Por que você (não) vai ao museu?

Por que você (não) vai ao museu?

Oi Futuro, no Rio, além de abrigar o Museu das Telecomunicações, é um espaço de convivência, com salas de exposição, cafeteria e teatro - Foto: Renato Mangolin / Divulgação

Publicado em cultura 28/05/2019 às 3:24

Rio de Janeiro – Imagine uma criança levada ao museu pela escola. Lá, ela encara um acervo que conta uma história longínqua ou, quem sabe, uma exposição de arte abstrata. É orientada a fazer silêncio absoluto, não tocar em nada nem passar da linha que separa o público da obra. Na volta à sala de aula, terá de escrever um relatório dizendo o que viu e o que entendeu. E se ela não entendeu?

Quem sabe aconteceu assim (ou parecido) com você. Não é difícil que tenha ocorrido: numa pesquisa com 600 brasileiros, 55% responderam que o primeiro contato com um museu aconteceu via escola.

Essa experiência pode render, pelo menos, dois problemas aos museus e a nós. Primeiro, que a criança acaba compreendendo a ida ao museu como, apenas, uma quebra da rotina escolar para uma atividade extra – mas, ainda assim, escolar, uma vez que é cobrada por absorção de conhecimento. Deixa de ser um espaço simpático, de onde se olha o mundo (e para onde ela pode voltar mais vezes), e passa a ser um espaço utilitário – se, na infância, é para fazer “trabalho” da escola, na vida adulta é para turismo, sendo apenas outra quebra de rotina.

Segundo, é compreensível que alguém não queira mais voltar ao museu por causa de uma vivência traumática de quem se viu tendo que cumprir uma obrigação escolar após a visita (como se fosse uma prova), sobre o que ela talvez nem soubesse falar (como se, na arte, houvesse uma interpretação certa ou errada, e o aluno tivesse de acertar). Há uma geração de pessoas que, por achar que não entendem, cresceram com a ideia de que museus não são para elas.

Trabalho de Chico Cunha recria personagens de obras de arte em esculturas de balas coloridas de caramelo; cerca de uma tonelada do doce foi usada na confecção. Trata-se de uma obra nada formal para ser visitada, sobretudo, por crianças – Foto: Cristina Lacerda / Oi Futuro

Esses diagnósticos acima são possíveis com as percepções levantadas pela pesquisa Narrativas para o Futuro dos Museus, feita pelo Oi Futuro junto à Consumoteca (consultoria que reúne antropólogos, estrategistas, estatísticos e especialistas em consumo), no 2º semestre de 2018, à época do incêndio no Museu Nacional, no Rio. O trabalho ouviu frequentadores e não frequentadores de todo o País.

Desse grupo, 81% definem museus como prédios antigos, 65% acreditam que eles têm função de aprendizagem, 51% acham que são bons para as férias e 50% consideram que são para ir uma vez na vida.

“Museu é mais do mesmo: quadros, fotos, estátuas. E não me falam como tem a ver com o mundo hoje”, disse uma das pessoas entrevistadas, avaliando como um espaço preso ao passado e desconectado da realidade. “Museu é coisa de quem entende de arte, artista, gente que entende o que está lá. Para mim é só olhar mesmo”, falou outra pessoa, numa visão de que é só para alguns; ou mesmo elitista.

“Num primeiro momento, a gente tem que atrair todo mundo: negro, criança, velho, gente com sandália de dedo…”, fala o gerente-executivo de Cultura do Oi Futuro, Roberto Guimarães, sobre o que os museus precisam fazer para se tornarem relevantes neste presente-futuro.

A obra “Neurocórdio” – do projeto “Ressonâncias”, do artista Paulo Nenflidio – alia arte e ciência, e só faz sentido com a interação do público: ao concentrar-se, a pessoa causa vibrações sonoras graças a um corpo estético feito de madeira e cordas de baixo – Foto: Renato Mangolin / Oi Futuro

Público tem que se identificar com acervo

Como atrair o público? Roberto Guimarães diz que, depois de mostrar às pessoas que aquele espaço pode ser frequentado por elas, o passo seguinte é fazer com que “as histórias contadas tenham a ver; que a pessoa se reconheça”. Para que, assim, elas se sintam pertencentes. Tem a ver com a necessidade de o museu se inserir e dialogar com o cotidiano social.

