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08/03/18
Mestra Joana da Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)
Mestra Joana da Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Mestra Joana: o maracatu, a mulher e a luta

Publicado por Victor Augusto em cultura às 9:03

Joana D’arc da Silva Cavalcante, 39, conhecida como Mestra Joana, é a primeira (e única) mulher a atingir o posto de Mestra de Maracatu. Ela comanda a Nação do Maracatu Encanto do Pina, que fica na comunidade do Bode, Recife. Quando assumiu o espaço, há 10 anos, criou, dentro do “Baque Virado” (batuque ou percussão), o “Baque Mulher“, movimento de empoderamento feminino que ajuda as mulheres da comunidade e de todo o Brasil.

“Na nossa tradição, existe essa opressão ao feminino. O machismo é muito presente, inclusive em diversos movimentos culturais. Desde que o mundo é mundo, mulher sempre foi limitada, sempre teve um espaço posto para ela. Hoje menos, mas, para a mulher, sempre foi difícil andar por si própria. Dentro do maracatu não é diferente”, afirma Mestra Joana.

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A Mulher

Mestra Joana e vestimentas confeccionadas pela Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Reprodução)

Mestra Joana e vestimentas confeccionadas pela Nação do Maracatu Encanto do Pina (Imagem: Victor Augusto)

Mestra Joana é nascida e criada no maracatu. Sua família faz parte de terreiros de candomblé. Seu pai, Manoel Cândido, foi diretor de apito da Nação Porto Rico e sua avó, dama de passo. A bisavó, a yalorixá Mãe Maria de Sônia, fundou em 1980, a Nação do Maracatu Encanto do Pina.

Em maio de 2015, Mestra Joana foi uma das homenageadas na 11ª edição do livro Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco e num ato publicado no Diário Oficial de Pernambuco. Hoje, ela viaja pelo Brasil e pelo mundo espalhando a cultura do Maracatu de Baque Virado. Antes de se dedicar ao Encanto, já trabalhou de vigilante, doméstica, babá e outras atividades.

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A Luta

Mestra Joana usa o apito para empoderar a comunidade do Bode (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Mestra Joana usa o apito para empoderar a comunidade do Bode (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Mestra Joana revela que, apesar de já ocupar a liderança há dez anos, ainda encontra dificuldades, dentro e fora do maracatu. Apesar de ter seu papel de protagonista negado, a figura feminina sempre esteve em evidência dentro da dança. Elas sempre ocuparam o posto de rainhas, lideranças comunitárias, costureiras, passadeiras e, principalmente, foram e ainda são responsáveis por alimentar as comunidades. Mesmo sendo essenciais para o maracatu, o papel de estar à frente nunca foi dado à mulher.

“Estar nesse posto à frente de uma nação não é fácil. Encontro muito machismo vindo de mestres e até de mulheres. Quando assumi o Encanto do Pina, há dez anos, por exemplo, houveram muitos batuqueiros que saíram, pois não aceitaram serem regidos por uma mulher“, conta Mestra Joana.

Ela explica que não luta somente contra o machismo internalizado no ritmo, mas também contra aquele que vem de fora: “Recentemente houve um ‘encontro de mestres’, e eu ficava insistindo bastante, dizendo que a reunião era de ‘mestres e mestra’, ao contrário do que era anunciado pelos organizadores. Todas as referências na mídia só citam os mestres. E essas coisas não são percebidas, pois eu sou minoria. Sou só eu e minha resistência diária. É difícil sobreviver assim. A sociedade impõe esse anonimato. Ter a mulher em determinados espaços ainda incomoda, e isso é bem nítido“, explica.

Baque Mulher

Tambor do "Baque Mulher" (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Tambor do “Baque Mulher” (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Da inquietação com o cenário hostil e do desejo de mudança, Mestra Joana criou o “Baque Mulher”, um movimento de empoderamento feminino que nasceu no Bode e hoje tornou-se uma grande rede de 23 grupos espalhados por todo o Brasil e com “filial” até na Argentina. Outros projetos também estão ajudando no empoderamento dos moradores do Bode.

Minha base são as meninas da comunidade. Nesses 10 anos, vemos no olhar, nos gestos e na força delas a vontade de querer mudar, de crescer. Estamos transformando, pois somos uma das únicas chances delas para elas se empoderarem, reeducarem e conhecerem um mundo novo. E o maracatu proporciona isso”, explica Mestra Joana. Recentemente,  20 mulheres participaram do Festival dos Tambores, em Cuba.

O “Baque Mulher” não age somente dentro do ritmo; envolve uma integração do público feminino com o encanto e o terreiro Ylê Axé Oxum Deym. Dessa forma, além dos ensaios, existem rodas de diálogos, grupos de trabalho para a confecção das roupas usadas no desfile carnavalesco (que são feitas a partir de materiais recicláveis) e outras atividades.

Mulher,  negra  e  periférica

Dentro do Maracatu de Baque Virado, Mestra Joana criou o "Baque Mulher" (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

Dentro do Maracatu de Baque Virado, Mestra Joana criou o “Baque Mulher” (Imagem: Dayvison Nunes / JC Imagem)

“Dentro das comunidades periféricas, as mulheres, principalmente as negras, são as que mais sofrem. Então buscamos trazê-las para as rodas de diálogo e empoderá-las com ações”, explica Mestra Joana sobre os trabalhos realizados dentro do Baque Mulher. E o trabalho não se restringe apenas ao sexo feminino. Na música, elas tentam passar para os homens, através do canto, a conscientização. Não é incomum ver ouvir cantorias enaltecendo a Maria da Penha, atos contra a violência e discursos sobre o empoderamento feminino e negro.

“Durante esses 10 anos a comunidade tem mudado muito. As mulheres mudaram, as meninas, que já são vistas usando seus ‘black [power]’, não tem mais vergonha do seu cabelo solto, da sua cor. Está sendo uma transformação excelente”, finaliza Mestra Joana.


Ficou interessada(o)? Confira as atividades da Nação Encanto do Pina:

Site Oficial | Facebook

Baque Mulher: Rodas de diálogo e oficinas de maracatu nos domingos, das 14h às 17h

Atividade Pedagógica Infantil: Sábados, às 14h

Oficina de Maracatu Adulto e Infantil: Separadas, ambas acontecem nos sábados, às 15:30. As crianças tem a chance de tocar no “Encantinho”, versão mirim do Maracatu Encanto do Pina.

 



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