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28/10/18
Foto: Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados
Foto: Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados

Do baixo clero para o Planalto: Bolsonaro é eleito presidente

28 / out
Publicado por Amanda Miranda em Eleições 2018 às 19:23

Com dois anos de pré-campanha que resultou em uma forte presença nas redes sociais e a adoção de um discurso liberal através do “posto Ipiranga” Paulo Guedes, o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSL), antes considerado do “baixo clero”, conseguiu ser o mais votado neste domingo (28), com 55,13% dos votos válidos, e foi eleito presidente da República. O capitão da reserva do Exército é o sexto eleito para o cargo desde a redemocratização, após a ditadura militar, regime que nega ter existido no País. Candidato pelo PSL, venceu no segundo turno o petista Fernando Haddad (PT), que obteve 44,87%.

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Antes tido como “personagem folclórico” dentro do Congresso Nacional, nos últimos anos Bolsonaro passou a ser visto pelos seus seguidores como “salvador da pátria” e “mito”. Apesar de ser deputado federal desde 1991, foi apontado como novidade. Construiu o discurso em cima desses títulos e aproveitou a onda de decepção com o PT e o PSDB, que polarizaram as últimas cinco eleições gerais. Já declarou voto em Ciro Gomes (PDT) e em Lula (PT) em 2002, mas, neste pleito, se colocou como contrário ao sistema. Assim, saiu do primeiro turno como favorito, com 46,03%, o equivalente a 49.277.010 votos. Haddad recebeu 29,28%, ou seja, foi a escolha de 31.342.051 eleitores.

O nome do ex-prefeito de São Paulo não era hegemônico nem dentro do PT. Na capital paulista, em 2016, foi o primeiro a não conseguir ser reeleito, perdendo para João Doria (PSDB). Foi uma derrota acachapante: enquanto o tucano, hoje aliado de Bolsonaro, teve na época 53,29% dos votos válidos (3.085.187), o petista recebeu 16,70% (967.190).

Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem

Coordenador do plano de governo de Lula – que se manteve candidato, mesmo preso -, Haddad ficou inicialmente com a vice e só assumiu a cabeça de chapa no último dia permitido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para isso, 11 de setembro, a menos de um mês do primeiro turno. O anúncio foi em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR) – para onde voltou um dia após ser confirmada a sua ida para o segundo turno, despertando críticas. Haddad herdaria votos de Lula, mas ficava a pergunta: será que haveria tempo? Não houve.

PT x Ciro

Em uma cartada para minar o crescimento de Ciro Gomes (PDT), o PT fechou alianças com o PSB nos Estados e retirou candidaturas inclusive em Pernambuco, onde a vereadora Marília Arraes, eleita deputada federal, foi rifada para o Palácio do Campo das Princesas. Assim, conseguiu atrair o PCdoB para a vice, com Manuela D’Ávila, e um apoio, ainda que informal dos socialistas. Eles ao menos não iriam para o grupo do pedetista. A movimentação veio meses após integrantes do partido de Ciro tentarem articular uma chapa liderada por ele e com Haddad na vice, formando um dream team, o que é admitido publicamente por integrantes das duas siglas. Lula, porém, não aceitaria perder a hegemonia do PT. Dessa forma, Haddad não conseguiu o tão esperando aliança com Ciro no segundo turno; o máximo foi um “apoio crítico”.

O PT foi derrotado nas urnas pela primeira vez desde que Lula foi eleito, em 2002.

Além dos problemas já enfrentados pela campanha de Haddad, como o antipetismo, a cúpula do próprio partido entrou em rota de colisão no segundo turno. Cada um defendia uma estratégia: ficar em São Paulo ou viajar o País? Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o irmão de Ciro, o senador eleito pelo PDT do Ceará, Cid Gomes, disse que parte do PT já havia dado como perdido o 2º turno e estaria se ‘lixando’ para Haddad.

Fotos: Ricardo Stuckert/Divulgação

Já nos primeiros dias, o candidato petista parou de visitar Lula na prisão, reduziu a participação do ex-presidente no guia eleitoral, adotou as cores da bandeira na marca, buscou aproximação com as igrejas. Terminou a campanha em tour pelo Nordeste, região onde venceu no primeiro turno e, no último dia, na periferia da cidade de São Paulo. Dias antes, o rapper Mano Brown, seu eleitor, havia feito um discurso crítico em ato pró-Haddad apontando que o PT precisava se reconectar com as bases e a periferia. O candidato concordou.

