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25/07/20
Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Coivara, hardware e software. Por Ricardo Leitão

25 / jul
Publicado por José Matheus Santos em Opinião às 9:08

Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

Em 1500, quando as caravelas da frota de Pedro Álvares Cabral aportaram no que seria a Bahia, os índios já queimavam trechos da Mata Atlântica para plantar mandioca e amendoim. A prática, denominada coivara, se disseminou na colonização, facilitou a derrubada do pau-brasil e acelerou a destruição quase total da mata. Os tupis nunca foram ambientalistas.

Quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, cinco séculos depois de Cabral, a coivara ainda resistia em regiões de agricultura rudimentar, onde o fogo continua sendo usado para abrir espaço a plantios de subsistência e pecuária extensiva. São exemplos os cultivos nas terras secas do interior do Nordeste e em trechos da floresta amazônica. Nesses trechos, os incêndios criminosos se associam à derrubada de milhões de árvores para formação de pastos e contrabando de madeira.

Apesar de as queimadas nos sertões nordestinos já estarem criando áreas de desertificação no bioma da caatinga, as atenções se debruçam sobre a Amazônia. Há sólidos motivos: trata-se da maior floresta tropical e uma das gigantescas reservas de água doce do mundo; ambiente natural de milhares de espécies, muitas sequer catalogadas; fonte de energia hidrelétrica; berço de povos indígenas com culturas milenares, alguns ainda isolados.

Uma região rica, em boa parte desconhecida, cobiçada por variados interesses, de missionários religiosos a pesquisadores de minérios estratégicos. Lá, ribeirinhos sobrevivem do extrativismo e da pesca artesanal, recorrendo à coivara em pequenos plantios de subsistência. Nas cidades, fábricas de hardwares e softwares exportam produtos tecnológicos, com a garantia de incentivos fiscais.

O desenvolvimento da Amazônia e a justiça social para sua população representam há décadas desafios aos brasileiros. Eles e tantos outros têm um ponto em comum: o futuro da região é uma questão de Estado, a ser equacionada e solucionada governo a governo, como se fosse – e, com certeza, é – um compromisso de gerações.

Nesse sentido, qual a contribuição do Governo Jair Bolsonaro? Absolutamente nada de relevante. O apetite do Presidente pelo debate sobre a Amazônia é igual ao apetite de um pitbull por uma salada de alface. Nos últimos meses, o Capitão defendeu mais a hidroxicloroquina do que a região, com o luxuoso respaldo de Ricardo Salles, o inacreditável Ministro do Meio Ambiente.

Quadro da direita no Governo, capaz de culpar os índios pelas queimadas criminosas, Salles se tornou um fantasma administrativo. Suas funções foram absorvidas pelo Vice-Presidente Hamilton Mourão, nomeado por Bolsonaro para a Presidência do Conselho Nacional da Amazônia Legal. Cabe agora a Mourão arrostar um confronto de baixa cordialidade: a pressão política e o dinheiro grosso de governos e empresários, nacionais e internacionais, que se consideram no dever e no direito de interferir no debate sobre o futuro da floresta.

A primeira das intervenções, já em curso, foi da Alemanha e Noruega, que em conjunto condicionaram o apoio anual de R$ 3 bilhões para pesquisa na Amazônia ao controle das queimadas. Em seguida, o Presidente da França, Emmanuel Macron, comunicou que seu voto a favor do acordo da União Europeia com o Mercosul dependerá do enfrentamento da crise ambiental pelo Brasil, o mais importante integrante do Mercosul.

Os dois golpes ainda atordoavam quando 20 grandes fundos internacionais de investimentos, representando 251 instituições financeiras, com R$ 20 bilhões para aplicar, tornaram pública uma carta azeda. Nela informaram que poderiam rever a recomendação, aos seus milionários clientes, de investir no Brasil, na hipótese de não cessar o crescente desmatamento na floresta.

Semanas depois, empresários brasileiros – entre eles os principais grupos agropecuários exportadores – ecoaram no mesmo tom. Foram replicados por todos ex-Ministros da Fazenda de todos os governos desde 1985, que opinaram em uníssono: é possível desenvolver a Amazônia e, ao mesmo tempo, preservar sua riqueza ambiental; contudo, urgem políticas, planos, programas, projetos e gestão. Não há nada disso no Governo Bolsonaro.

Depois de uma reunião com empresários em Brasília, Mourão anunciou que as Forças Armadas iriam aumentar a fiscalização, as queimadas seriam proibidas até novembro e remodelada a estrutura do Ministério do Meio Ambiente. Contudo, prudente, antecipou que, apesar do esforço emergencial, a devastação pelo fogo neste ano ainda seria maior do que em 2019, quando bateu recorde.

Em que ano será menor? Não se sabe. É como se o futuro da Amazônia fosse uma monumental coivara vermelha e brilhante, visível por satélites a milhares de quilômetros de altura, enquanto no solo a fumaça cobre milhões de árvores carbonizadas.

*Ricardo Leitão é jornalista.


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