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30/10/19
Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem

Engenheiro rebate artigo do deputado João Paulo sobre energia nuclear em Pernambuco

30 / out
Publicado por Blog de Jamildo em Notícias às 16:22

Por Carlos Henrique Mariz, Especialista em Planejamento Energético, energia nuclear e membro da Academia Pernambucana de Engenharia.

O Deputado João Paulo escreveu, recentemente, artigo intitulado “ Energia Atômica não é alternativa nem para o Brasil nem para Pernambuco”.

O Deputado mostrou  falta de conhecimento sobre a questão Nuclear. Talvez se tivesse comparecido a audiência pública do dia 07 de outubro passado na Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco e/ou comparecido a visita as usinas de Angra dos Reis realizada por deputados da Alepe, de 16 a 18 outubro de 2019, certamente não teria escrito esse artigo. Perdeu duas grandes oportunidades de se aprofundar sobre a questão.

Diz que a energia nuclear está sendo abandonada por vários países do mundo e desconhece o fato que existem hoje 444 usinas nucleares em operação, 54 em construção, 111 em aprovação e 330 em planejamento, conforme informação do WNA – World Nuclear Association de agosto de 2019.

Diz ser um projeto dispendioso e esquece que a vida útil de uma usina nuclear da nova geração é de 60 a 80 anos ou mais e que o alto custo da energia fóssil gerada hoje no país atinge o valor médio de 700 R$/Mwh, muitíssimo superior ao custo da nuclear que virá para substituí-las.

Fala dos acidentes nucleares de Three Mile Island ( TMI )- EUA de 28 de março de 1979, Tchernobyl na Ucrânia em 28 de abril de 1986 e o acidente de Fukushima de 11 de março de 2011 e não faz nenhuma análise dos resultados.

Pois bem o acidente de TMI, que ficava a beira de um rio,  não causou vítimas e nem contaminação radioativa no ambiente. O acidente de Tchernobyl  segundo estudo realizado pela UNSCEAR – United Nations Scentific Committee on Effects of Atomic Radiation ( 2008 ) , 22 anos após o acidente, concluiu que foram 64 óbitos confirmados e que não há evidencia de impacto na saúde pública  atribuído a exposição a radiação. Além disso um acidente com essas características não poderia acontecer aqui, pois os reatores a água pressurizada que usamos não usam grafite como moderador. O acidente de Fukushima foi causado por dois fatores: um terremoto de magnitude 9 na escala Richeter, o maior já ocorrido no Japão, seguido de um tsunami de grandes proporções que vitimou aproximadamente 20.000 pessoas por afogamento e pelo desabamento de construções. No entanto, relatório da UNSCEAR de 2013 concluiu que não houve mortes causadas pelo acidente nuclear e que os impactos sanitários da radiação foram bastante limitados. 

João Paulo (Foto: Paulo Veras/JC)

Quando se compara esses números com a quantidade de horas de usinas nucleares operando desde os anos 50 a 24 horas por dia, encontra-se um número muito pequeno de óbitos por TWh produzido. Quando comparado com outras alternativas de produção de eletricidade a nuclear é, de longe a que tem o menor índice de óbitos por TWh. Estudo apresentado na revista FORBES de junho de 2012 apresenta estes resultados: a produção de energia elétrica com base nuclear é a mais segura entre todas.

Quando o Deputado fala da Alemanha se esquece de mencionar o seu  desastroso programa energético, Energiewende, que com investimentos chegando  a 580 bilhões de dólares em energia intermitente, continua como um dos países mais poluidores da Europa, com mais de 40% de produção de eletricidade com base em carvão e com a maior tarifa residencial européia. Ao mencionar a França se esquece que é exatamente o contrário. Em 2015 a França alcançou os objetivos climáticos do acordo de Paris, menos de 50g de C02 por kwh. Enquanto isso muitos outros países membros do OCDE, a emissão de CO2 permanece mais de 10 vezes maior do que na França, onde a energia nuclear fornece quase três quartos da geração de eletricidade. Não é à toa que o governo francês decidiu, recentemente, expandir seu programa nuclear a partir da tecnologia EPR, cujo protótipo está em fase de conclusão na cidade Flammanville. O EPR é um reator de 1700 MW fruto de uma combinação melhorada do reator francês N4 e do Konvoi Alemão. Ambos  são os modelos mais modernos de reatores a agua pressurizada ( PWR ) desenvolvidos pelos dois países.

O Parlamentar menciona riscos ambientais de um lado pelo aquecimento da água de resfriamento e por outro do desmatamento da mata ciliar. Como ele faltou a audiência do dia 07 de outubro, não teve a oportunidade de escutar que na Central Nuclear de   Itacuruba serão usados torres de refrigeração e que como consequência a agua quente não retornará ao rio, portanto não haverá aumento de temperatura. Bem como que central com seis unidades de 1200 MW cada, ocupará uma área de aproximadamente 500 ha, e apesar de gerar tanta energia quanto uma CHESF inteira nos seus bons tempos, mesmo assim não terá um grande volume de desmatamento, sobretudo se comparado com as áreas dos reservatórios de Itaparica e Sobradinho.

Por não ter visitado as Usinas de Angra o Deputado não sabe do tratamento que é dado, sob total segurança, aos rejeitos radioativos. Na visita foi mostrado, em detalhes, todas as etapas e formas da questão, ficando muito claro a boa e completa proteção adotada com a visita aos depósitos de rejeitos.

Quanto ao desmonte das usinas nucleares a WNA – World Nuclear Association  afirma que o custo de desmontagem de uma usina nuclear incluindo o custo de guarda dos  rejeitos , contribui com apenas uma pequena fração do custo total da geração de eletricidade. Na verdade um fundo é criado desde o inicio de operação da usina, com um valor muito pequeno retirado do faturamento e que após a vida útil será mais que suficiente para a realização das obras.

Só nos Estados Unidos já foram descomissionados nove usinas nucleares e estão em fase de descomissionamento mais dezessete usinas nucleares. O que contradiz a afirmativa do Parlamentar de que as centrais desativadas nunca foram desmontadas.

Não tem sentido as afirmativas sobre ”eventuais alterações do clima que causariam impactos sobre espécies locais , afetando a vida dos pescadores da região e dos consumidores “. Com a torre de refrigeração, como já citado aqui, não haverá nenhuma alteração de temperatura da agua do rio nem no seu curso normal portanto a  pesca e a agricultura de sobrevivência em nada seriam alteradas.

O acidente do Césio 137 nada tem a ver com usinas nucleares. Este acidente foi decorrente das atividades de área de saúde.

O Deputado João Paulo se posicionou contra a construção de uma Usina Nuclear em Pernambuco com argumentos que foram, aqui, devidamente rebatidos e esclarecidos..  Rever sua posição seria uma atitude esperada. Mostraria a seriedade com que trata a matéria. O parlamentar é relator da PEC de número 09/2019 que retira as restrições para a construção de Usinas Nucleares no Estado de Pernambuco, de autoria do Deputado Alberto Feitosa, e que tramita na Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco.


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