Com Francisco Brennand, aos 87 de vida e 60 de arte

Publicado em Galerias Notas Vídeos 25/12/2014 às 8:00
Com Francisco Brennand, aos 87 de vida e 60 de arte
Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand/Fotos: Dayvison Nunes/JC Imagem

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand/Fotos: Dayvison Nunes/JC Imagem

Em um meio-dia de setembro, asiáticos arregalavam os olhos sobre as criaturas de Francisco Brennand, quando visitavam a Oficina Cerâmica que o artista plástico construiu na Várzea, Zona Oeste do Recife. Eram turistas naquela cidade sui generis erguida sobre uma ex-ruína e povoada por seres sexuais e com formas semelhantes às de seres primitivos. Adiante, em seu ateliê tomado por livros, Brennand nos recebeu. Com aparente ar austero, logo substituído pelo jeito cortês e pela boa prosa, folheava um dos quatro volumes do diário que escreve desde que ali se estabeleceu, há 42 anos.

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O artista – mais conhecido por seu trabalho como ceramista, escultor e pintor – é desde jovem habilidoso no ofício de construir sobre ruínas e há 60 anos dedica-se inteiramente à arte de criar. Brennand cria e constrói. Conversamos por um tempo em torno dos 87 minutos, coincidentemente a idade completada por ele em 11 de junho de 2014. O mestre nos falou, sobretudo, da vida. E com as palavras sábias dele brindamos ao Natal. Acompanhe:

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Cap.1 – “Eu sou um fabricante de ídolos”

Para Brennand, de todos os visitantes que já recebeu na Oficina, a bióloga chilena Cecilia Toro foi quem melhor falou sobre seu trabalho. Ela desenvolveu o estudo “Brennand: as matrizes da vida”, em que enxerga nas obras do artista formas primitivas de vida. Comparação possível graças à pesquisa de seres, como vermes, feitas por Cecilia em microscópio de varredura. “Foi para mim de uma utilidade enorme: eu não estava trabalhando com formas inexistentes!”, exclama ele, que se diz fabricante de seres com vida.

 

Cap.2 – “Não posso dizer que isso é solidão”

Propagado como um homem recluso, de silêncio e solidão, Brennand trabalha ouvindo música e rechaça a fama de viver só. Defende-se com o fato de trabalhar ao lado da filha Helena Viktoria Brennand, a quem chama de “guardiã” daquele espaço e também “flor rara”, por colocá-lo na internet e nas redes sociais. “Se você não está na internet, você está morto”, diz, rindo. Muito embora ele confesse que a melhor companhia não é a de Helena nem das suas obras, mas a dos seus diários e livros.

 

Cap.3 – “Nós não somos feitos para construir o universo”

A vida e o tempo são para Brennand enigmáticos. E ele se conforta nisso: “Não é claro, é turvo, e isso me faz dormir em paz, porque senão eu não dormiria”. Continua: “Nós pensamos e partimos de um zero à esquerda e nos projetamos para um infinito… Acho que é um abuso de confiança. Acredito mais num eterno retorno, num tempo circular e que não há nada de novo. Acredito que as coisas que aconteceram estão acontecendo e irão acontecer. Mas vocês [jovens] podem ter esse privilégio de pensar que somos novos. Eu já não tenho”.

 

Cap.4 – “Para mim, Ariano continua vivo”

Ariano Suassuna, falecido em 23 julho de 2014, declarou, num ritual de imortalidade, em 1982, que ele mais Brennand, Cesar Leal e José Laurindo de Melo nunca morreriam. A amizade de Brennand com Ariano começou no Colégio Oswaldo Cruz, em 1945. Ariano conquistou Francisco com seus conhecimentos de pintura. E Francisco agradou Ariano com suas leituras sobre literatura. “No dia 4 de fevereiro de 1993, Ariano Suassuna acompanhado de seu filho, Dantas, esteve aqui na fábrica…”, lê Brennand, no diário, ilustrando a proximidade deles.

 

Cap.5 – “Eu sou sexual, não armorial”

“Eu conheci Ariano monarquista e ele se transformou em um socialista. Nós tivemos identidades e depois essas identidades foram se diluindo. A amizade e o respeito por ele continuam os mesmos, pela família dele, por tudo, porque fomos amigos. Eu conheci a mãe e todos os irmãos e filhos de Ariano. Gente de primeiríssima grandeza”. Essa fala de Brennand abre a possibilidade de posicioná-lo do lado de fora do movimento armorial, ao qual ele diz não ter nada a ver. Apesar de muito amigo de Ariano, as identidades eram diferentes.

 

Cap.6 – “A velhice não é boa para ninguém”

Quando confrontado com o envelhecer, Francisco Brennand relembra a juventude do ponto de vista físico, dos movimentos agora não mais possíveis com a idade avançada. Rememora: “Eu cultivei muito na juventude a natação – o nado é uma maravilha! Fiz pesca submarina, jogava futebol, tênis, voleibol, basquete, tudo igualzinho aos outros. Apenas os meus interesses pela literatura e pintura foram se intensificando e eu preferi ir para a Europa, que marcou a minha vida para sempre. E se ser um pintor é não ser ninguém, então eu sou ninguém”.

 

Cap.7 – “A morte é obscena”

O artista, que conta ter medo do que pode lhe ocorrer, ou ocorrer aos seus (“Leia o jornal com atenção e se você não tiver medo você é um herói”), acha a morte uma violência: “A morte é a sensação violenta da vida; é o contrário da vida”. E também discorda das cerimônias mortuárias. Até já deixou em testamento que quer ser cremado, sobretudo por causa da sua relação com o fogo. Sobre desejos póstumos, sonha na manutenção da Oficina e da obra que lá está. “É o meu legado”.

 

Cap.8 – “Ela protegeu a minha retaguarda”

Registro do jovem casal Francisco e Deborah Brennand

Registro do jovem casal Francisco e Deborah Brennand

“Pela primeira vez que a vi, com aqueles olhos claros, ela era baixinha, linda, linda, maravilhosa…”, descreve Brennand recordando-se da ex-mulher, a poeta Deborah Brennand, com quem viveu por cerca de 20 anos e com quem gerou as filhas Maria Helena e Neném Brennand. Os dois se conheceram no Colégio Oswaldo Cruz, no Recife. “Eu cometi a ignomínia de retirá-la da Faculdade de Direito do Recife. Propus a ela casamento e uma viagem a Paris. Qual moça recusaria? Então, ela viajou comigo”.

Veja mais fotos do nosso encontro:

Em mais de uma hora com Brennand falamos também sobre política, televisão, meio-ambiente, arte… A transcrição da conversa segue na íntegra:

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Publicado por
Romero Rafael

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