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07/12/18
Vanessa da Mata - Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem
Vanessa da Mata - Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem

“A gente não tem que trabalhar pra gravadora”, diz Vanessa da Mata, que experimenta novos formatos

Publicado por Romero Rafael em Música às 7:00

Em passagem pelo Recife para show privado, Vanessa da Mata conversou com o Social1 sobre a carreira, que completou 16 anos, a contar do primeiro álbum. A cantora e compositora mato-grossense – que será atração do Réveillon Pé na Areia – falou da saída da gravadora Sony Music (onde estava desde o primeiro disco) e da adesão ao digital, com o lançamento de Apenas Mais Uma de Amor, regravação de Lulu Santos, que chegou no formato single, nas plataformas digitais. A ideia é fruto da parceria com a agência digital Altafonte, que tem na cartela de clientes nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tribalistas… “Eu tô experimentando essa nova onda.”

Acompanhe a nossa conversa:

Vanessa da Mata – Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem

Vanessa, o que você prepara para o réveillon?

A gente vai preparar algumas coisas novas, fazer algo diferente, mas agora eu também ‘tô’ em pleno vapor com as músicas novas…

São para um trabalho novo?

A gente não sabe ainda. É um processo que pode sair entre o começo de fevereiro até junho. Depende das músicas, porque eu sou uma pessoa extremamente perfeccionista. Faço um monte de músicas pra escolher duas, ou três… vai depender da minha generosidade comigo [risos].

Seja generosa…

Comigo eu sou meio rígida; preciso achar que as coisas são tão boas pra lançá-las. Eu vou fazer muitas músicas e já ‘tô’ nesse processo – a minha cabeça não para, não consigo dormir, já ‘tá’ um inferno [risos]. Depois é escolher e ir para o estúdio.

Você lançou recentemente Apenas Mais Uma de Amor, e li que pensa em divulgar uma música a cada 45 dias…

Isso. Eu lancei um single e, na verdade, tive uma crise gigantesca, porque sou apegada a álbum, sou apegada a fases que se juntam e fazem com que um álbum aconteça; a conceitos de um período de vida colocados ali naquele espaço, e acho que isso tem tudo a ver com obra.

Ao mesmo tempo, eu tenho um lado aquariano que ‘tá’ pedindo essa nova maneira de divulgação, porque também é muito legal, faz com que a pessoa preste atenção numa música só – quando, num álbum inteiro, a gente pula. Por outro lado, a tradicionalista dentro de mim fica sentindo muita falta [do álbum].

Fico numa crise enorme, ‘tô’ numa crise enorme, e não sei o que vou fazer [risos]. Até fevereiro eu decido. Enquanto isso, vou fazendo música.

Esse modelo de lançar singles, e não álbuns, é uma coisa de mercado, né?

Isso [é algo que] já tá [aí]. De MPB, acho que não tem ninguém lançando assim ainda, embora haja pessoas lançando só por digital. Nando Reis faz muito esse processo de uma por uma. Vamos ver se vou conseguir ficar tão desapegada.

De trabalho, como foi esse ano pra você?

A gente divulgou Caixinha de Música [o show de agora] em duas turnês americanas, duas em Portugal – sendo que numa delas a gente foi a Londres – e, pela primeira vez, saí da Sony [Music, gravadora], onde ‘tava’ desde o começo da minha carreira. Eu ‘tô’ experimentando essa nova onda, de aproveitar o digital e as plataformas, que é completamente nova pra mim.

Agora você está independente?

Mais ou menos, porque estou na Altafonte, uma agência digital onde o artista tem 80% do valor do seu trabalho, e não o contrário. É algo novo, voltado a valorizar o trabalho do artista. Eu tenho convites para outras gravadoras, mas acho maravilhoso isso de ser o contrário do que as gravadoras oferecem, que é 80% para elas.

