As sementes que Mestre Salustiano deixou

As sementes que Mestre Salustiano deixou

Pedro Salustiano ao lado do filho, João Salustiano, em frente à imagem de Mestre Salustiano (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Publicado em Artes 12/08/2018 às 8:00

O sol batia forte na areia molhada quando Pedro Salustiano chegou pela estrada de terra e abriu as portas imaginárias da Casa da Rabeca. Sentou-se ao lado do filho, o pequeno João Salustiano, 6 anos, de costas para uma ilustração do renomado Mestre Salustiano (1945 – 2008), reconhecido em 2002 como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Pai e filho seguravam instrumentos, prontos para “fazer uma zoada” (como falava o mestre) assim que esse repórter parasse de fazer perguntas.


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A foto que abre este post ilustra o encontro de três gerações – duas fisicamente e outra figurativamente, no painel lá atrás – e simboliza a arte no sangue da família. Pedro e João, herdeiros de Salu, fazem revelações sobre o patriarca.

Os Salustianos pais

Pedro Salustiano, filho de Mestre Salu, tornou-se pai de João. Se Salu foi o responsável por construir o porto seguro da cultura popular da Zona da Mata Norte, pode-se dizer que coube a Pedro e seus irmãos a continuação do trabalho, espalhando-a pelo Brasil e pelo mundo, além de mantê-la no sangue da família. Os legados não foram somente os imateriais. Muitos podem ser vistos, tocados e visitados até os dias atuais:

Meu pai sempre foi um grande visionário da cultura popular. Um dos seus grandes sonhos foi manter a cultura popular de tradição através do cavalo marinho, maracatu, coco, forró rabecado e da ciranda. Além de ele ter trazido toda essa cultura da Zona da Mata Norte, que aprendeu com seu pai [João Salustiano, avô de Pedro], ele teve a ideia de criar espaços para consolidar esse legado. Hoje temos a Casa da Rabeca e a Associação dos Maracatus de Baque-Solto. Apesar disso, ele era muito humilde. A gente perguntava se ele estava animado para os shows e ele respondia: ‘Vou fazer uma zoadinha’.

Pedro Salustiano

A Casa da Rabeca, vale lembrar, fica no centro de um semi-círculo formado por várias casas dos filhos de Salustiano. A ideia de união, percebe-se, começou na família:

“Ele é um homem que deixa saudades. Partiu muito cedo, com 62 anos. A gente queria que ele vivesse seus 100 anos, pois ele criou seus 15 filhos com dedicação. Foi um grande pai e exemplo de homem. Ele passou isso para todos. Costumo dizer que ele foi pai e mãe de quase todos os filhos. Ele teve nove casamentos, então as mulheres iam embora e ele só pedia para deixarem os filhos. Isso não se vê hoje em dia. Ele tinha esse desejo de criar, de acolher”, relata Pedro, com brilho nos olhos.

Dos 15 filhos, 13 são ligados ao mundo da arte. Cada “cria” especializou-se em uma área: uns confeccionam rabecas, outros cantam, dançam, atuam ou fazem outras atividades artísticas que o pai dominava. Pedro, por exemplo, viaja o Brasil propagando a dança através do seu espetáculo Samba no Canavial. Em casa, faz a mesma coisa. Ensina ao filho, o pequeno João, assim como os sobrinhos e outras crianças da comunidade.

João e Pedro Salustiano em frente a uma imagem do Mestre Salustiano (Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem)

João e Pedro Salustiano em frente a uma imagem do Mestre Salustiano (Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem)

“Na minha casa sempre foi festa. A gente dormia no beliche e em cima da cama tinha um chapéu de maracatu. A gente nasceu e viveu dentro dessas manifestações. Lá em casa era tudo – todo mundo morava junto ao mesmo tempo em que lá também era sede de maracatu e encontros. Acordávamos com meu pai tocando sua rabeca. Não tinha como fugir desse universo”, relembra Pedro.

Salustiano neto

João Pedro Salustiano leva o nome do pai de Mestre Manoel Salustiano, o primeiro Mestre Salu. O pequeno, inquieto com o instrumento na mão e mais ainda sem ele, tem seis anos e não pensa em outra coisa que não seja tocar. Além de aprender em casa, viaja com o pai: no final de julho, acompanhou Pedro em ida à Argentina, onde realizou espetáculo.

