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07/03/18
Danielle Portela | Foto: Divulgação
Danielle Portela | Foto: Divulgação

8 de março: um dia de memória e luta. Por Dani Portela

07 / mar
Publicado por Artigo em Opinião às 14:58

Por Dani Portela, historiadora e advogada, dirigente do PSOL de Pernambuco e pré-candidata a governadora

Em março de 1911, mais uma fábrica encerrava seu expediente na cidade de Nova York, quando se ouviu um forte estampido e a fumaça se espalhou no ambiente. A fábrica estava repleta de pessoas, meninas se jogavam pela janela para escaparem das chamas. Fogo, gritos e fumaça.

Tudo começou com uma fábrica incendiada, onde morreram 129 mulheres, a maioria bem jovem, com idade entre 16 e 24 anos. Posteriormente, as mulheres protagonizam a deflagração da greve das tecelãs, um dos motores para a chamada Revolução Russa de 1917. Desde então o dia 8 de março passa a ser considerado o Dia Internacional da Mulher.

Cumpre lembrar que em “Memória, História e Esquecimento”, Paul Ricouer, fala que nossas escolhas determinam o que devemos lembrar e o que desejamos esquecer. Assim, a história das mulheres está ligada diretamente à história do esquecimento, da invisibilização e do silenciamento, que se apresentam com uma ampla tessitura, composta de inúmeros fragmentos de espaços, temporalidades e discursos, que abriga em seu âmago discussões sobre gênero, violência e poder.

Na escavação destes estratos, vemos várias camadas, pois não é impossível se debruçar sobre o tema sem percebê-lo à luz do binômio desobediência e resistência. A luta das mulheres é um importante viés na busca de reconstrução do nosso passado a partir de pessoas comuns. Não nos interessa a saga das mártires e heroínas apenas, mas também a vidas das mulheres anônimas e comuns, suas tensões e as contradições que foram estabelecidas entre elas e seu tempo em ambientes misóginos, marcados por fortes traços patriarcais.

Inserimos nossa reflexão numa breve concepção histórica do papel das mulheres na sociedade e nas múltiplas formas de resistência por elas desenvolvidas para combater a “dominação sexista” a qual estavam submetidas. Observamos o problema de gênero a partir da noção do modelo da mulher ideal criado numa sociedade androcêntrica que define quais os comportamentos adequados, tal modelo nos influencia ainda na atualidade.

(Re)lembrar os caminhos traçados por nós para chegarmos até aqui é um modo de resistir. A lembrança e o não esquecimento são imprescindíveis para que o conteúdo emancipatório e o simbolismo do dia 8 de março, não sejam reduzidos a uma data conveniente ao sistema capitalista, que tenta transformar a nossa luta em produto de consumo.

Por esta razão que sempre lembramos que no dia 8 de março “não queremos flores, dia de beleza ou batons, queremos respeito”, pois a captura mercantil tenta retirar o real significado e simbolismo da data. É dia de luta, paralisação e resistência contra toda forma de violência e opressão que estamos submetidas cotidianamente.

Nas supostas rosas que “ganhamos” há muitos espinhos a serem retirados: mercantilização do corpo, violência doméstica, violência obstétrica, sub representatividade em cargos públicos, direito ao próprio corpo negado, feminicídio, discriminação de gênero, racismo, culpabilização da vítima, objetificação, salários desiguais, assédio e violência sexual, dentre tantos outros!

Precisamos lembrar das mulheres incendiadas na fábrica, das tantas queimadas como bruxas no período inquisitório e das muitas que continuam sendo queimadas nas fogueiras simbólicas da contemporaneidade. A luta das mulheres é a nossa luta!


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