Mestre Nado perpetua a arte do som do barro

Publicado em cultura Especial Música 11/08/2019 às 8:00
Mestre Nado perpetua a arte do som do barro

Neste Dia dos Pais, Mestre Nado conta a história do Som do Barro ao lado dos filhos Micael e Sara (Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Mestre Nado se alimentou do barro ainda no ventre da sua mãe, que saciava a necessidade de ferro e outros nutrientes mordiscando alguns pedaços de argila quando estava grávida, em 1945. Aos cinco anos, descobriu sua paixão pela matéria-prima e logo tornou-se oleiro, artesão e músico — ocupação esta que rendeu-lhe o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. Descobriu em Olinda as propriedades sonoras do material que molda a vida nordestina. Atualmente, seus filhos dão continuidade ao Som do Barro, que já encantou ouvidos de Tracunhaém à  França.

Aos 74 anos, Mestre Nado recebeu este repórter ao lado da sua filha, Sara, na porta da sua oficina. “É aqui que eu faço minha arte, só não chamo de ateliê, porque acho muito pomposo”, comentou antes de abrir uma risada forte e contagiante. Ao seu lado, descansava a argila que, nas suas mãos, poderia transformar-se em tijolos, quartinhas (recipiente de água potável), panelas, cisnes, homens e, graças à sua percepção, também tornar-se som.

Já na sua cadeira, ao lado dos poucos instrumentos não vendidos na Fenearte deste ano, recordou: “Pra eu chegar onde cheguei, foi um trabalhão medonho. Tudo começou com uma bola — traz a bola, Sara — de barro. Eu cresci ali, nos Bultrins, na Avenida Chico Science. Aquilo era um capinzal e, em baixo, tinha argila. Fizeram uma olaria na entrada do Córrego do Monte e desde pequeno trabalhei como oleiro: apanhava argila da sobra da olaria que fazia tijolo batido. Cresci apanhando barro, fazendo panelinha e bolinha oca”.

A bola oca, porém, logo transformou-se na ocarina, seu primeiro instrumento de barro: “Eu estava com uma dessas, que é uma coisa que eu sempre faço. Ela deu origem a toda a minha história com música. Antes eu era oleiro, mas não tinha uma coisa minha pra assinar, apesar de fazer belos artesanatos. Foi quando me veio a vontade de fazer um apito e parece que eu já estava vendo tocar. Quando fiz, foi muito emocionante. Levei pra uma amiga minha curadora e ela disse: ‘Você vai fazer belas esculturas que cantam’. Eu quase não acreditava e hoje estou aqui”, recordou Mestre Nado com sorriso largo, enquanto acariciava os instrumentos postos ao pé da sua cadeira.

“Eu canto a música do oleiro. Na época não tinha rádio, tinha no máximo um baixo-falante, que pegava a Rádio Jornal, Tamandaré e Clube. Mas era baixinho e aí acontece que os oleiros desenvolveram voz para cantar. A argila deixa você relaxado e cada um queria cantar mais solto. Eu lembro que um amigo cantava Silvio Caldas assim. Hoje eu canto essas músicas nas minhas oficinas”.

Ao lado da mesa onde Sara batia argila na preparação de uma nova peça, o Mestre sentou diante de um livro de partituras e, antes de dar sequência à conversa, tratou de encantar o ambiente tocando o ocarinado que manteve próximo durante boa parte da entrevista.

Reconstrução a partir do barro

Antes de tornar-se mestre, Nado foi obrigado mais de uma vez a reconstruir sua relação com a primeira matéria-prima do homem: em Olinda, foi oleiro e artesão até que as geladeiras tomassem seu mercado de quartinhas e recuasse para Tracunhaém. Quando a tecnologia chegou no interior, aprendeu a fazer artesanato e trabalhou na Oficina de Cerâmica de Francisco Brennand, com quem teve proximidade.

“Quando estava saindo, disse pra ele: ‘Quando eu descobrir algo diferente, venho aqui lhe mostrar’. Ele deu uma risada. O que eu ia fazer diferente daquela grande indústria de esculturas fabulosas?”, brincou Nado. Anos depois, criou suas esculturas cantantes de sopro.