WhatsApp

O PT também demorou a entrar no principal espaço do adversário. E não conseguiu chegar lá com a mesma amplitude dele. Bolsonaro já dominava o WhatsApp. O resultado deste domingo (28) foi construído pelo menos ao longo dos últimos dois anos.

Eleitores de Bolsonaro se aglomeram em grupos na rede social. O ambiente também é um campo de desinformação. É o caso do chamado “kit gay”, polêmica que contribuiu para que Bolsonaro ganhasse visibilidade entre conservadores. Tratava-se do projeto Escola sem Homofobia, do governo federal em 2004. Haddad assumiu o Ministério da Educação em 2005. O programa tinha como objetivo a formação de professores, mas não chegou a ser colocado em prática. No último dia 16, ministro Carlos Horbach, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que materiais de Bolsonaro criticando a distribuição do livro “Aparelho Sexual e Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas”, que, segundo o adversário do petista, fazia parte do kit, fossem retirados do ar. O livro não fez parte do projeto, que era composto de caderno, boletins, cartaz, cartas de apresentação para os gestores e educadores e vídeos. Nos últimos dias, o candidato do PSL voltou a levar para o guia o “kit gay”.

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

A campanha de desinformação também atingiu a vice na chapa de Haddad. O projeto Comprova, do qual o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação faz parte, publicou, por exemplo, que não era verdade que Manuela D´Ávila utilizou uma camisa com a frase “Jesus é Travesti” e com um ícone de arco-íris, como sugeria uma imagem compartilhada nas redes sociais. Porém, do outro lado também houve informações falsas sendo espalhadas, como quando foi divulgado que Bolsonaro, se eleito, trocaria a padroeira do País. Muitas vezes, em um Estado laico, se apelou para a religião.

Além de tentar atrair o voto conservador, Bolsonaro questionou as urnas eletrônicas diversas vezes. Nos grupos, se espalharam supostas fraudes, que não foram comprovadas. “Prezados, em caso de problemas com a urna filmem, de preferência gravem lives e falem o estado, zona e seção onde está ocorrendo o problema”, afirmava o filho dele Eduardo Bolsonaro, reeleito deputado federal (PSL-SP), no Twitter, no dia 7 de outubro – além dele, os irmãos Flávio, eleito senador pelo PSL do Rio de Janeiro, e Carlos, vereador no Rio, também entraram para a política nos anos 2000 e endossam os discursos do pai. Filmar e fotografar a urna é proibido pela legislação eleitoral.

Foto: Reprodução Facebook

O uso das redes sociais, apesar de não ser de hoje, se aprofundou na campanha de Bolsonaro depois do dia 6 de setembro, quando ele foi vítima de uma facada que o retirou da campanha de rua. O parlamentar estava em um ato em Juiz de Fora, em Minas Gerais, nos braços de apoiadores, quando se tornou alvo. Fez cirurgias e hoje usa uma bolsa de colostomia. Desde então, vem usando o Facebook, onde tem 7.986.602 seguidores, para falar com público.

Sem debates

Em meio à troca de acusações entre os candidatos e até à Justiça Eleitoral, foi uma campanha pouco propositiva. Também não houve debates no segundo turno. Apesar de ter sido liberado pelos médicos, Bolsonaro preferiu não ir aos programas. Os aliados alegaram que era uma questão de estratégia.

Da mesma forma que foi o que o levou a cair nas graças dos mais conservadores, o discurso extremista do candidato é capaz de afastar eleitores, por mais que tenha sido amenizado com a proximidade do período eleitoral. Bolsonaro defende a “família” – englobando no termo usado por ele apenas as formações heterossexuais. Fala em valores cristãos e usou “Deus” no slogan.

Além disso, diz combater a criminalidade e a corrupção, embora as ideias de mudar o Código Penal e revogar o Estatuto do Desarmamento sejam questionadas por especialistas da área. Foi criticado também por dizer, por exemplo, que gays não são “normais” e por declarações como: “eu não posso obrigá-lo a empregar 15 mulheres. A mulher luta muito por direitos iguais, legal, tudo bem. Mas eu tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas. Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? ‘Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade…’ Bonito pra c…, pra c…! Quem que vai pagar a conta? O empregador. No final, ele abate no INSS, mas quebrou o ritmo de trabalho. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano”.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Bolsonaro é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) também por uma dessas declarações: o dia em que, na tribuna da Câmara dos Deputados, afirmou que não estupraria a colega Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merecia”. Foi apresentada também uma denúncia à Corte, que não foi aceita, porque ele afirmou que tinha ido a um quilombo e que o “afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”. “Não fazem nada, eu acho que nem pra procriador servem mais”, disse ainda.

