“A maior parte das pessoas não quer o sucesso”, diz Leandro Karnal em entrevista

“A maior parte das pessoas não quer o sucesso”, diz Leandro Karnal em entrevista

Leandro Karnal - Foto: Agência Rodrigo Moreira

Publicado em Especial Notas 19/10/2016 às 7:00

O professor da Unicamp Leandro Karnal, doutor em História Social, é uma das vozes mais ouvidas, hoje. Administra página no Facebook com cerca de 620 mil assinantes; faz, em média, uma palestra por dia; participa de programas de TV e tem dois livros – Verdades e Mentiras e Felicidade ou Morte, ambos em coautoria com outros intelectuais – entre os dez mais vendidos de agora. É, portanto, considerado um “pensador pop”; graças à capacidade de “viralizar” reflexões amparadas na história e na filosofia.

Em entrevista ao Social1, segunda (17), quando esteve no Recife, numa das sete palestras agendadas para esta semana em seis estados brasileiros, ressaltou que, antes de surgir “de repente”, estudou por 30 anos… E antes de falar a empreendedores sobre mudança de atitude na palestra promovida pelo Sebrae-PE com lotação esgotada, atendeu a pedidos de selfies e autógrafos. Acompanhe o que ele fala sobre seu papel de compartilhador de conhecimento e os temas autoajuda, empreendedorismo e política.

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Docente da graduação e pós-graduação da Unicamp e palestrante Brasil afora, Karnal conta que dorme apenas quatro horas por noite, e que elas lhe são suficientes – Foto: Agência Rodrigo Moreira

Você vai a programas de TV, seus vídeos “viralizam” nas redes sociais e tem mais de 600 mil seguidores no Facebook, onde recebe depoimentos como “Até então, eu não poderia escutar falar de sociologia e filosofia” e “Obrigada por ‘abrir a minha mente'”. Tornar o conhecimento acessível é um projeto seu como educador?

Eu sempre fui um professor. Brinco que o título de doutor é um acontecimento acadêmico. O título de professor é um pouquinho mais complexo e é o meu preferido. Sempre tive vontade de, sendo professor, estabelecer pontes, e existe um novo espaço no Brasil – demandado pelo interesse das pessoas – para intelectuais que sejam capazes de traduzir conhecimento para o grande público.

Para fazer uma pessoa capaz de vulgarizar o conhecimento, no sentido de torná-lo acessível, ela precisa ter uma solidez grande. Então, ao contrário do que possa parecer, eu valorizo muita a teoria. Para surgir de repente, eu tive que estudar 30 anos. Essa estruturação teórica é que faz a diferença entre o aluno que decora que todas as proparoxítonas são acentuadas em português e aquele que estuda a evolução da gramática histórica e entende que quase 80% das palavras da nossa língua são paroxítonas e oxítonas, e que a proparoxítona é chamada de esdrúxula porque ela é fora do padrão, e por isso o acento; então, ele está entendendo a estrutura da língua, não será alguém que apenas vai saber acentuar, mas vai saber o motivo da acentuação.

O que tento demonstrar no Face ou nas entrevistas é que eu, Leandro, sou uma pessoa melhor porque li Shakespeare, Camões, Cervantes… Eu seria pior e teria mais problemas pessoais se eu não tivesse feito uma espécie de psicanálise cultural com esses grandes personagens.”

L.K.

Se eu disser a você: ‘leia O Príncipe‘ e você começar pelo capítulo um, sobre quantos e quais são os principados, você vai morrer no capítulo 1, que é de uma chatice indescritível. Como professor, eu diria a quem não é de filosofia nem política que leia o cap. 18, sobre se o príncipe deve manter a palavra empenhada ou não. A pessoa cria interesse, e daí vamos ao começo. Uma das características do bom professor é criar uma rede de interesse que atraia. Feita a sedução, o aluno aprende como o saber é orgânico, como transforma as pessoas e faz um ser diferente. O que tento demonstrar no Face ou nas entrevistas é que eu, Leandro, sou uma pessoa melhor porque li Shakespeare, Camões, Cervantes… Eu seria pior e teria mais problemas pessoais se eu não tivesse feito uma espécie de psicanálise cultural com esses grandes personagens.

Dois dos seus livros, Verdades e Mentiras e Felicidade ou Morte, estão na lista dos dez mais vendidos de agora. Até pouco tempo, eram os livros de autoajuda os mais comprados. Acha que o leitor cansou das frases prontas e evoluiu para a reflexão?

