Mestra Joana: O Maracatu e a inspiradora luta das mulheres da comunidade do Bode

Mestra Joana: O Maracatu e a inspiradora luta das mulheres da comunidade do Bode

Mestra Joana da Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Publicado em cultura Especial Mulher 8/03/2019 às 10:37

Quase seis séculos separam a heroína francesa Joana D’arc, a “Donzela de Orléans”, de Joana D’arc da Silva Cavalcante, primeira e única mulher a atingir o posto de Mestra de uma Nação de Maracatu Baque Virado. Conhecida como Mestra Joana, ela não luta contra forças inglesas, mas — assim como a personagem histórica — trava batalhas pela libertação das mulheres. Seu instrumento não é a espada, mas os tambores que descansam na sede da Nação do Maracatu Encanto do Pina, localizada na comunidade do Bode, no Recife.

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Líder comunitária, Mestra Joana assumiu o espaço há cerca de 10 anos e criou dentro do Maracatu de Baque Virado o “Baque Mulher“. Trata-se de um movimento de empoderamento feminino que alimenta a luta das mulheres da comunidade do Bode e transborda as fronteiras nacionais através dos seus ensinamentos.

Desde que assumiu o posto, Mestra Joana somou conquistas para a comunidade. Em maio de 2015, foi reconhecida na 11ª edição do livro Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco num ato publicado no Diário Oficial de Pernambuco. Hoje, ela viaja pelo Brasil e pelo mundo espalhando a cultura do Maracatu de Baque Virado.

“Na nossa tradição, existe essa opressão ao feminino. O machismo é muito presente, inclusive em diversos movimentos culturais. Desde que o mundo é mundo, mulher sempre foi limitada, sempre teve um espaço posto para ela. Hoje menos, mas, para a mulher, sempre foi difícil andar por si própria. Dentro do maracatu não é diferente”, afirma Mestra Joana.

Mestra Joana, a Mulher

Com família enraizada em terreiros de candomblé, Mestra Joana nasceu e criou-se no ritmo do maracatu. Seu pai, Manoel Cândido, foi diretor de apito da Nação Porto Rico e sua avó, dama de passo. A bisavó, a yalorixá Mãe Maria de Sônia, fundou em 1980, a Nação do Maracatu Encanto do Pina.

Dentro do Maracatu de Baque Virado, Mestra Joana criou o "Baque Mulher" (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Dentro do Maracatu de Baque Virado, Mestra Joana criou o “Baque Mulher” (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Ainda aos 18 anos, quando percebeu a falta de alternativas culturais para as jovens da comunidade, Joana D’arc começou a dar aulas de canto e dança para meninas e criou um grupo chamado Filhas do Oxum Opará. Sua trajetória, porém, não se restringe à percussão. Antes de se dedicar ao Encanto do Pina, já trabalhou de vigilante, doméstica, babá e outras atividades.

Mestra Joana alerta que, além das questões femininas, luta também contra as barreiras impostas por questões raciais e de classe: “Dentro das comunidades periféricas, as mulheres, principalmente as negras, são as que mais sofrem. Então buscamos trazê-las para as rodas de diálogo e empoderá-las com ações”.

Questionada sobre seu trabalho com os homens, ela explica que sua ações não se restringem apenas ao sexo feminino. Na música, elas tentam passar para o público masculino, através do canto, a conscientização. Na música de Joana, não é incomum ver ouvir cantorias enaltecendo a Maria da Penha, atos contra a violência e discursos sobre o empoderamento feminino e negro.

 

Mestra Joana e vestimentas confeccionadas pela Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Reprodução)

Mestra Joana e vestimentas confeccionadas pela Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Victor Augusto)

Com orgulho, Mestra Joana relata que os resultados já podem ser sentidos dentro da sua comunidade: “Durante esses 10 anos a comunidade tem mudado muito. As mulheres mudaram, as meninas, que já são vistas usando seus ‘black [power]’, não têm mais vergonha do seu cabelo solto, da sua cor. Está sendo uma transformação excelente.”

O Baque Mulher

Da inquietação com o cenário hostil e do desejo de mudança, Mestra Joana criou o “Baque Mulher”, um movimento de empoderamento feminino que nasceu no Bode e hoje tornou-se uma grande rede de 23 grupos espalhados por todo o Brasil e com “filial” até na Argentina. Outros projetos também estão ajudando no empoderamento dos moradores do Bode.

Tambor do "Baque Mulher" (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Tambor do “Baque Mulher” (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Minha base são as meninas da comunidade. Nesses 10 anos, vemos no olhar, nos gestos e na força delas a vontade de querer mudar, de crescer. Estamos transformando, pois somos uma das únicas chances delas para elas se empoderarem, reeducarem e conhecerem um mundo novo. E o maracatu proporciona isso”, explica Mestra Joana. Recentemente,  20 mulheres participaram do Festival dos Tambores, em Cuba.

O “Baque Mulher” não age somente dentro do ritmo; envolve uma integração do público feminino com o Encanto e o terreiro Ylê Axé Oxum Deym. Dessa forma, além dos ensaios, existem rodas de diálogos e grupos de trabalho para a confecção das roupas usadas nos desfiles carnavalescos (que são feitas a partir de materiais recicláveis), além de outras atividades.

A Luta

Mestra Joana revela que, mesmo ocupando a liderança há dez anos, ainda encontra dificuldades dentro e fora do maracatu. Apesar de ter seu papel de protagonista negado, a figura feminina sempre esteve em evidência dentro da dança. Elas sempre ocuparam o posto de rainhas, lideranças comunitárias, costureiras, passadeiras e, principalmente, foram e ainda são responsáveis por alimentar as comunidades. Mesmo sendo essenciais para o maracatu, o papel de estar à frente nunca foi dado à mulher.

Mestra Joana usa o apito para empoderar a comunidade do Bode (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Mestra Joana usa o apito para empoderar a comunidade do Bode (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

“Estar nesse posto à frente de uma nação não é fácil. Encontro muito machismo vindo de mestres e até de mulheres. Quando assumi o Encanto do Pina, há dez anos, por exemplo, houveram muitos batuqueiros que saíram, pois não aceitaram serem regidos por uma mulher“, conta Mestra Joana.

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Ela explica que não luta somente contra o machismo internalizado no ritmo, mas também contra aquele que vem de fora: “Recentemente houve um ‘encontro de mestres’, e eu ficava insistindo bastante, dizendo que a reunião era de ‘mestres e mestra’, ao contrário do que era anunciado pelos organizadores. Todas as referências na mídia só citam os mestres. E essas coisas não são percebidas, pois eu sou minoria. Sou só eu e minha resistência diária. É difícil sobreviver assim. A sociedade impõe esse anonimato. Ter a mulher em determinados espaços ainda incomoda, e isso é bem nítido”, explica.

 

 

 

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Victor Augusto

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