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14/09/20
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Infofóbicos e demofóbicos. Por Ricardo Leitão

14 / set
Publicado por José Matheus Santos em Notícias às 7:25

Por Ricardo Leitão*, em artigo enviado ao blog

Os dados do Programa Nacional de Imunizações, relativos a 2019, registram uma catástrofe: pela primeira vez, em quase 20 anos, o Brasil não atingiu as metas para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano. Quantos milhares delas correm agora o risco de morrer ou de adoecer gravemente? O pior é que, diante da reduzida procura por vacinas no momento, a tragédia do ano passado pode se repetir neste ano.

Em períodos normais, a imunização de crianças até um ano protege 90% dessa população da tuberculose e 95% das demais doenças. Abaixo desses percentuais, cresce o risco do retorno de endemias, como já acontece com o sarampo, e a transmissão de outras doenças consideradas sob controle. E lembrar que o Brasil é referência de imunizações em massa, já tendo alcançado a cobertura ideal para as sete principais vacinas aplicadas em crianças de até um ano…

O que aconteceu? Aconteceu o conluio perverso entre infofóbicos e demofóbicos. O Governo Jair Bolsonaro descumpre o seu dever de prestar contas à população quando as notícias são negativas – é a infofobia; aparta-se mais ainda dessa obrigação quando as notícias negativas têm como vítimas os mais pobres, os que não dispõem de recursos para se vacinar em clínicas particulares – é a demofobia; não bastasse, o Presidente proclama que ninguém está obrigado a se vacinar – é a ignorância.

A capacidade do Capitão de investir contra conquistas civilizatórias é incomensurável, mesmo em coisas simples como a defesa da vacinação. Por exemplo: ele aprendeu que a máscara protege contra a covid-19 e impede que outras pessoas sejam contaminadas. Um ato de humanidade e civilidade. Contudo, sem máscara, aperta mãos, posa para selfies e coloca crianças no colo. Não convoca a população para lutar contra a pandemia, não se solidariza com os infectados e as famílias dos mortos. Mantém há seis meses à frente do Ministério da Saúde um general especializado em logística e se diz satisfeito com os resultados. Depois, seus assessores se queixam quando a população o saúda com panelaços.

Pondere-se, a favor de Bolsonaro, que ao menos por enquanto ele não chegou ao feito do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que recomendou a ingestão de produtos sanitários para eliminar o vírus. Então, se ainda resta alguma racionalidade no Presidente por que não viabilizar a vacinação urgente de milhões de crianças? Por que não ordenar, de imediato, o planejamento da imunização de milhões de brasileiros contra a covid-19? Por que o Governo é lerdo frente a providências que podem significar vida ou morte para crianças, jovens e adultos? Muito difícil encontrar respostas, apenas a partir de análises políticas baseadas na lógica dos fatos. Tanto que o Capitão passou a ser observado pelos olhos críticos de psiquiatras e psicanalistas, mais capazes de ler além do que se diz e se faz. Dessa forma, o que expressa o desprezo de Bolsonaro aos mortos pela pandemia e às crianças sem vacinação?

Segundo os manuais, ele não seria louco. Seu comportamento se encaixaria em outra categoria, a dos psicopatas. Psicanalista e psiquiatra, Joel Birman afirma que “A psicopatia não é uma loucura, no sentido clássico, mas uma insanidade moral, um desvio de caráter de quem não tem como se retificar porque não sente culpa nem remorsos”. O Capitão já deu exemplo de que não sente culpa nem remorso. Quando foi batido o primeiro recorde de mortes pelo vírus no País, Bolsonaro informou que, na manhã seguinte, ofereceria um churrasco no Palácio da Alvorada para uns trinta convidados. O escândalo o fez desistir das maminhas, porém não de um passeio de jet-ski no lago Paranoá, em Brasília. Claro que no mesmo horário reservado ao churrasco porque um presidente também tem o direito de se divertir. Tudo isso depois de ser apontado pela revista inglesa “Lancet” – uma das mais respeitadas publicações do mundo na área científica – como um dos líderes mais negligentes dos países que enfrentam a pandemia.

Então, aonde nos leva o mundo irreal do Capitão, no qual ele acredita que o seu Governo “foi eficaz e o melhor do mundo no combate à pandemia” e que não há milhões de crianças sem vacinação? E seriam excessos da oposição as críticas a churrascos comemorativos e exibições em um lago poluído de Brasília. Esse mundo irreal só existe na cabeça de Bolsonaro, cercado pela dura realidade que bate às portas: ela vai muito além da crise sanitária e agrega recessão econômica, desemprego, desastre ambiental e degradação da política, capturada por várias quadrilhas, entre elas as formadas por simpatizantes do bolsonarismo.

Ainda que supere o constante desequilíbrio emocional, o Presidente teria condições de comandar o País em conjuntura tão adversa? Muitos afirmam que não e é dever de todos encontrar uma saída constitucional para evitar que a administração federal desande de vez. Entre lideranças civis e militares; do empresariado e dos trabalhadores; no Congresso e na mídia existe muita reflexão sobre o futuro. O Capitão poderia descer do palanque eleitoral onde se aboletou, refrear um pouco o autoritarismo e admitir participar das conversas. É de se supor que ele seria um dos principais interessados. Caso desconsidere, corre o risco de ser atropelado pelos acontecimentos e assistir ao mundo real desabar no seu colo.

*Ricardo Leitão é jornalista.


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