Os 80 anos de J. Borges, um artista entalhado na xilogravura

Os 80 anos de J. Borges, um artista entalhado na xilogravura
Publicado em Galerias Notas 20/12/2015 às 12:00
Fotos: Dayvison Nunes/JC Imagem

J. Borges tendo à frente pilha de madeira pra desenhar e entalhar/Fotos: Dayvison Nunes/JC Imagem

José Francisco Borges riscava madeiras quando chegamos para conhecê-lo no seu ateliê, quase às margens da BR-232, na altura da cidade de Bezerros, no Agreste de Pernambuco. Nascido há oitenta anos, em 20 de dezembro de 1985, primogênito de dez filhos, na infância, o nome máximo da xilogravura frequentou a escola por apenas dez meses. O destino riscava que na roça onde nascera ele faria sua trajetória. Desse traço, uma espécie de laço, ele se desprendeu. A literatura de cordel, ainda no tempo em que era chamada de folheto, e a xilogravura, antigamente denominada de clichê, deram rumos insonháveis à vida do bezerrense – inclusive trocou seu nome. J. Borges, assim, abreviado, desembarcou em 10 países, deu aula na França e nos Estados Unidos, recebeu a Ordem do Mérito Cultural e tinha entre seus admiradores Ariano Suassuna e Eduardo Galeano.

Boa parte da conversa foi gasta para falar de Suassuna e Galeano. Considera o primeiro seu padrinho de arte. “Foi ele quem fortaleceu meu nome. Quando viu meu trabalho, ficou entusiasmado e disse que eu era o melhor do Nordeste. Viu mais e disse que eu era o melhor do Brasil. Em 2008 ou 2010, ele esteve aqui [no ateliê], andou pelos cômodos todos, subiu, desceu, foi lá, veio cá, e disse que eu era o melhor do mundo. Aí eu falei: ‘Você pirou, Ariano. Não sabe mais o que fala’. A gente tinha intimidade”.

Vocacionado a contar histórias – seja por rimas de cordel, nos sulcos das madeiras e mais ainda no cara a cara -, J. Borges é capaz de espanar encontros empoeirados: reconstróis diálogos e aloca tudo o que fala no tempo em que ocorreu (o mês, se de dia, à tarde ou noite…). Como a conversa abaixo, que segundo ele foi tida num almoço na casa de Ariano –  “com aquele jeitão dele, aquela roupa cáqui” – quando o relógio já marcava 15h:

– Tomei seu tempo, Ariano. Vou embora que você tem o que fazer.
– Não, Borges. Conversar com você é uma aula.
– Agora, pronto: explique porque é uma aula!
– Não tem o que explicar.
– Tem, sim. Você teve três formaturas, é professor de universidade, um homem intelectual, e eu, analfabeto. Você falar que conversar comigo é uma aula…
– Borges, eu nasci e me criei dentro do colégio, fui para a universidade e terminei professor. O meu vocabulário é científico, e o seu vocabulário é o que eu gosto, que é o popular, do Agreste, do Sertão. Quando você conversa eu estou aprendendo, aqui e acolá, uma palavra.
– E é assim, é?
– É. Borges. Não me leve a mal.
– Tá bom, Ariano. Tá perdoado.

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Xilogravurista ria a toda hora; sobretudo quando contou causos relacionados a Ariano Suassuna

Da admiração e gratidão ao mestre armorial, um dos seus 18 filhos (foram 13 biológicos e cinco adotados, nem todos vivos) chama-se Ariano. “É pra pronunciar o seu nome todo dia”, respondeu o xilogravurista quando questionado pelo escritor o porquê da homenagem. Ele diz que Ariano ficou emocionado. Entenda a honraria: nos anos de ditadura, recluso, Suassuna abrira as portas da sua casa para receber J. Borges, levado pelo escritor Liêdo Maranhão, por indicação do artista plástico mineiro Ivan Marchetti. Foi quando se conheceram. Na situação, Ariano chamou jornalistas de todos os veículos para entrevistar Borges. A repercussão alavancou a carreira do xilogravurista: “Até hoje não tive mais sossego”, diz ele, rindo.

Ivan Marchetti também virou nome de filho. Mas registrado com um “t” apenas. Marchetti junto com o também artista plástico Zé Maria de Souza, foram os descobridores do xilogravurista que, até então, não tinha projeção para além das fronteiras do interior de Pernambuco. O marchand Carlos Ranulpho é recordado como o primeiro a representar a arte do bezerrense. Até que no início de 1993, numa loja do Rio, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, um dos maiores pensadores da América Latina, conheceu a obra do pernambucano.

