interessada em política, Anitta tem agido pelo Brasil

Interessada em política, Anitta tem agido pelo Brasil

Anitta - Foto: reprodução de @anitta

Publicado em Famosos 14/05/2020 às 8:00

Nas Eleições 2018, Anitta foi muito cobrada a se posicionar politicamente. Entende-se: a artista é mais do que uma cantora, mas uma das personalidades com maior capital de influência no Instagram, a principal rede social; e boa parte de seu público é feita de mulheres e pessoas LGBTQI+, identidades ameaçadas pelas declarações machistas e homofóbicas dadas pelo então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro.

A pressão sobre Anitta foi tamanha: esteve entre os assuntos mais comentados no Twitter e rendeu bate-boca com a participação dela mesma. Seu posicionamento foi falar que não votaria em “candidato machista, racista e homofóbico”, reiterando, porém, que não era obrigada a abrir seu voto.

Dá pra entender tanto quem cobrava – reivindicando que a artista a quem fomentava fosse, no mínimo, empática -, quanto dá pra entender Anitta, que desfrutava do auge da carreira, divertindo gregos e troianos, ainda jovem e sem formação política o suficiente para entender que, naquele momento, tomar um lado e torná-lo público significava mais do que tomar partido. E que fique claro: entender não significa concordar.

Agora, durante a pandemia, sem o espectro partidário e pessoalmente mais amadurecida, Anitta tem sido politicamente atuante. Como devíamos ser todos nós, cidadãos, e como precisamos que sejam os influenciadores digitais e formadores de opinião. É importante que Anitta tenha despertado para essa atuação: são 46,8 milhões de seguidores; e reduzir esse alcance todo à divulgação de produtos e aos lançamentos que fazem a roda do show business girar é um desperdício.

Influenciadores, ou celebridades (termo cada vez mais caducando), tornam-se mais relevantes quando dão retorno social, até como uma contrapartida pelo espaço que ocupam e a legitimidade que lhe atestaram milhões de pessoas. Hoje, mais do que nunca, quando o único ego possível é o da autorreflexão e do autocuidado, o engajamento social confere capital de influência.

Ainda que se pense que Anitta tem tratado de assuntos políticos estrategicamente, e não só por um interesse espontâneo, ela tem sabido aproveitar esse momento de isolamento – em que shows e lançamentos não existem – para avançar ainda mais como uma artista influenciadora, ao penetrar outros meios, conquistar públicos novos e pessoas antes ressabiadas com a sua carreira.

Com o drama vivido pela maioria dos brasileiros perante os efeitos da pandemia, as doações são importantíssimas – e como têm ajudado os vários artistas em live-shows -, mas tão necessário quanto é o esclarecimento que Anitta vem proporcionando, ao dar visibilidade, cedendo seu espaço e se dispondo a entender e discutir temas urgentes para que o País erre menos na escolha e cobrança de seus governos.

As lives políticas de Anitta

Reportagem da Folha de S. Paulo diz que Anitta vem incomodando Brasília. E vem mesmo. Pelo menos duas medidas provisórias recuaram no Congresso Federal depois que a artista se interessou por discuti-las, apontou problemas e fez repercutir o assunto nas redes, formando pressão.

Primeiro, houve o envolvimento de Anitta na discussão da emenda apresentada pelo deputado federal pernambucano Felipe Carreras (PSB) à MP 948/20, que mudava o pagamento do direito autoral e tratava o assunto como relevante para ser votado no contexto de pandemia. O engajamento foi, sem dúvida, determinante para que o parlamentar, pressionado, desistisse de seguir com a proposta na Câmara. A live dos dois foi vista – só no perfil da própria Anitta, sem contar com o ao vivo nem com as edições e republicações do vídeo – por cerca de 3,2 milhões de pessoas, reunindo 13,3 mil comentários.

Bem possível que a dinâmica do poder Legislativo apresentada por Felipe Carreras foi o que aguçou Anitta a entender como funciona a política no Brasil. Para isso, ela convidou a amiga Gabriela Prioli, comentarista da CNN Brasil, um nome em ascensão pela clareza e assertividade com que trata assuntos políticos. A live “Vamos entender de política”, que continua disponível em seu perfil, é um tipo de educação política e só no modo off-line recebeu cerca de 3,4 milhões de visualizações e agregou 11,3 mil comentários.

Anitta, nas lives, se mostra interessada a aprender: vai para o ao vivo tendo já estudado ou consultado algo, e também faz perguntas sem pudor de demonstrar não saber, o que pode estimular que outras pessoas se sintam à vontade em expor seus desconhecimentos, para então aprenderem. Pelo mesmo motivo sofre chacota – a sorte é que ela já disse estar “cagando” para quem critica.

Assista à live de Anitta com Gabriela Prioli, “Vamos entender de política”:

Já na terça (12), Anitta recebeu numa live o deputado federal carioca Alessandro Molon (PSB) para tratar da MP 910, conhecida como “MP da grilagem”, que teve a votação suspensa, após pressão. A medida provisória, que divide ambientalistas e a bancada do agronegócio na Câmara Federal, queria permitir a regularização (ou, em outras palavras, a anistia do crime) de invasão de terras públicas, nos casos praticados até o final de 2018, o que favoreceria o desmatamento ilegal e a grilagem, entre outros efeitos.

Anitta tem mergulhado tão bem nas águas da política, que alertou seus seguidores para que fiquem atentos à mobilização de deputados que devem trazer o mesmo interesse em forma de projeto de lei. A propósito, a diferença entre uma medida provisória (MP) e um projeto de lei é algo que se encontra no perfil de Anitta.

Assista à live de Anitta com o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ):

Candidata à Presidência?

A falta de intimidade da maioria dos brasileiros com uma prática cidadã, a qual presume um ser político, desconfia que Anitta tem feito o que tem feito por, de repente, estar interessada em ingressar na política. Há também, no brasileiro, muita carência por um novo nome na política – seja qual for. Sobre o rumor, a cantora foi enfática: “Não quero que ninguém pense que é porque eu estou querendo entrar para a política. Eu só estou fazendo o meu papel como cidadã”.

E assim vai indo muito bem.

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Publicado por
Romero Rafael

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