Você é mais dona do seu trabalho…

Dona e divulgadora também, no sentido de que, se vai pra rádio, sou eu quem tenho de divulgar, pagar, trocar… Ainda ‘tô’ aprendendo com tudo isso, mas é uma sacada de mercado que acho muito bem-vinda, porque é inteligente, rápida e não faz sujeira. A música é espacial, invisível. Você, infelizmente, não tem aquele encarte – e eu adoro papel -, mas você tem mais árvores, e ‘tá’ tudo certo. Daqui a pouco eles vão desenvolver uma maneira melhor de ter encartes incríveis, com fotografias incríveis, nomes de todos os músicos, detalhes…

O que eu posso dizer é que ‘tô’ entrando nessa fase digital e adorando, porque é um lugar onde o artista é valorizado. Ainda paga muito pouco, mas acho que, num futuro próximo, será melhor para o artista sobreviver. A gente não tem que trabalhar pra gravadora. É o contrário. A música é o que surge primeiro nisso tudo. É por causa da música que tem um cantor, compositor, arranjador, os músicos em torno, toda uma equipe que monta show, a pessoa que vende ingressos, a pessoa que faz o marketing… Tudo por causa da música, e não o contrário. É da música que brota todos esses empregos e toda a beleza. A música é desbravadora, levando sensações e poesia, e não o contrário. A indústria vem depois da música.

Acho que isso [esse pensamento] muda, inclusive, a [percepção da] música como arte. Vai ficar muito bem dividido: o que é uma peça artística e o que é uma peça apenas de ilustração aeróbica.

Observo, nos seus shows, que, de turnê em turnê, você modifica os arranjos das músicas, inclusive altera o tempo, o gênero… É algo pensado pra atualizar ou não enjoar?

São maneiras de a gente não se cansar de nós mesmos [risos]. As músicas já saem velhas pra gente. Boa Sorte/Good Luck, por exemplo, até sair, tinha dez anos desde que nasceu na minha cabeça. Ela fica morando e te alugando por anos e anos. Às vezes, eu tenho um processo de estúdio em que faço uma letra de um dia para o outro, ou letra e melodia, já pra gravar no dia seguinte. Boa Sorte… acabou assim, porque a letra não existia; existia a melodia, havia dez anos. Então, fiz a letra de um dia para o outro, fizemos a tradução e mandamos para o Ben Harper, que gravou lá [nos Estados Unidos] a parte melódica dele. Além disso, no processo que eu gosto de fazer, cada música fica [sendo trabalhada] no estúdio por quatro dias.

Qual sua percepção sobre o público pernambucano?

Já fui a diferentes palcos e tenho um orgulho enorme – sempre falo isso, e falo de novo -, porque sinto que Pernambuco tem uma diferença. Não sei se foi na colonização holandesa, não sei o que aconteceu, mas há uma esperteza gigantesca aqui, no sentido de incentivar a cultura popular. Hoje, a gente ‘tava’ na Casa da Cultura, linda, enorme, com todo mundo ávido para trabalhar, com muitas lojas…

Eu sinto uma nostalgia, às vezes, porque adoro folclore – e já pesquisei muito – e sou de uma região que tinha muito cururu, siriri, folia de reis, congada, mas me sinto, cada vez mais, frustrada porque vejo que isso não ‘tá’ se renovando, ‘tá’ se perdendo. Aqui é o contrário: as pessoas percebem isso. Acho que é uma questão de educação, sabe?, de autoestima, de incentivo junto a um governo que percebe essa esperteza da construção da autoestima; é muito genuíno de vocês, e eu não vejo em lugar nenhum. Então, me sinto ótima aqui. É uma sensação de que eu faço sentido nisso tudo e é um encontro comigo mesma, nessa minha paixão por folclore, arte popular, artesanatos, etc.

Vi, aliás, que você ficou encantada pela renascença e o richelieu na Casa da Cultura…

Perdi um dinheirão! Perdi não, ganhei várias toalhas de mesa, etc [risos]. Eu fico muito encantada com essa beleza que é o Brasil; de um lugar simples sai aquela peça que é de uma beleza estonteante, uma coisa!

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