“Nunca vi um homem tão consciente, sensível à arte e fiel, de palavra. É um sujeito que vale tudo, além de ser um grande artista, escritor e uma pessoa ótima”, fala Borges sobre Galeano, pouco tempo antes do uruguaio falecer, no dia 13 de abril deste ano. Para o autor, em dois anos e meio, J. Borges criou 185 trabalhos (muitos deles ilustram o livro As Palavras Andantes), aprendeu espanhol o suficiente pra ler jornais na Venezuela (“Pegava e lia todinho”), casou uma das filhas, comprou uma Caravan meia-vida..

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Semianalfabeto, diz que a arte o possibilitou ter prazeres que não teria se não houvesse se tornado artista

J. Borges precisa relembrar – com gratidão – todas as pessoas acima citadas para validar o seu trabalho, que não considera bem uma arte. “Eu faço essas caretas. Assim… acho que não é arte. Arte são outras coisas… uma escultura, pintura, acho que é uma arte mais… Mas a xilogravura?”. Continua minimizando: “O povo hoje, também, não sabe o que é que diz, né? Dizer que eu sou um bom artista é uma loucura… Não acredito bem no que faço”.

Considera-se um artista, mas alguém tornado artista, ofício de que ele gosta como se fosse uma salvação: “Eu gosto de ser artista! É divertido, a gente arranja muitas amizades. E no meu caso, que não tive direito a estudar, é um meio de gozar as delícias do mundo. É quando eu me admiro: o cara analfabeto, criado no sítio, sem informação, ir para os Estados Unidos, passar três semanas ensinando numa universidade do Novo México, e depois voltar com seis mil dólares no bolso… Eu pensei no aeroporto de Miami: ‘É uma passada muito grande na vida!’. É quando eu me sinto artista, porque eu virei artista… Agora, eu sou muito artista mesmo é quando estou num barzinho tomando uma dose de uísque ou cerveja e comendo uma carne boa. Aí eu sou artista!”, ri.

Acho meu trabalho bem comum, não tenho nada de ficar empolgado. Eu sei fazer, sei trabalhar… mas não gosto de elogiar o que é meu. Gosto que o elogio venha de lá pra cá. Eu dizendo, não. Gosto de ser humilde. Minha vaidade é por dentro. Eu fico satisfeito, mas não me orgulho nem me sinto importante.”

Trata-se, pois, de um artista que precisa do público para fazer-se tal: “Tem hora que eu digo que não sou artista, mas quando vejo todo mundo dizendo que eu sou, quem sou eu pra pisar na palavra de vocês?”. No “vocês” de J. Borges estão outros artistas, jornalistas, pesquisadores e o público diverso, da Petrobras ao pedreiro: “Eu gosto que meu trabalho seja vendido ao pedreiro, ao professor, ao aluno, que todo mundo tenha. Se eu botar um preço bem alto, só quem vai comprar, e de vez em quando, é uma pessoa de alto poder aquisitivo… É por isso que o meu trabalho se espalhou”.

 

O ingresso de J. Borges no seu universo-redenção ocorreu em 1956, quando ele tinha 20 anos. Com 500 cruzeiros da época, comprou folhetos alheios e saiu pelas feiras vendendo; em seguida escrevendo; e depois fazendo xilogravura. “Quando vi meu nome como autor e ilustrador, fiquei todo fofo”, diz, referindo-se ao primeiro trabalho todo seu, O Verdadeiro Aviso de Frei Damião. Fez sucesso com o público e os colegas de folhetos, e assim a vida desenrolou. Criou a capa do Calendário da ONU de 2002 e 30 gravuras para a abertura da primeira versão da novela Roque Santeiro, da Globo, em 1975, à época censurada e engavetada pela ditadura. É Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco. Muito vivo, continua a ir diariamente ao seu ateliê, batizado de Memorial J. Borges, para criar. Explica, em agradecimento: “O cordel nunca sai de mim, não, porque tudo o que nasceu foi do cordel”.

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Risonho, J. Borges, na hora dessa foto, solta para o fotógrafo: “Que diabo ele tá querendo captar ali? Nada!”

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Publicado por
Romero Rafael

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