Ney Matogrosso: “Enquanto eu puder, eu faço”

Ney Matogrosso: “Enquanto eu puder, eu faço”

Ney Matogrosso, em registro feito durante coletiva de imprensa - Foto: Alexandre Gondim / JC Imagem

Publicado em Entrevista 30/08/2019 às 6:47

No Recife com a sua nova turnê, “Bloco na Rua”, Ney Matogrosso, 78 anos, renovará neste sábado (31) o poder de sedução e mistério que exerce sobre seu público. Um público tão grande e, de certa forma, heterogêneo que só pode ser feitiço, como foi batizado seu disco de 1978.

O “Bloco na Rua” vai ao palco do Teatro Guararapes, às 21h – e é capaz que nem ingresso haja mais. Nesta semana, o Social1 conversou com o cantor, em entrevista coletiva. Acompanhe:

Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem

Assim como na turnê anterior, “Atento aos Sinais”, você começa pelo show, e depois que lança o CD e DVD. Por que faz ao contrário?
Chego na gravação já mais maduro, sabe? Quando eu gravava disco por obrigação, por contrato, gravava e não tinha nem entendido direito.

Mas eu já gravei o CD e DVD dessa turnê, no Rio de Janeiro, recentemente. Não foi para público. A gente fechou um teatro e montou tudo como se fosse para um show, mas eu queria dar liberdade para filmarem dentro do palco. Então, fizemos para gravar. Eu cantei “A Maçã” [música de Raul Seixas, que é um dos destaques do repertório de “Bloco na Rua”] com o cara na minha cara [faz gesto com a mão, como se alguém estivesse perto do seu rosto, quase de frente], e eu tendo que fingir que ele não estava [rs].

Lembro que “Atento aos Sinais” tinha uma pegada bem rock, e esse?
Esse ‘tá’ misturado – umas têm uma pegada de rock, outras nem tanto, mas o
rock ‘tá’ lá.

Seleção de músicas
Eu fiz um repertório já gravado por muita gente, porque eu não tenho esse tipo de problema. Tem gente que tem, ‘né’? Eu acho que vou dar a minha leitura, a minha visão, sobre aquilo, e o show é baseado nisso. São músicas que já foram gravadas por outras pessoas, até mais de uma vez, e algumas do meu repertório antigo, coisa que eu não faço com muita frequência. Só tem uma inédita, que eu nem tinha intenção de colocar.

Nome da turnê [tirado da música “Eu quero botar meu bloco na rua”, de Sérgio Sampaio]
Sempre quis cantá-la, agora achei que era hora, e dela tirei o nome do show. Dá uma ideia que estimula algo em movimento; algo se mexendo, andando.

Ney responde se há paralelo entre o repertório e o Brasil atual
Eu não ‘tô’ fazendo discurso político, não. Eu não faço discurso, sou muito mais sutil. Não me interessa fazer discurso, não sou de discurso. Mas isso não me impede de falar e cantar o que eu tiver vontade.

(Um repórter comenta que ele é o próprio discurso…)
Eu sou o discurso, então eu não preciso fazer. Eu sou a bandeira, eu não preciso pegar a bandeira. Eu sou a própria.

Ney fala sobre comentário recentes acerca da política à imprensa
Eu comento. Não ‘tô’ dizendo que vou fazer meu trabalho pautado em ninguém. Esse repertório ‘tá’ pronto há dois anos, vinha fazendo calmamente, portanto, se acham que alguma coisa possa ser vista como política, seria política para qualquer um [governo], porque quando eu fiz não tinha horizonte indicando nada do que ‘tá’ acontecendo agora. ‘Tava’ fazendo repertório independentemente, pelo prazer de dizer aquelas coisas, e acho que o que ‘tô’ dizendo é compatível.

O Brasil, hoje, para quem faz arte

Agora ‘tá’ ficando pior, que ‘tão’ atacando gravemente o cinema, ‘né’? Acho uma tristeza, uma infelicidade, filmes sendo proibidos. Então, se trata de uma censura isso, não posso me referir de outra maneira que não seja censura.

Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem

Para falar de estética, como você pensou no figurino?
Foi a primeira vez em que eu não opinei, porque eu gosto de estar junto, mas o Lino [Villaventura, estilista cearense] não queria. ‘Tudo bem, mas se eu não gostar, não vou usar’, porque não sou obrigado a usar alguma coisa que eu não me sinta bem, ‘né’? Mas eu gostei. Já tinha visto a ideia da cabeça, e aquilo me pareceu muito interessante: entrar sem verem meu rosto. Dura um minuto, logo eu tiro, mas acho extravagante entrar como um ser de não sei onde…

Você também costuma fazer a iluminação, ‘né’?

Esse eu não tive tempo de fazer tudo. Fui até a 7ª música, “Álcool”, e depois o Juarez [Farinon] seguiu, mas trabalho com ele há muito tempo, então ele já sabe. Dá um trabalhão danado! A minha luz nunca é uma luz normal, comum, é toda trabalhada. Vou com ele vendo o que tem de imagem, cor e movimento. ‘Quando começar essa música vai pra isso; nessa palavra tudo muda’, e aí a gente vai formando, desenhando. É um bordado mesmo, uma tapeçaria. É trabalhosa.

“Álcool”, a música de DJ Dolores, é do filme “Tatuagem”?

Quando ouvi no filme, fiquei louco! ‘Ah, eu vou cantar essa música’.

Sobre as capas dos discos

Mesmo em CD [comparando aos vinis] eu me volto. Tudo meu passa por mim. Não sei se isso é muita loucura, mas acho que tem de ser muito coerente com o que eu penso. Então, as capas, todas, quem determina sou eu. A primeira imagem que é mostrada de cada trabalho meu quem determina também sou eu, porque acho que a primeira é muito importante.

Shows no exterior [com “Bloco na Rua”, Ney Matogrosso irá a Londres, pela primeira vez]
Já fui a Alemanha, onde ninguém entende uma palavra, e eu corria para um lado e as pessoas corriam, corria para o outro e elas corriam. Eu não entendo o que é que move as pessoas, se elas não me entendem, porque acho que meu trabalho é baseado na palavra. Eu determino o que vou cantar pelas palavras. Então, a palavra tem um peso muito grande. Eu fico imaginando quando não entendem a palavra como é, o que é… Eu não sei.

Cuidados com o corpo e a saúde

Como pouco, não por causa de nada, mas porque não gosto de sair da mesa me sentindo pesado. Faço ginástica diariamente – não para ficar forte, mas para manter meu tônus muscular. E acho que a cabeça me leva; eu inventei, como é que não vou realizar? Por mais que seja pesado – porque é, nunca teve show leve, todos exigiram muito de mim fisicamente; não é que agora exija mais, mas, pelo contrário, eu suava até mais do que suo hoje em dia – não sei, nada me impede. Ainda. Sei que, inevitavelmente chegará esse pesado da vida, mas enquanto eu puder, eu faço.

Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem

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Romero Rafael

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