A pesquisa também chegou à conclusão de que tem de ser um lugar para turma, sobretudo, os jovens. “Museu não é lugar para ver a galera porque tem que ficar em silêncio. Você vai, olha e lê, não é divertido”, disse um dos entrevistados.

Na exposição “Movimento”, o artista Eduardo Macedo dança, enquanto se ouve poemas dele. No dia em que visitamos, um grupo de adolescentes saídos da escola interagiam com a mostra imitando os movimentos do artista – Foto: Cristina Tavares / Oi Futuro

Museu como clube e centro cultural

Emenda-se, aqui, a ideia de um clube agregador, para que a comunidade frequente (e tire a etiqueta de local turístico), desfazendo a impressão de que é lugar para ir só uma vez na vida. O Museu da República, no Rio, é um ‘case’ nesse sentido por promover eventos – de feira a seresta – e entender que o museu é todo o espaço que ocupa, desde o Palácio do Catete ao jardim. Fazem parte tanto o pijama que Getúlio Vargas vestia na noite em que se matou quanto a seresta nos bancos do jardim.

Os museus podem se renovar também aproximando-se do que são os centros culturais, locais vistos com mais simpatia pelos entrevistados, por oferecerem mais do que exposições ou acervos de arte e história. A historiadora Marília Bonas, que integra um grupo de seis especialistas chamados para comentar a pesquisa, expõe bem o assunto:

O índice de retorno [das pessoas] é marcado não só pelo conteúdo, mas pelas facilidades do museu. Tem que ser um lugar agradável, seguro, onde você possa comer alguma coisa, ter um preço acessível, com programação cultural que não amarre o visitante, uma estrutura básica para ir com a família e crianças, ter trocador, internet, café e área de convivência. Isso já aumenta bem o índice de visitação.

As pessoas começam a frequentar porque precisam mandar um e-mail. Voltam porque querem almoçar num lugar charmosinho. Estão lá e aproveitam para ver uma exposição temporária. Tem que ter uma programação. Serviços e facilidades são caminhos fortes para alargar a sensação de pertencimento e de lugar a frequentar.

Marília Bonas

Somos “acervos vivos”, e não visitantes

Dentro dessa ideia de pertencimento, vai perdendo força o termo “visitante” (que tem mais a ver com um turista e menos com uma pessoa da comunidade ou cidade) e entra “acervo vivo”, numa proposta de que a pessoa também produza, seja parte da experiência no museu.

No 2º semestre, por exemplo, o Museu das Telecomunicações, que o Oi Futuro abriga, será remodelado; entre as novas plataformas, haverá uma onde a pessoa poderá deixar gravada uma história para que as seguintes a escutem. Sendo assim, a pessoa deixa seu registro, que passa a fazer parte do acervo. “A gente quer que a pessoa seja acervo vivo. Cada um de nós é acervo vivo para o museu”, arremata Guimarães.

Se acervo está on-line, porque vê-lo ao vivo?

Esse tipo de experiência, que integra a pessoa, vale também para justificar porque alguém que já viu o acervo de um museu on-line deveria vê-lo ao vivo. “[É que] a interação do público com o objeto é mais importante do que o objeto em si”, coloca o antropólogo Michel Alcoforado, da Consumoteca. Ele arremata: “É justamente ter experiências o que cada vez mais motiva as pessoas a saírem de casa”.

A pesquisa completa – inclusive, com recifenses – você tem acesso e pode fazer download pelo link https://oifuturo.org.br/pesquisa-museus-2019/#form

*Jornalista viajou a convite do Oi Futuro

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Publicado por
Romero Rafael

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