Painel do Som do Barro, que se encontra na oficina de Mestre Nado (Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem)

O mestre, porém, recorda das dificuldades enfrentadas em Olinda. Há 40 anos, olindenses já tinham parte das suas vidas carregadas pelas águas que invadem a cidade, assim como aconteceu poucos meses antes desta entrevista com Nado.

“Quando eu saí de lá, vim pra cá e, equipados e arrumadinhos, levamos uma cheia de rachar. Ela desestruturou a parte que tinha de fazer escultura, que era o que eu tinha pra fazer a minha marca, para assinar o meu negócio. Mas acabei descobrindo que aqui em baixo tem argila, boa demais para trabalhar artesanato, é de primeira, macia. Eu com o torno de oleiro comecei a desenvolver”, recordou.

Os filhos de Mestre Nado: sementes do Som do Barro

Nesta época do streaming frenético, não escuta-se mais na rádio a história de Jerônimo: O Herói do Sertão, saga acompanhada por Mestre Nado nos seus tempos de oleiro. Seus filhos, mais contextualizados com este cenário, já buscam eternizar a voz do pai não somente dando continuidade ao seu trabalho com a mão no barro, mas também colocando sua voz no oceano virtual.

Sara (41) e Micael (43), que lançaram ao lado do patriarca o CD O Som do Barro, já buscam maneiras para publicar o álbum nas plataformas digitais. O CD  foi produzido em 2014 com recursos do Funcultura. É a forma que eles encontraram para que sua música continue ecoando para além do barro modelado pelas múltiplas mãos que aprendem a desenvolver as criações do músico.

“Já nascemos tendo contato com o barro. Não somente na parte da música, como também o processo de pesquisa e também a do artesanato. A vida dele [Nado] passou por várias fazes: a primeira como oleiro, depois trabalhando na Só Cerâmica com portugueses, depois Brennand e por fim aqui [Olinda], onde foi artesão até descobrir uma marca que ele pudesse assinar o nome. Então desde o artesanato a gente já trabalhava com pintura, preparação da argila, acompanhamento da queima e até secagem das peças”, recorda Sara.

Aguçada na pesquisa do sobre o barro, ela explica: “Ele começa a aprender a tocar fazendo o instrumento e aprende a fazer tocando. Ele também não sabia da existência da ocarina, que pode ter sido um dos primeiros instrumentos de sopro inventados pelo homem. Pois o barro é a primeira matéria-prima do homem”.

“Quando ele relaxou um pouco no processo da busca pelo som, foi quando ele pensou que precisava de alguém para acompanhá-lo. É neste momento que entramos nessa história e ele passa a pesquisar instrumentos de percussão e criou o bum d’água [instrumento tocado por Micael no vídeo acima], que não havia outro semelhante e ninguém tocava. Acabou sendo bacana, pois me deparei com aquele instrumento e desenvolvendo uma técnica de tocar com a ponta dos dedos e percebi que na ponta dos canos produzia este som”, conto Sara, que toca com o pai e o irmão há cerca de vinte anos.

Mais tímido que a caçula, Micael comenta sua participação na oficina: “Desde a infância estamos trabalhando muito, seja na confecção e vendas de instrumentos ou trabalhos sociais e oficinas”. Perguntado se pensou em seguir outra ocupação, o filho de Nado sorri e é pragmático: “Nunca, toda nossa vida foi esse caminho”. Apesar de ser mais comedido, “Micael é mão na massa”, como disse o mestre.

A parceria familiar chamou atenção dos olhos – ou ouvidos – das equipes de artistas como Milton Nascimento e Ney Matogrosso: “A gente viveu uma experiência com os percussionistas deles. Há cerca de 20 anos, participamos de um encontro de percussionistas e no dia da nossa apresentação eles estavam lá e se encantaram com nosso trabalho”.

As artes, os sons e afetos produzidos por Nado não restringem-se às paredes da oficina localizada no número 43 da Rua Barão de Steple, no bairro de Caixa D’Água, Olinda. Essa história começa bem antes, quando o homem começou a modelar sua vida com o barro e criou uma cultura relacionada à olaria e artesanato. Ela também não termina com o mestre, que logo tratou de repassar seu conhecimento à esta geração, que segue curiosa perpetuando o som do barro.

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Publicado por
Victor Augusto

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