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14/05/20
Foto: Clemilson Campos/Acervo JC Imagem
Foto: Clemilson Campos/Acervo JC Imagem

A ciência em risco. Por Julio Lossio

14 / maio
Publicado por José Matheus Santos em Opinião às 13:24

Por Julio Lossio*, em artigo enviado ao blog

Até o advento da pandemia do CoronaVírus parecia até redundância defender o uso de evidências na prática médica, haja vista esse ter sido método que se consolidou como a melhor forma de atuar e oferecer o melhor aos pacientes.

Nos últimos dias, com o surgimento de uma doença nova e avassaladora que paralisou o mundo, a prática das evidências científicas estão sendo fortemente contestadas.

Avaliações observacionais de médicos tem se propagado como fogo, e algumas dessas citações são defendidas até por presidentes como Donald Trump, que governa o país que concentra os maiores centros de pesquisas científicas do mundo.

Eu me questiono:

Defender algo que “parece” funcionar, segundo a observação de um profissional completamente envolvido emocionalmente com o tratamento que prescreve a seus pacientes, seria algo a considerar em um momento de pandemia e alta taxa de mortalidade?

No caso do Covid-19, em que a taxa de letalidade gira na ordem de 5%, um determinado profissional poderia tratar seus pacientes com “suco de laranja “ e, ao final, terá observado que de cada 100 pacientes tratados, 95 ficaram bons e, com isso, poderia concluir falsamente que o tal “suco de laranja” tem uma alta taxa de cura para Covid-19.

Em momentos de pânico e quando cadáveres se acumulam, parece tentador e até humanamente explicável que soluções miraculosas sejam esperadas por profissionais que até ontem faziam das evidências científicas sua bandeira.

Por outro lado, caso toda comunidade passe aceitar essa observação como verdadeira, milhares de pacientes passarão a ser tratados com “suco de laranja“ e mais e mais casos de curas serão atribuídos ao suco milagroso.

Nesse cenário, o estímulo à descoberta de novos tratamentos cairá, afinal, para que estudar algo que já foi descoberto?

O fato é que, no final, as evidências podem chegar a duas conclusões objetivas:
A primeira, e o sonho de todos nós, é a de que o suco de laranja de fato funciona e ajudou a salvar vidas. A segunda é a de que esse suco não tem nenhuma ação efetiva no tratamento, sendo que as curas observadas fazem parte da história natural da doença. Contudo, os cinco por cento que tiveram desfecho trágico, continuarão a morrer sem nenhuma chance de tratamento eficaz, já que o “suco de laranja“ bloqueou as esperanças de novas descobertas.

Assim sendo, fica aqui uma observação de ordem estritamente pessoal:

Ao médico assistente caberá sempre a decisão de como conduzir o tratamento de seu paciente baseado em evidências, vivência pessoal e até troca de experiência com colegas. Contudo, a ciência não pode e não deve jamais fugir dos seu pilares, sob pena de deixar de ser ciência, e virar magia.

*Julio Lossio é médico e ex-prefeito de Petrolina.


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