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03/08/20
Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)
Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)

Encolheu, mas está vivo. Por Ricardo Leitão

03 / ago
Publicado por José Matheus Santos em Opinião às 9:20

Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

Acantonado por crises que não consegue resolver, Jair Bolsonaro vem perdendo apoio dos eleitores nos últimos meses. No entanto, a queda, mostrada nas pesquisas, tem um piso: cerca de um terço dos entrevistados continua a considerar seu governo “bom e ótimo”. O percentual surpreende, diante do tumulto administrativo e político em que está mergulhado o País.

Caso essa opinião positiva se transforme em votos em 2022, seria suficiente para catapultar o Capitão do primeiro para o segundo turno, movimento que ocorreu em 2018. Ensinam os mestres que a História só se repete como farsa. Bolsonaro com certeza faltou a essa aula e acelera as providências para viabilizar seu mais importante projeto: a reeleição.

A primeira delas é neutralizar, no nascedouro, qualquer outra candidatura no campo da centro-direita. Até agora, foram vitimados Sérgio Moro, ex-Ministro da Justiça e Segurança Pública, e Luiz Henrique Mandetta, ex-Ministro da Saúde. Estão na linha de tiro o Governador de São Paulo, João Dória, e o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Encontra-se também em curso a segunda providência, que objetiva formar uma base consistente no Congresso. Ela aprovaria os projetos de interesse do Governo, derrotaria candidatos de oposição à Presidência da Câmara e do Senado e bloquearia os requerimentos de impeachment de Bolsonaro, 48 até o momento.

Colocar o Governo em funcionamento, treze meses depois da posse, é a terceira providência. Nas últimas semanas, o Capitão cuidou mais das investigações policiais sobre sua família e amigos do que qualquer outro assunto. E não faltam assuntos urgentes. O Brasil irá ultrapassar, nos próximos dias, a marca de 100 mil mortos pela pandemia e há quatro meses o Ministério da Saúde é dirigido por um general de brigada, interino no cargo, sem condições técnicas de coordenar o enfrentamento da crise sanitária. O Ministro do Meio Ambiente foi denunciado pelo Ministério Público Federal por dolo ambiental, enquanto os incêndios florestais voltam a devastar o Cerrado e a Amazônia.

A quarta providência é mais desafiadora, por buscar a manutenção do apoio mínimo de 30% dos votantes, para que o Presidente não perca o protagonismo no jogo eleitoral. Seu espaço de manobra é reduzido. Ele precisa segurar ao seu lado a militância extremista que exige a volta da ditadura e, ao mesmo tempo, agregar setores da classe média. A conta pode não fechar, como sugerem algumas pesquisas de opinião.

O Capitão estaria perdendo votos no Sul, Sudeste e Centro Oeste, regiões nas quais alcançou seus melhores índices, em 2018, forçando-o a buscar compensações no Nordeste, onde foi largamente derrotado na eleição passada.

Em uma conjuntura nacional e internacional que tende a piorar com rapidez é possível manter de pé as quatro providências? Bolsonaro já mostrou ser surpreendente e determinado. O apoio que tinha encolheu, mas ele continua vivo e competitivo. Não é fantasioso cogitar que em janeiro de 2022 desponte nas pesquisas com 30% das intenções de voto – os mesmos 30% que sempre lhe foram fiéis, mesmo em seus piores momentos. Pode-se argumentar que a situação não irá, necessariamente, evoluir nesse sentido. Pode e não pode. São muitas as contingências.

O fato é que o histórico dos levantamentos estatísticos demonstra que um candidato com um terço das intenções de voto na largada de uma campanha tem boas possibilidades de avançar. Assim se deu nas eleições e reeleições de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff; foi assim na eleição de Bolsonaro em 2018.

De princípio, nada impede que em tais circunstâncias salto igual aconteça em 2022. Porém, é importante considerar que os competidores do Capitão sequer estão alinhados para a largada – ao contrário dele, com seus coturnos engraxados e sua caneta cheia de tinta para nomear, demitir, liberar verbas públicas.

Sem unidade, por enquanto a oposição ainda assiste à corrida das arquibancadas. Faltam propostas capazes de levar à convergência de todas as forças de centro-esquerda. Um problema que não aflige Bolsonaro. Não lhe motivam convergências, divergências, planos e propostas e sim o que lhe inspiram os delírios do poder: provar que os filhos, sobrinhos, netos, bisnetos, agregados e afins são inocentes de todas as culpas; expulsar para a Coreia do Norte os derradeiros comunistas brasileiros e decretar que a hidroxicloroquina é patrimônio nacional.

*Ricardo Leitão é jornalista.


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