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Luto: morre, aos 92 anos, o grande artista plástico Francisco Brennand

Luto: morre, aos 92 anos, o grande artista plástico Francisco Brennand

Foto: André Nery/JC Imagem

Publicado em luto 19/12/2019 às 12:20

Uma pneumonia levou, nesta quinta-feira (19), o artista plástico Francisco Brennand, aos 92 anos. Brennand morreu às 11h, no Real Hospital Português, área central do Recife. Um dos maiores artistas pernambucano. Um criador, um visionário. Um vanguardista. Brennand não só tinha talento, mas deixou um legado para a cidade, com inúmeras obras.

Em uma das suas entrevistas para o Social1, o artista confidenciou ter medo de morrer e do que poderia ocorrer aos seus. Disse achar a morte uma violência: “A morte é a sensação violenta da vida; é o contrário da vida”. E também discordou das cerimônias mortuárias. Até deixou em testamento que queria ser cremado, sobretudo por causa da sua relação com o fogo. Sobre desejos póstumos, sonhava na manutenção da Oficina e da obra que lá está. “É o meu legado”.

O velório começa a partir das 15h, na própria Oficina, casa que ele ajudou a criar, na Várzea. O corpo do artista será cremado, segundo seu desejo registrado em testamento.

PESAR

O empresário João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, lamentou a partida do artista plástico e exaltou seu legado. “A cultura de Pernambuco tem muitas marcas, sendo uma das mais ricas do País. E, sem dúvida, uma das grandes referências está justamente na produção artística de Francisco Brennand. É uma grande perda para todos. Sua obra marcou época e contribuiu com a projeção do Estado no mundo. Deixa para todos nós um dos maiores valores: sua produção artística que tanto nos orgulha”, disse.

Veja o vídeo com o artista

Francisco sempre foi um apaixonado pela arte. Foi exímio escultor e pintor. Gostava também de ler e escrever sobretudo diários. Criou um espaço, uma espécie de lar das artes, que, logo, virou ponto turístico na cidade. Não raro era fácil encontrar por lá. Não era muito de sair do seu cantinho, mas era, entre suas obras, que se sentia em casa.

Veja também: Brennand fala sobre vida e morte

A vida e o tempo sempre foram enigmáticos para Brennand: “Não é claro, é turvo, e isso me faz dormir em paz, porque senão eu não dormiria”. Continua: “Nós pensamos e partimos de um zero a esquerda e nos projetamos para um infinito… Acho que é um abuso de confiança. Acredito mais num eterno retorno, num tempo circular e que não há nada de novo. Acredito que as coisas que aconteceram estão acontecendo e irão acontecer. Mas vocês [jovens] podem ter esse privilégio de pensar que somos novos. Eu já não tenho”.

Brennand: o futuro tem um coração antigo

Mesmo com certa idade, Francisco se mantinha atualizado. “Se você não está na internet, você está morto”, disse, rindo, ao repórter Romero Rafael.

Quando confrontado com o envelhecer, Francisco Brennand relembrou a juventude e dos movimentos agora não mais possíveis com a idade avançada. “Eu cultivei muito na juventude a natação – o nado é uma maravilha! Fiz pesca submarina, jogava futebol, tênis, voleibol, basquete, tudo igualzinho aos outros. Apenas os meus interesses pela literatura e pintura foram se intensificando e eu preferi ir para a Europa, que marcou a minha vida para sempre. E se ser um pintor é não ser ninguém, então eu sou ninguém”.

Relembre o especial que fizemos sobre Francisco Brennand, durante as comemorações dos seus 90 anos.

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TRAJETÓRIA

Francisco Brennand nasceu em 11 de junho de 1927, filho de Ricardo de Almeida Brennand e Olímpia Padilha Nunes Coimbra, nas terras do antigo Engenho São João, na Várzea.

Em 1937 foi estudar no Rio de Janeiro onde permaneceu interno no Colégio São Vicente de Paula, em Petrópolis. Em 1939 retornou ao Recife e ingressou no colégio Marista. Em 1942 começou a trabalhar na Cerâmica São João, fundada por seu pai, em 1917, nas terras do antigo engenho, onde recebeu orientação do escultor Abelardo da Hora, então empregado da cerâmica.

Em 1943, Francisco ingressou no Colégio Oswaldo Cruz, onde conheceu Deborah de Moura Vasconcelos, sua futura esposa, e travou amizade com Ariano Suassuna, seu colega de classe. Nessa época, ilustrava os poemas que Ariano publicava no jornal literário do colégio. Em 1945, começou a receber orientação do pintor e restaurador Álvaro Amorim, um dos fundadores da Escola de Belas Artes de Pernambuco, que havia sido contratado por seu pai para restaurar algumas obras da coleção de João Peretti adquirida por ele.

Entre 1945 e 1947 estudou com o pintor Murillo La Greca. Em 1947 recebe seu primeiro prêmio de pintura do Salão de Arte do Museu do Estado de Pernambuco, com a obra “Segunda Visão da Terra”, uma paisagem inspirada nas terras do Engenho São João. Em 1948 recebe o prêmio e uma menção honrosa por seu autorretrato com “Cardeal Inquisidor”, inspirado no retrato do cardeal inquisidor, Dom Fernando Nino de Guevara, de El Greco.

Ainda em 1948, casou-se com Deborah e no ano seguinte, convencido pelo pintor pernambucano Cícero Dias, que morava em Paris, o casal embarcou para Europa, onde Brennand estudou pintura com Fernand Leger e Andre Lother. Em 1950 foi para Barcelona, onde descobriu a arte de Gaudí. Em 1951 retornou ao Brasil, mas logo voltou à Europa, para aprofundar as técnicas da cerâmica, iniciando um curso na província de Perúgia, na Itália. Foi o início de sua experiência com esmalte cerâmico e queimas em temperaturas variadas.

Em 1954, Francisco Brennand realizou seu primeiro grande painel na fachada da fábrica de azulejos da família. Em 1955 participou da II Bienal de Barcelona. Em 1958 inaugurou um mural cerâmico na entrada do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife. No ano seguinte, participou da V Bienal de São Paulo, com três telas. Em 1961 inaugurou o mural “Batalha dos Guararapes”, para uma agência bancária do Recife, e o mural “Anchieta” para o ginásio Itanhaém, em São Paulo.

Em 1971, o artista começou a reconstruir a antiga fábrica de telhas e tijolos da família, fechada em 1945, dando início a um colossal conjunto de esculturas, a “Oficina Brennand”. O local que foi recriado com elementos da arquitetura da antiga fábrica e cercado por jardins de Burle Marx se transformou em museu-ateliê do artista reunindo mais de 2 mil obras de cerâmica, grande parte dispostas a céu aberto, é hoje um importante ponto turístico da cidade do Recife.

Francisco Brennand possui cerca de 80 obras entre murais, painéis e esculturas exibidas em prédios públicos e edifícios particulares espalhados na cidade do Recife, e em outras cidades do Brasil e do mundo, como o mural cerâmico da sede da Bacardi em Miami, com 656 metros quadrados. É de sua autoria as 90 obras expostas no monumental “Parque das Esculturas”, construído no ano 2000, sobre um arrecife natural localizado em frente ao Marco Zero, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil, que se tornou importante ponto turístico da cidade do Recife.

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Publicado por
Mirella Martins

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