Bolsonaro ainda admite não entender de economia, deixando o assunto para o homem que chamou de “posto Ipiranga”, o economista Paulo Guedes. Foi assim que o parlamentar que votou contra o Plano Real, a quebra do monopólio das telecomunicações e do petróleo se transformou em um liberal. Hoje, tem como plano de governo a privatização das estatais brasileiras.

Divergentes

A pauta é contrária à do PT. Enquanto Paulo Guedes apoia o teto de gastos aprovado no governo Michel Temer (MDB), o Partido dos Trabalhadores faz oposição. Haddad é professor da Universidade de São Paulo (USP); formado em direito, tem mestrado em economia e doutorado em filosofia. Bolsonaro se formou em educação física no Exército.

O PT vem em trajetória de queda nos últimos anos, movimento que se acentuou com o impeachment de Dilma Rousseff e com a prisão de Lula. Muitos apontam ausência de renovação no partido.

Foto: Lula Marques/Agência PT

Enquanto isso, Bolsonaro crescia e buscava um partido para disputar a presidência da República. Em novembro de 2016, já pré-candidato, visitou o Recife e admitiu que queria deixar o PSC para entrar num partido maior, que possibilitasse melhores condições para a campanha. “Noivou” – para usar um termo adotado por ele – com o PEN, que mudou de nome para Patriota para recebê-lo. O acordo não se consolidou porque o partido não entregou o controle em todos os estados ao grupo do parlamentar. Bolsonaro, então, casou com o PSL, então presidido pelo pernambucano Luciano Bivar. Provocou um racha e uma debandada do partido, feita pelo movimento Livres, que não aceitou o discurso mais “extremo” daquele que seria o candidato.

Com os votos puxados pelo presidenciável, o partido cresceu de um deputado federal eleito em 2010 e 2014 para 52. Será a segunda maior bancada, atrás apenas do PT, que elegeu 56, embora tenha diminuído em relação a 2014, quando foram 69.

Foto: Diego Nigro/JC Imagem

O PSL é o sétimo partido de Bolsonaro, que antes já esteve no PDC, no PPR, no PTB, no PFL, no PSC e no PP, legenda em que ficou a maior parte do tempo: entre idas e vindas, foram 18 anos. Apesar das críticas do parlamentar aos investigados na Operação Lava Jato, a sigla foi uma das que foram apontadas pelo Ministério Público Federal (MPF) como “organização criminosa” após as investigações. Deixou o PP alegando que, nele, não conseguiria “realizar seus sonhos políticos”.

O próprio Bolsonaro nunca foi investigado por corrupção. Questionam-se, porém, condutas como o fato de ter recebido auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio em Brasília. Alegou que não era ilegal. Em entrevista à Folha de S. Paulo, disse: “como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava pra comer gente”.

Bolsonaro nasceu em Campinas, em São Paulo, mas entrou na política no Rio de Janeiro, em 1989, quando entrou para a reserva do Exército como capitão. Apareceu pela primeira vez no noticiário dois anos antes, acusado de elaborar um plano para explodir bombas em quartéis protestando por baixos salários, acusação da qual foi inocentado pelo Superior Tribunal Militar (STM). Primeiro, foi vereador. Em 1991, entrou na Câmara e não mais saiu.

Foto: Marcelo Camargo/ABr

A atuação parlamentar de Bolsonaro, no entanto, é considerada pífia. Em quase 28 anos, foram aprovados dois projetos de lei de sua autoria: um, de 1996, prorrogando os benefícios fiscais outorgados ao setor de informática e automação, e o outro de 2016, autorizando o uso da fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna. A passagem pela Casa foi mais marcada pelos episódios polêmicos, como no dia 17 de abril de 2016, quando homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador, durante a sessão que autorizou a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, presa política e torturada na ditadura militar.

Bolsonaro não reconhece que houve um regime autoritário e afirma, endossando falas de militares, por exemplo, que o jornalista Vladimir Herzog se suicidou, enquanto em 2012 o registro de óbito dele foi modificado, incluindo que a “morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (Doi-Codi)”. Além disso, tem no gabinete fotos emolduradas de Humberto Castello Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo, presidentes do regime militar.


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