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20/07/20
Flávio, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro Foto: Reprodução
Flávio, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro Foto: Reprodução

Tudo junto e misturado. Por Ricardo Leitão

20 / jul
Publicado por José Matheus Santos em Opinião às 9:04

Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

O que há de comum nas investigações sobre as fake news; os ataques aos Ministros do Supremo Tribunal Federal; o uso ilegal de redes sociais na eleição presidencial de 2018; as manifestações em apoio à ditadura; o desvio de verbas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e a homenagem ao assassino de aluguel Adriano da Nóbrega?

O que há de comum é a fundada participação nesses feitos, em menor ou menor proporção, da família Bolsonaro. Estão lá as digitais de Jair, o Presidente; de Flávio, o Senador; de Carlos, o Vereador pelo Rio; e de Eduardo, o Deputado Federal. Sem dúvida, um clã unido, exemplarmente organizado em campo tão concorrido.

Seria exagero cogitar de uma quadrilha política de alta estirpe. As investigações ainda estão em curso e não houve julgamento – em consequência, não há culpados formais. Mas é possível afirmar, com base nos indícios reunidos pela polícia, que a multiplicidade de feitos, bordejando a ilegalidade, é algo inédito na crônica dessa República tropical.

Por ordem cronológica, adentra Jair Bolsonaro. O Tribunal Superior Eleitoral investiga se a sua vitória em 2018 foi alicerçada na organização de redes sociais financiadas por políticos e empresários da extrema direita, especializadas em detratar adversários. Um dos líderes das redes é Tércio Arnaud Tomaz, assessor do Presidente, com gabinete no Palácio do Planalto, apartamento funcional e salário mensal de R$ 13,5 mil.

Seriam provenientes das mesmas redes os ataques e ameaças físicas aos Ministros do Supremo, notadamente Alexandre de Moraes. É ele o relator dos inquéritos sobre os insultos aos integrantes da Corte e as fake news, assuntos que se vinculam. A tais assuntos também se conectam as investigações a respeito das manifestações pela volta da ditadura militar. Bolsonaro participou delas, em criminosa afronta à Constituição.

O seu filho Flávio brilha na sequência. Quando deputado estadual pelo Rio teve como assessor parlamentar Fabrício Queiroz, ex-policial militar, amigo de Bolsonaro e de Adriano da Nóbrega, também ex-PM e assassino de aluguel. Flávio nomeou para o seu gabinete parentes de Queiroz; requereu e aprovou medalha em homenagem a Nóbrega e contratou como seu advogado Frederick Wassef, que também se apresentava como advogado do Presidente.

Wassef – com acesso privilegiado ao Palácio do Planalto e ao Palácio da Alvorada, endereços do Capitão em Brasília – escondeu Queiroz em casa de sua propriedade no interior de São Paulo. O assessor parlamentar de Flávio era procurado pela polícia por coordenar esquema de desvio de verbas na Assembleia do Rio, para supostamente favorecer o filho do Presidente.

O Vereador Carlos segue o cortejo. Cumpre importante papel nas prioridades do clã. Foi organizador das redes bolsonaristas durante a campanha de 2018, experiência que levou para o Governo. É investigado por suspeição de ter estruturado o chamado Gabinete do Ódio, formado por fidelíssimos militantes. O gabinete funcionaria dentro do Palácio do Planalto, com a missão diária de implodir reputações dos adversários do Presidente. Ou seja, disseminar todos os dias milhares de fake news.

O deputado federal por São Paulo, Eduardo Bolsonaro, fecha a fila com mais garbo e pretensões: permanece com seu projeto, apoiado pelo pai, de se tornar Embaixador do Brasil nos Estados Unidos, entre outras razões por sua fluência no idioma inglês, aprendido quando fritava hambúrgueres nas ruas de Chicago.

Estrategista, Eduardo calculou que um jipe, um cabo e um soldado seriam suficientes para tomar e fechar o Supremo. Ameaçador, alertou os oposicionistas para cessar com a “radicalização”, do contrário “as coisas vão sair do controle”. Não esclareceu que coisas e quem se encontra no controle. É presença destacada nas manifestações pró-ditadura, denunciado ao Comitê de Ética da Câmara dos Deputados.

Tudo, portanto, está junto e misturado: notícias falsas, ataques ao Judiciário, crimes eleitorais, desvio de verbas parlamentares, defesa da ditadura, homenagem a um assassino. E todas as suspeitas até agora recaem apenas sobre os integrantes de uma mesma família. O mais trágico é que eles têm o poder para decidir a respeito de questões fundamentais para o Brasil. E os brasileiros não merecem isso.

*Ricardo Leitão é jornalista.


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