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21/11/19
Foto: Guga Matos/Acervo JC Imagem
Foto: Guga Matos/Acervo JC Imagem

‘Precisamos falar sobre o Recife. E por que João Campos não deve ser prefeito’, diz Jayme Asfora

21 / nov
Publicado por jamildo em Opinião às 12:06

Por Jayme Asfora, em artigo especial enviado ao Blog de Jamildo

Não, eu não tenho nada contra o filho do ex-governador Eduardo Campos, preciso dizer logo de início. Muito ao contrário. Acho João um jovem promissor. Mas as duas qualidades pessoais apontadas na frase anterior podem também ser vistas como desqualificação de qualquer candidato a prefeito de uma grande e desafiante cidade como Recife. João é jovem demais e o futuro é tudo o que ele tem para nos prometer.

Passado, realizações, provas da própria capacidade são critérios fundamentais para o cargo ao qual o PSB pretende lançá-lo. E que João não tem. Apresentar alguém cuja única virtude comprovada é sua herança genética, a mim soa como um ato desesperado do Partido Socialista , que parece não ter mais nada a oferecer à nossa cidade, tão carente.

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O mês de outubro nos lembrou que falta apenas 1 ano para escolhermos o sucessor de Geraldo Julio na Prefeitura. Após dois mandatos do PSB no Recife, tenho que confessar a vocês que meu sentimento é de uma gestão mediana. Para ser honesto, fraca. É como aquele aluno que precisa que sua nota seja arredondada para não ser reprovado.

Foto: Câmara do Recife

O povo do Recife arredondou a nota de Geraldo para cima em 2016 ao lhe dar uma reeleição magra. Os números falam por si só. Enquanto o Prefeito teve 528.335 votos, seu adversário, João Paulo, junto com brancos, nulos e abstenções foi a opção de 590.910 eleitores. A população recifense passou-lhe o claro recado que estava concedendo uma nova chance, mas que esperava mais.

Geraldo se esforçou para melhorar? Não tenho dúvidas que sim. Até seus adversários reconhecem que o Prefeito é trabalhador. O problema é o que trabalho não gera resultado eficaz quando a gente não sabe o que fazer. Apesar de Geraldo ter sido apresentado ao Recife como aquele que faz, ele, de certo, só o fez, eficientemente, quando era mandado; quando era Secretário de Estado, quando tinha alguém dizendo-lhe o que fazer.

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Assumir o comando é diferente. A prova está aí. Basta olhar para o Recife. Como está o trânsito e a mobilidade (sequer temos um PLANO p tal!) em nossa cidade? Como está o cuidado com praças, calçadas, parques? Quando chove como ficam nossas ruas? Como vai a vida do nosso povo que mora na periferia? Como está o ânimo do empreendedor recifense? Como estão os serviços públicos? Que nota você daria às escolas públicas municipais e à qualidade do seu ensino? Ou será que o povo está satisfeito como o atendimento que recebe nos postos de saúde/Upinhas do Recife?

É só perguntar a qualquer usuário… O Mercado de São José e todo o seu entorno (bem como os abandonados bairros do Recife, Santo Antônio, Boa Vista) numa degradação só: estão de dar vergonha…O Recife está um caos porque a gestão é ruim. O Prefeito parece estar perdido. Corre para um lado, para no meio do caminho; corre para outro, desiste… E o IPTU só aumentando: há vários anos acima da inflação, inclusive!

Sem falar na poderosa máquina de multar do PSB, aquela que asfixia, a cada esquina – a cada parada – o, no caso, impotente cidadão do Recife. Bem como Geraldo Júlio aumentou o número de cargos comissionados e de secretarias em sua gestão. O Recife de hoje é uma cidade que não sabe onde quer chegar. Sem rumo, nem planejamento estratégico de longo prazo.

Recife, “Capital do Nordeste”, como vendida fantasiosamente em peças de auto-propaganda custeadas com gastos publicitários que, só em 2019, PASMEM!, quadruplicaram!!! Claro, pagos com, como diz Ancelmo Góis, “o meu, o seu, o nosso dinheiro”…

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A verdade é que o PSB entrou em parafuso desde a partida prematura de Eduardo. Não só em Pernambuco, como no Brasil. Eduardo era um político que emprestava sua estatura ao partido, fazendo a legenda parecer maior do que de fato era. Com sua trágica morte, o PSB encolheu a seu tamanho real. E perdeu o prumo.

Virou uma barata tonta na política nacional. E não apenas na política. Eduardo também foi um gestor que deixou marcas importantes. E o povo pernambucano demonstrou-lhe gratidão.

E esse agradecimento se expressou também na votação estonteante que seu filho João Campos teve para deputado federal em sua estreia nas urnas. Sem mostrar atributos próprios de João, lembro-me de genial peça publicitária (a principal, me parece) que mostrava literalmente a corrente sanguínea percorrendo-lhe as veias até chegar nos seus olhos – muito parecidos com os do pai. E uma locução o pronunciava, messianicamente, como “filho da esperança”.

Em última análise, dizia: vote em mim porque eu sou filho do meu pai. Infelizmente, capacidade política e de gestão não se herdam pela genética, como a cor dos olhos. Elas se formam com a vida, com a experiência. Com os sucessos e os fracassos de cada caminhada.

O filho de um bom médico não aprenderá a operar por conta dos seus cromossomos. Tão pouco o filho de um engenheiro receberá por consanguinidade a capacidade de calcular. Na lógica do PSB, João Campos deve ser prefeito pois seria uma espécie de filho do dono. Uma mensagem deveras despolitizada.

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Mas, na democracia – ainda bem – não é assim que funciona. Para se tornar o político e o gestor que foi, Eduardo precisou percorrer seu caminho. Foi Oficial de Gabinete do avô, Secretário de Estado por 3 vezes, deputado estadual, vários mandatos de federal e Ministro de Ciência e Tecnologia, antes de se sagrar Governador do Estado.

E, antes de tudo isso, em idade próxima a que seu filho terá ano que vem, na campanha de 1992, o jovem Eduardo cometeu (talvez) seu único grande erro na política. Lançou-se na aventura de ser candidato a Prefeito do Recife sem ter o que apresentar. Amargou o penúltimo lugar. A derrota, meus amigos, ensina mais que a vitória.

Que 2020 não se resuma a um debate inútil e estéril sobre herdeiros e legados. Que possamos discutir o pós-Eduardo, o pós-Geraldo, o pós-PSB… Com respeito, gratidão e reconhecimento ao que foi feito, mas, principalmente, atentos ao que precisamos fazer.

E que o PSB não cometa com o jovem João (educado, cordial, estudioso, gentil) o mesmo erro que cometeu com o jovem Eduardo. E, se cometer, que o Recife ensine ao jovem João a mesma lição que ensinou a seu pai lá atrás, em 1992.Pois estará lhe fazendo um grande bem. Só assim João poderá nos provar no futuro, após dar seus próprios passos, que herdou muito mais que a cor dos olhos.

*Jayme Asfora é procurador do Estado, ex-presidente da OAB-PE e vereador do Recife


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