Perguntado sobre quais instrumentos quer tocar quando crescer, a resposta de João Salu foi ampla como a imaginação de uma criança de seis anos: “Rabeca, zabumba, bateria, triângulo, violão e tudo”. Já sobre os personagens com os quais gosta de brincar no cavalo marinho, a lista foi mais restrita: “Soldado da Guarita, Matheus e o Boi”.

Diferentemente de outras crianças, Pedro Salu revela que João não dá trabalho quando o assunto é aniversário ou presente: “Eu fico feliz, pois tudo está encaminhado. Os brinquedos dele são os instrumentos. No aniversário de João, em dezembro, ele pediu para fazer um cavalo marinho com os amigos. Chamamos a meninada e ele interpretou. O pessoal que veio ficou encantado. Essa é nossa felicidade, deixar sementes”.

O espírito Salustiano

Manuel Salustiano Soares nasceu em Aliança (PE). Quando jovem, considerando que a cidade interiorana era pequena para a sua música, partiu para a “cidade grande” com apenas uma mochila e uma rabeca, na década de 60. Morou em diversos lugares de Olinda e Recife até achar no bairro de Cidade Tabajara um retiro para ele, seus 15 filhos e sua arte. Lá, tornou-se uma liderança comunitária.

Do seu passado na Zona da Mata, entre as plantações de cana-de-açúcar, descobriu na década de 90 a doença de chagas e faleceu no dia 31 de agosto de 2008, aos 62.

Mestre Salustiano e sua rabeca (Imagem: Rodrigo Lobo / Acervo / JC Imagem)

Mestre Salustiano e sua rabeca (Imagem: Rodrigo Lobo / Acervo / JC Imagem)

Antes de atingir seus sonhos, foi cortador de cana, gari e vendedor de picolé. Fora dos papéis, dava uma de arquiteto, pedreiro e tudo mais que a situação necessitava. Por onde passou deixou sua marca. Onde estacionou, reuniu pessoas para a perenidade da cultura do cavalo marinho, dança tradicional da Zona da Mata Norte de Pernambuco. A vontade de união foi uma das marcas que Salu deixou para a comunidade da Cidade Tabajara e seus filhos.

A Casa da Rabeca e outras sementes

Quem viu a Casa da Rabeca quando ainda era feita com palhas de coqueiros, não imaginava que se tornaria o importante centro cultural que é hoje. A ideia para a criação do retiro surgiu a partir de um encontro na Bahia, onde conheceu os pais de Carlinhos Brown (o produtor cinematográfico Renato Freitas e Madalena Santos). Trocaram anedotas e conversas. Logo depois, voltou ao Recife com a ideia de criar um espaço para dar oportunidade a artistas.

A Casa da Rabeca foi criada para acolher forrozeiros, emboladores de coco, violeiros, maracatus e cavalos marinhos… Mas, no início, os filhos eram contra. Ele tinha pouca saúde e viajava muito. Quando a gente questionava, respondia: ‘Você não sabe de nada, quem sabe sou eu’. Hoje a gente vê que ele sabia mesmo. Ele partiu e deixou tudo pronto.

Pedro Salustiano sobre a criação da Casa da Rabeca

As “crias” do mestre seguem melhorando o espaço físico e viajando o País difundindo a cultura do cavalo marinho e do Maracatu Piaba de Ouro, outra criação de Salu. É comum o oferecimento de oficinas de confecção de adereços. “Através de Salu, surgiram vários espaços e grupos de coco, ciranda, cavalo marinho e maracatu. Ele influenciou muita gente a criar seu próprio lugar; influenciou artistas como Siba. Foi ele quem fomentou”, conta Pedro.

Além da cultura propagada, Mestre Salu também é responsável pelo acesso da PE-15 para a Cidade Tabajara. Ele se reuniu com amigos e, com o auxílio de um caminhão, conseguiu estabelecer uma ligação com a rodovia estadual. Após o feito, a comunidade conseguiu ter mais mobilidade e visitação.

Precursor do manguebeat

Há quem chame, ainda, o Mestre Salustiano de o “precursor do manguebeat”. Perguntado sobre a veracidade do título, Pedro Salu riu e prontamente recorreu à sua memória:


Quer saber mais? Se liga nesse vídeo do Jornal do Commercio, feito pelo repórter Mateus Araújo com imagens de André Nery:

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Publicado por
Victor Augusto

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