Acho que você traz uma posição positiva e otimista, de que as pessoas de tanto lerem livros do tipo Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, com fórmulas prontas, passaram a ler filósofos e historiadores. É possível que o sentimento de quem leia Felicidade ou Morte e Verdades e Mentiras seja o mesmo de quem leu Como Fazer Amigos… Quero crer que a gente tem uma diferença, mas não sei se essa diferença é tão clara para o consumidor dos livros.

Não há formula para a família feliz. Você é quem vai decidir se, por exemplo, fidelidade lhe torna feliz ou não.”

L.K.

A questão central, que eu digo incessantemente, é que não existe fórmula; o que deu certo para um pode não dar para o outro; que primeiro existe a existência, e depois a essência – ou seja, primeiro você é, depois você cria o modelo -, enquanto a autoajuda faz crer que primeiro existe a essência, e depois a existência. Não há formula para a família feliz. Você é quem vai decidir se, por exemplo, fidelidade lhe torna feliz ou não, enquanto a autoajuda lhe diz ‘seja feliz para ter um casamento blindado’. Há pessoas que podem ser felizes numa ménage à trois, há pessoas que podem ser felizes num casamento aberto, e há pessoas que podem ser felizes fiéis. Essa seria a diferença: nós falamos da problematização dos modelos, e não dos modelos.

Não tenho a menor dúvida de que o mesmo público que comprou meu livro também compre um livro ao estilo “sorria e o mundo será seu”, porque existe uma carência de referências. E para os críticos do nosso trabalho, nós fazemos autoajuda.

O que é necessário a um empreendedor?

Uma vez falei que o empreendedorismo, a autoajuda e a teologia da prosperidade, esses três elementos, são ruins porque criam uma fórmula pra que você possa chegar à felicidade. É a ideia de que eu posso imitar um procedimento pra chegar à felicidade do empreendedorismo… O empreendedorismo é uma área de risco e ousadia, de contar com a sua própria força; de acreditar na sua iniciativa e no risco. Como quase toda ação humana, como tocar piano, não é uma vocação universal. Há quem não tem a tipologia nem personalidade pra viver numa área de risco. Há quem prefira ser feliz vivendo uma vida com indicadores mais estáveis.

A ideia do indivíduo com iniciativa rompendo amarras corporativas baseada no risco e na audácia da sua criação é uma ideia basicamente norte-americana, que entrou no Brasil numa tradição que nós não temos, de êxito fora do Estado. Nossa tradição é de êxito dentro do Estado. Sem o Estado nada ocorre. O sonho brasileiro ainda é o concurso público, é a sombra do Estado, porque 516 anos de Estado não se eliminam rapidamente. O Brasil foi fundado pelo Estado.

A maior parte das pessoas não quer o sucesso, porque o sucesso compromete muito mais do que o fracasso. O fracasso é uma zona de conforto poderosa. O sucesso é mais assustador.”

L.K.

O empreendedor tem, em geral, um grau de teimosia acima da média, porque ele vai contrariar a opinião dos pais e avós, sobre fazer concurso público, vai contrariar a estabilidade. Tem que se perguntar: é parte da minha personalidade? Provavelmente todos nós podemos mais do que temos, mas nem todos nós podemos chegar lá, então é um risco. E pra tranquilizar: a maior parte das pessoas não quer o sucesso, porque o sucesso compromete muito mais do que o fracasso. O fracasso é uma zona de conforto poderosa. O sucesso é mais assustador.

Sobre política, que é um dos assuntos de que você mais fala, como analisa o cenário no Brasil?

Vivemos numa era de polarização e de um brutal emburrecimento argumentativo, porque a polarização adjetiva, e não pensa. Um aspecto positivo é que as redes sociais introduziram os jovens no mundo da política, mas falta aprender a ouvir o outro. As pessoas estão classificando muito rapidamente; estão se posicionando e perdendo a capacidade de dialogar. É difícil tentar ouvir o outro lado e, acima de tudo, que um lado reconheça no outro a brasilidade e o interesse comum – ou seja, quem é ‘petralha’ acha que o coxinha quer afundar o país e sacrificar o povo com seu beneficio de elite, e quem é coxinha acha que o ‘petralha’ quer só enriquecer pra viver nas Bahamas, e nenhum reconhece no outro legitimidade política. Quando nós estamos nessa bipolaridade, se fosse um indivíduo, recomendaria um psiquiatra, mas é uma sociedade inteira… É o que Mario Sérgio Cortella, que é de esquerda, disse a Luiz Felipe Pondé, crítico da esquerda: ‘eu não gosto do que você escreve e gosto de você’. Acho isso fundamental. A isso a Europa chamou, no século 18, de tolerância, no Tratado sobre a Tolerância, de Voltaire.

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Romero Rafael

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