“Retórica Canibal”: Recife recebe mostra de Adriana Varejão

“Retórica Canibal”: Recife recebe mostra de Adriana Varejão

Adriana Varejão Foto Vicente de Mello | Imagem: Vicente de Mello / Divulgação

Publicado em Artes Eventos Exposições 26/06/2019 às 2:01

O Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM) recebe a mostra Por uma retórica canibal, de Adriana Varejão. É a primeira vez que o Recife recebe um conjunto significativo da obra da renomada artista visual carioca. A abertura da exposição acontece nesta sexta-feira (28), Às 19h. Com curadoria de Luisa Duarte, ela fica em cartaz, gratuitamente, até 8 de setembro.

São exibidas 25 obras dos seus mais de 30 anos de trajetória, realizadas entre 1992 e 2018. Elas incluem trabalhos seminais como Mapa de Lopo Homem II (1992-2004), Quadro Ferido (1992) e Proposta para uma Catequese, em suas Partes I e II (1993). O recorte abrange diferentes fases de produção da artista, com ênfase ao fado de que, muito antes dos estudos pós-coloniais estarem no centro do debate da arte contemporânea, Adriana Varejão já procurou desenvolver pesquisa uma centrada na revisão histórica do colonialismo.

Adriana Varejão na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Cachoeira, Bahia (Imagem: Vicente de Mello / Divulgação)
Adriana Varejão na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Cachoeira, Bahia (Imagem: Vicente de Mello / Divulgação)

Essas questões encontram dialogam com a história colonial pernambucana, marcada por fatores como sua vocação e tradição na monocultura da cana-de-açúcar no período, a presença dos holandeses e a disputa pela terra, e as revoltas insurgentes contra Portugal. O título da exposição faz referência ao vínculo da sua obra com a tradição barroca. A retórica, estratégia recorrente do barroco, é procedimento que busca a persuasão. A retórica canibal seria, nesse sentido, um contraprograma da narrativa cristã e do projeto de colonização europeu. Ela promove uma ruptura com a construção dos pensamentos e ações ocidentais modernas, partindo em busca dos saberes locais, como o legado da antropofagia.

“Desde os anos 1980, quando comecei a pintar e pesquisar sobre o barroco, tomei como referência várias igrejas do Recife. Algumas imagens sempre permaneceram dentro de mim e as carrego até hoje, como o altar da Basílica de Nossa Senhora do Carmo, a azulejaria do Convento de Santo Antônio, ou mesmo o teto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares. Todo esse repertório me ajudou a moldar minha linguagem. Outra lembrança marcante é uma visita que fiz à feira de Caruaru. Lá me deparei com as carnes de charque dobradas e cortadas em nacos, com sua superfície marmoreada, e, a partir daí, iniciei a série das Ruínas de Charque, que tenho desenvolvido até hoje. Esses e outros exemplos reiteram a minha emoção de estar realizando esta primeira individual no Recife, tão perto de algumas importantes referências”, comenta Adriana Varejão.

Assim, o público pode entrar em contato com o passado, trazendo à luz histórias ocultas ou pouco visitadas pela história oficial. A seleção de trabalhos revela ainda a rede de influências que atravessa a obra da artista: do citado barroco à China, da azulejaria à iconografia da colonização, da história da arte à religiosa, do corpo à cerâmica, dos mapas à tatuagem, vasto é o mundo que alimenta a poética de Adriana Varejão. Ao longo da exposição comparecem trabalhos de quase todas as séries produzidas pela artista, tais como: Proposta para uma Catequese, Línguas e cortes, Ruínas de Charques, Pratos, Azulejões e Terra Incógnita.

A mostra vai ocupar todas as salas de exposição do Museu. No térreo, o público poderá ver a instalação em vídeo Transbarroco (2014). Nos demais andares, as outras obras serão dispostas junto com um conjunto de textos que descrevem e contextualizam cada uma delas. O público também poderá conferir um site specifico da artista, que não está na seleção curatorial, mas que faz parte do acervo do museu: Panacea Phantastica (2003).

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Publicado por
Victor Augusto

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