A residência de amor e arte do casal Glasner

Publicado em Galerias Notas 10/10/2014 às 7:00
A residência de amor e arte do casal Glasner

Na tarde de uma sexta, deixamos o Recife e chegamos a Gravatá. Pegamos uma estrada de barro. A paisagem verde, o silêncio, o passo lento do gado, numa crescente desaceleravam os sentidos – o olhar, sobretudo. Passamos uma ponte, abrimos uma porteira e, então, o lar que Gio Simões Glasner e Kilian Glasner escolheram no retorno ao Brasil, voltando de Berlim, onde vivenciaram uma experiência que chamam de “incubadora artística”, tamanha a convivência com culturas diferentes e a experimentação de materiais artísticos. As fotos são de Dayvison Nunes/JC Imagem.

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A calmaria do lugar, propriedade da família de Gio, já havia servido de moldura para a performance dos dois, enquanto casal, em dias de descanso. Fixar-se nela tornou-se ideia desde quando casaram, em maio de 2012, momento em que partiram para a temporada na capital alemã. O prazo de dois anos morando fora, estipulado por eles mesmos, venceu; e a necessidade de se reaproximar do mercado brasileiro de artes os trouxe de volta.

Clique a caminho do lar do casal

Clique a caminho do lar do casal

Gio, no entanto, voltou outra. Antes estilista, agora artista com certidão de nascimento em Berlim. “Fui querendo dar um tempo com a moda. Minha ideia era retomar, mas de outra forma, que fosse mais arte, mais autoral e menos comercial”, conta.

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Nasce um pavão por Gio Simões Glasner

Decidiu, à época, produzir quimonos. Seriam dez peças, todas pintadas a mão. “Passei 15 dias pintando o primeiro e fiquei com pena de cortar, era uma pintura inteira. Mas fiz a modelagem, cortei e costurei. Como não tinha prática, foram mais 15 dias. Passou um mês. Dez, eu levaria um ano. Pensei: vender para quem e por quanto? Era inviável e percebi que, de todo o processo, o que mais tive prazer foi a pintura. Ali eu pensei que tinha de ir para outro caminho. Se aquilo desse certo, cedo ou tarde eu estaria com uma estrutura de pessoas costurando para mim, um negócio, e eu já tinha saído disso com a Figa [antiga grife dela]. Queria algo que fosse só eu do começo ao fim”.

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O quimono pintado a mão e costurado por Gio

Desse insight até achar seu jeito de fazer arte foi um processo. Frustrou-se com o resultado de uma tela com acrílico, que lhe tomou um mês e ficou aquém de seu gosto. Só depois foi desenhar com pastel – que ela apresenta na mesa, em várias cores, guardadas como que em estojinhos de maquiagem. “Eu me apaixonei e percebi que queria fazer aquilo para sempre”, relembra, ressaltando que sua maternidade foi a loja de materiais artísticos pela qual o casal tanto andou e de onde trouxe dez rolos de papel, cada um com dez metros, mais tintas à vontade. Nas gavetas, muitas a óleo, que em breve serão testadas por ela.

A mesa farta com os pastéis que tornaram Gio artista

A mesa farta com os pastéis que apontaram o caminho de Gio como artista

Apesar do pouco tempo – sua 2ª exposição será quarta (15), no Barchef, Blush, sobre vaidade feminina, tendo a 1ª sido também neste ano -, Gio tem ganhado um reconhecimento que a surpreende. Em setembro vendeu rapidinho as três obras que levou para a Art Rua, na Art Rio. “Até agora, tudo o que a gente expôs, vendeu. Não esperava isso de jeito nenhum. Nem eu nem ninguém. Estou feliz porque o melhor feedback é o trabalho ser vendido, melhor do que mídia ou elogio.”

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O Criatório, ateliê dos dois

A neoartista contou suas descobertas ao Social1 numa conversa no Criatório, espaço novo no velho lugar dos dois. Trata-se de ateliê construído com uma parede toda de vidro, de frente para uma serra verde, onde ao pé corre um lago no qual Kilian cria tilápias. Uma incubadora perfeita para nutrir olhos e silêncio de quem produz imagens, ilustra visões.

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A bela vista do interior do Criatório

No lado oposto ao que Gio contorna e preenche um pavão em cima da mesa, está o lado do marido, já bastante experiente nos meandros das artes plásticas, com exposições desde 2000. O certo veterano e a novata têm acordos para a convivência artística: um lado para cada – com poltronas ao centro fazendo a intersecção – e pode haver troca de ideias, nunca interferência.

“Só dou minha opinião se ele perguntar; e se a minha opinião não for o que eu sei que ele está querendo ouvir, pergunto antes se ele tem certeza de que quer saber. E tem que analisar a opinião do outro: você escuta, mas absorve só o que quer. A gente não se deixa atrapalhar.” Kilian complementa: “A identidade, o gosto pessoal na arte, é fundamental. Tem que respeitar. A gente tem uma dinâmica de nunca fazer crítica pela crítica.”

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Ao fundo de Kilian, a parede preta que ele usa para pintar e afixar suas telas

Ao final da tarde, sol caindo, para lá e para cá no ateliê de onde o visitante não quer sair, todo lindamente decorado com objetos da memória afetiva do casal, corre o terceiro membro da família, Richter, um buldogue francês trazido da vida na Alemanha. Kilian sai para alimentar as tilápias. Gio continua a desenvolver o pavão azul em desenho para a mostra nova. Ela assina com o sobrenome do marido, demarcando a nova vida. “Queria desassociar da estilista; eu não queria que, numa pesquisa no Google, saísse minhas coisas de moda. Queria matar aquela pessoa e criar outra. Foi isso que eu fiz”, disse, aos risos.

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A família

A família

Mais: Dá para acompanhar o trabalho de Gio pelo Instagram, onde posta fotos do seu processo criativo. A artista é representada pela Nuvem Produções, de Claudia Aires e Guga Marques. Já Kilian é representado pelas galerias Amparo 60 (Recife), Laura Marsiaj (Rio) e Lume (São Paulo) – em novembro participa de mostra coletiva para inaugurar novo espaço da Lume e prepara individual para 2015.

Veja mais fotos da nossa visita:

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Publicado por
Romero Rafael

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