publicidade
29/06/20
Flavio Bolsonaro e Fabrício Queiroz (Foto: Reprodução)
Flavio Bolsonaro e Fabrício Queiroz (Foto: Reprodução)

Duas bombas com pavios acesos. Por Ricardo Leitão

29 / jun
Publicado por José Matheus Santos em Notícias às 10:00

Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

Na semana em que seu governo completa um ano e seis meses, Jair Bolsonaro se depara com duas bombas sob os seus pés, de pavios acesos. Os artefatos têm nomes e sobrenomes: Fabrício Queiroz e Frederick Wassef. Queiroz foi oficial da Polícia Militar do Rio de Janeiro; Wassef, ex-advogado do senador Flávio Bolsonaro, filho do Presidente.

Por motivos diversos, os caminhos dos dois cruzaram com os caminhos do clã do Capitão. E agora tornaram-se riscos explosivos no centro de um escândalo político-policial que pode causar sérios danos aos Bolsonaro. O escândalo envolve, por enquanto, suspeitas de desvios de recursos públicos; obstrução da Justiça; ocultação de testemunhas; tráfico de influência e ligações com milicianos cariocas acusados de assassinatos.

Em 2019, o Presidente foi informado de que investigações sobre desvio de salários de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro estavam chegando a Queiroz, há décadas amigo próximo do Capitão e assessor de seu filho Flávio, então deputado estadual. Queiroz comandaria um esquema de “rachadinhas,” pelo qual servidores “doariam” partes de seus salários a deputados, entre eles Flávio.

Teria ainda o assessor empregado sua filha no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro e lotado no gabinete do filho do Capitão, no Rio, familiares e amigos seus – como a mãe e a mulher do ex-policial militar Adriano da Nóbrega. Na época, Nóbrega já era miliciano de destaque e chefe de uma quadrilha de assassinos de aluguel. Foi morto no interior da Bahia, em confronto com policiais.

Dado o alerta em 2009, Bolsonaro e Flávio, exatamente no mesmo dia, exoneraram dos seus gabinetes Queiroz e a filha. Em seguida, trataram de blindar o velho amigo e assessor. Assustado, sem advogado, Queiroz desapareceu. Ressurgiu meses depois escondido na cidade de Atibaia, interior de São Paulo, em uma casa disfarçada de escritório de advocacia, de propriedade de Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro.

Pomposo, falante, Wassef é o protótipo daqueles personagens que não perdem um evento oficial em Brasília. De imediato, ele se ofereceu para procurar Queiroz e cuidar de sua segurança. Wassef aproximou-se do clã durante a campanha, ganhou confiança e acesso livre ao Palácio do Planalto e ao Palácio da Alvorada, residência do Presidente.

Telefones grampeados, fotografias de arquivos e campanas de investigadores levaram a polícia e o Ministério Público até a casa de Atibaia, onde Queiroz foi preso, dormindo em um quarto em que foi instalado por Wassef. Cientificado, o advogado deu uma resposta hilária: “Não sei como o Queiroz entrou lá, não sei o que ele estava fazendo em minha casa”. Na mesma linha cômica, o Presidente da República agregou: “O Queiroz estava em Atibaia porque precisava ficar perto do hospital onde faz um tratamento pós-operatório”.

Atibaia, como deve saber Bolsonaro, fica a 90 quilômetros de São Paulo, cidade na qual o velho amigo do Capitão foi operado de um câncer no ano passado.

Com defensores tão extraordinários, Queiroz – agora preso no Rio de Janeiro – estaria cada vez mais descontrolado. Márcia Oliveira de Aguiar, sua mulher, continua foragida. A todo momento, ele pede segurança para ela e para as filhas. Teme ser assassinado na cadeia por bandidos que prendeu quando trabalhava na PM.

Frederick Wassef continua em liberdade, alternando versões sobre os fatos. Depois de afirmar que não conhecia Queiroz; que não sabia como ele estava em sua casa há um ano e meio; que o abrigara por uma “questão humanitária” e, por fim, que decidira protegê-lo para que não fosse assassinado, o advogado também desapareceu. Seu depoimento ao Ministério Público tende a ser um dos mais esclarecedores, até porque Wassef é tido em Brasília como uma pessoa “imprevisível”.

A situação provoca uma enorme tensão. Paira no ar a crescente dúvida: e se as duas bombas resolverem explodir no meio da campanha eleitoral deste ano? Queiroz pode cogitar de uma delação premiada, como sugerido por setores do Ministério Público? Há muito mistério a se desvendar sobre os acontecimentos em Brasília, em Atibaia e no Rio de Janeiro. Amigo de Bolsonaro e ex-assessor de Flávio, teria Queiroz possibilidade, por exemplo, de apontar detalhes sobre o assassinato da vereadora Mariele Franco, do qual milicianos são suspeitos.

*Ricardo Leitão é jornalista e presidente da Cepe (Companhia Editora de Pernambuco).


FECHAR