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06/09/18
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Laurentino Gomes critica jogo de ‘empurra-empurra’ sobre Museu Nacional

06 / set
Publicado por Douglas Fernandes em Notícias às 11:15

Da Editoria do Cultura do Jornal do Commercio

Em entrevista ao programa Passando a Limpo, na Super Manhã da Rádio Jornal, o escritor e jornalista paranaense Laurentino Gomes, autor de best-sellers históricos, como 1808, 1822 e 1889, fez comentários sobre o contexto que culminou no incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Eu não diria que aquele museu fosse especialmente amado, ela era pouco visitado, poucas pessoas conheciam. Ele estava mal cuidado, estive lá várias vezes, impressionado com a situação do local”, afirmou Gomes.

Para o escritor, a comoção nacional está mais relacionada ao próprio Brasil do que ao museu, já que ele faz parte de uma sequência de más notícias. Ele ainda afirma que a população não conhece a história do País e não valoriza os locais relacionados a ela. “A comoção tem mais a ver com o que gostaríamos de que o Museu (Nacional) tivesse sido do que ele realmente é. Ali tem um pedaço da identidade brasileira que ficou exposta, uma espécie de sonho, uma projeção do que o Brasil poderia ter sido e não foi”, explica.

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Entretanto, ele atribui boa parte da culpa do descaso ao modelo de gestão dos museus. “Visitar museu no Brasil é uma experiência desagradável, o acervo é mal-organizado e mal-identificado e você é mal-recebido. Não é que o brasileiro não gosta de museu, o brasileiro não tem museu adequado que convide a população a visitá-lo. Lá fora, os museus estão nos principais roteiros turísticos, eles vão ao Louvre, ao Museu de Nova York”, afirma.

Dentro desse contexto, muito dessa não proximidade da população apontado por Laurentino vem da falta de interesse por parte de quem cuida, transformando os espaços em apenas “depósitos de coisas antigas”, sem caráter didático e educacional. “São cabides de empregos mal-remunerados e mal-reconhecidos. Eles têm uma burocracia em que ficam contando tempo que falta para aposentadoria e não têm menor interesse em acolher visitantes”, salienta.

O modelo de gestão do Museu Nacional é colocado em uma comparação com o realizado em lugares como Portugal, em que se há parcerias público-privadas ou gestões privadas, as instituições fazem dinheiro e se tornam financeiramente autônomas, se afastando da visão estadista e burocrática que acredita haver no Brasil. Gomes reitera que o Museu Nacional era parte de um loteamentos de partidos políticos, considerados da base do governo e que, mesmo com o orçamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro, responsável pelo local, aumentando, o dinheiro destinado ao museu diminuía.

“Fica um jogo de empurra-empurra, a esquerda dizendo que é culpa da direita, a direita da esquerda, os funcionários se comportando como se fossem vítima da situação, os pesquisadores também e os pesquisadores também. O Museu Nacional pegou fogo por falta de pai e mãe, era um museu órfão, órfão de visitantes, de gestores, de políticas públicas. É um coitado que morreu por ser mal-amado, abandonado e entregue a sua própria sorte”, concluiu.

Acervo que restou é valioso

Enquanto políticos brasileiros e autoridades da França, EUA e Argentina falam em investimentos para reconstruir o Museu Nacional, pesquisadores lembram que a parcela do acervo preservada seria suficiente para manter a instituição entre as mais importantes do País – embora não seja possível substituir a riqueza do que foi destruído.

“É preciso ter em mente que as coleções que estavam fora do prédio principal poderiam compor um grande museu”, diz José Perez Pombal Junior, curador das coleções de anfíbios da instituição e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Grande parte valiosa do acervo – coleções de vertebrados, de insetos dípteros (moscas e pernilongos) e de botânica, além da biblioteca principal – havia sido transferida para um anexo. “A gente não vai sair do zero”, diz Pombal Jr.

Os números são respeitáveis. Sobraram 100 mil espécies de mamíferos e 110 mil de anfíbios. O herbário é o primeiro ou o segundo do País. E as obras raras da biblioteca, algumas trazidas pela família real portuguesa em 1808, foram salvas.

A direção do museu estima que o prédio anexo tenha 460 mil exemplares de vertebrados, além de 550 mil no herbário. Restaram ainda 180 mil invertebrados em anexo subterrâneo.

Empresários e pesquisadores se mobilizam para recriar digitalmente o acervo destruído. Enquanto o Museu Nacional queimava, um grupo se perguntava como reagir. Lindália Junqueira, do movimento Juntospelo.Rio, propôs reconstruir o palácio e seu acervo digitalmente. Projeto será apresentado ao ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão. “Não queremos dinheiro, mas que nos deixem fazer”, diz Lindália.

A ajuda vem de várias partes. O diretor-executivo da National Geographic Society (NatGeo), Gary Knel, prometeu ajudar com parte de seu acervo e apoio financeiro. João de Orleans e Bragança, da antiga família imperial brasileira, comprometeu-se a emprestar parte de seu acervo pessoal.

Perto dali, a pouco menos de cinco km, o Arquivo Nacional, mantém hidrantes desativados e não dispõe de alarme de incêndio. Verba de R$ 4 milhões foi liberada em agosto pelo Ministério da Justiça para a adequação do prédio.


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