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28/09/20
Foto: Reprodução/TV Brasil
Foto: Reprodução/TV Brasil

Beberam uns goles de ayahuasca? Por Ricardo Leitão

28 / set
Publicado por José Matheus Santos em Opinião às 7:27

Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

Ayahuasca é uma bebida sacramental, oferecida nos rituais do Santo Daime, manifestação religiosa surgida na região amazônica no início do século passado. A ingestão da bebida, na forma de chá, desencadearia um processo de autoconhecimento, corrigindo defeitos dos usuários e aprimorando-os como seres humanos. A ayahuasca não é uma droga alucinógena, mas seu uso contínuo pode alterar o comportamento de pessoas com tendências psicóticas.

Maledicentes impatrióticos sugerem goles do chá como causa do desconexo discurso do Presidente Jair Messias Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. E não só desconexo, como também pleno de omissões, inverdades e acusações descabidas aos índios e caboclos da Amazônia. Terrivelmente evangélico, Bolsonaro não teria entornado ayahuasca por restrições religiosas. Porém, um dos redatores do seu discurso pode ter se sentido à vontade na apreciação do chá, dele valendo-se como matéria prima inspiradora para as linhas que abrilhantaram o texto do Capitão.

Importa pouco. O que importa muito é constatar que o pronunciamento do Presidente nas Nações Unidas, ao lado dos mais importantes líderes mundiais, foi uma vergonha para o Brasil e mais um desastre bolsonarista para a imagem do país no exterior. Sem provas, Bolsonaro denunciou instituições internacionais de organizar campanhas contra o agronegócio brasileiro e afirmou que os incêndios na Amazônia e no Pantanal ocorriam em áreas já desmatadas, deflagrados por índios e caboclos para plantar roçados.

Mudou o tema para a pandemia e foi em frente. Destacou o empenho de seu governo contra a covid-19, desde a confirmação do primeiro caso; sustentou que não faltaram medicamentos, equipamentos e profissionais de saúde nas linhas de frente; protestou contra a perseguição religiosa e encerrou como um crente de raiz: “ O Brasil é um país cristão, conservador e tem na família a sua base. Deus abençoe a todos! ”

À exceção dos áulicos no Palácio do Planalto e no Congresso, a repercussão do discurso foi miúda. Até os mais generosos lamentaram a oportunidade perdida pelo Presidente de explicitar a posição do Brasil na nova conjuntura internacional, ameaçada pelo recrudescimento da Guerra Fria. Outros protestaram publicamente por Bolsonaro aumentar as dificuldades do fechamento de negócios no exterior, ao denunciar a União Europeia de boicotar produtos brasileiros. Nas comunidades médica e científica, nem um pio de pinto de apoio.

Dramaturgo e romancista paraibano, radicado em Pernambuco, Ariano Suassuna se notabilizou por suas bem-humoradas descrições de tipos humanos. Por exemplo: mentiroso, segundo ele, não é quem mente por costume, quase como um vício; mas quem conta a sua versão autoral de uma história, enquanto a verdade segue em frente, sozinha. Seria exagero concluir que o discurso de Bolsonaro nas Nações Unidas exemplifique o tipo humano de Suassuna. Porém, sem dúvida, há nele passagens em que a verdade desembesta na dianteira e, prudente, sequer olha para trás.

É um embuste afirmar que empresários da Ásia, da Europa e dos Estados Unidos estão promovendo boicotes a produtos agropecuários brasileiros. O que eles fazem é alertar que investimentos potenciais de até R$ 20,5 trilhões podem ser cancelados ou adiados no Brasil, se o país não solucionar a destruição ambiental.

É engabelar a boa-fé dizer que os países da União Europeia atrasam propositadamente a assinatura do acordo comercial com o Mercosul. O documento ainda não foi assinado porque os Parlamentos europeus exigem que o Brasil – maior economia do Mercosul – se comprometa a cumprir cláusulas ambientais. Sem tal entendimento, a aliança sul-americana permanecerá sem acesso privilegiado ao mercado de 750 milhões de consumidores da União Europeia.

É embustear os fatos apontar índios e caboclos da Amazônia pelos gigantescos incêndios na região. Imagens de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da Agência Espacial dos Estados Unidos comprovam que os incêndios se multiplicam não em roçados de subsistência de índios e caboclos e sim em propriedades de mais de 400 hectares, onde avançam a pecuária extensiva, a agricultura mecanizada, as quadrilhas de grileiros e o desmatamento.

É engrupir o seleto público argumentar que o governo brasileiro enfrentou a covid-19 com prioridade. Do contrário: o Presidente tratou-a como “uma gripezinha”; desestimulou o uso de máscaras; zombou do isolamento social; em oito meses, trocou o Ministro da Saúde três vezes; não desenvolveu qualquer política nacional de combate à pandemia e, quando cobrado pelos recordes de mortos e infectados, rebateu com cinismo: “E daí? Sou Messias, mas não faço milagres.”

Estes são apenas quatro destaques “à la” Suassuna, em um discurso de poucos minutos, lido aos trancos, com a oratória peculiar do Capitão. Falta o quinto destaque: confirmar, novamente, que o Brasil, mergulhado em crises profundas, tem um governo desnorteado e um Presidente embaçado, que galopa para a extrema-direita.

Gente capaz de achar que um gole de ayahuasca é coisa do Capeta. Ou pior: de comunista.

*Ricardo Leitão é jornalista.


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