publicidade
16/02/18
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

A convergência dos opostos

16 / fev
Publicado por Amanda Miranda em Opinião às 20:31

Por Ayrton Maciel, jornalista

A atividade política tem, como qualquer exercício humano, virtudes e imperfeições. Na política, com maior consequência – porque atinge a muitos – uma vil perversão é um dos gestos mais dolorosos de políticos: premiar a ingratidão. Tanto quanto a própria ingratidão.

Na primeira semana legislativa de 2018, antes do Carnaval, a articulação sobre a rejeitada reforma da Previdência de Michel Temer foi o foco da mídia. Nos bastidores do Congresso, porém, negociações e conversas locais visando as eleições de outubro ocorreram em paralelo sem despertar maior curiosidade.

Em meio às conversas de gabinetes e restaurantes, num afunilamento de cenários eleitorais, Pernambuco esteve no palco das alianças desenhadas, algumas parecendo esdrúxulas e outras surreais de tão incompreensíveis. Mas, possíveis. É a política.

Uma delas – tendência da cúpula forte – é para onde parece marchar o PT: os braços do PSB, o detrator infiel. O encontro do governador Paulo Câmara e comitiva com o ex-presidente Lula, em São Paulo, nesta quinta-feira (15), praticamente afiança e consolida a aliança que parecia impensável após o impeachment de Dilma. Afinal, é juntar golpeado e golpeador ou “ex-governo fracassado” e “golpista”, conforme se tratavam.

Vem-nos, então, a imagem da ingratidão política. Disse o francês Alexandre Dumas: “Há favores tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão”.

Entre 2015 e 2016, a esquerda – encabeçada pelo PT – enfrentou uma luta desigual contra uma maioria artificial – da qual fez parte o PSB – formada para derrubar a presidente Dilma, eleita por 54 milhões de brasileiros. Uma luta sem sucesso: Dilma caiu.

E para a queda de Dilma foram vitais os votos do PSB, que tinha 31 deputados. Se 25 tivessem votado “não”, o impeachment teria sido derrotado. O governador Paulo Câmara chegou a liberar seus secretários – licenciados da Câmara Federal – para votar a favor da queda de Dilma. Uma simples e aritmética conclusão: o PSB foi golpista.

Entretanto, a política – como exercício humano – é ingrata. O que se tem, agora, como muito provável, é a ida do PT para a aba de Paulo Câmara. Posição que, aparentemente, vai de encontro à vontade da maioria da militância do PT. E posição que contraria a oportunidade de renovação.

Neste perplexo cenário político, vítima e autor se recompõem. Traído e traidor se perdoam. É como o PT desculpando-se: “perdoa-me por me traíres”. E o PSB respondendo: “esquece. Não foi por mal. Foi só uma oportunidade”.

Afinal, quem é mais ingrato: o PSB que chancelou a queda de Dilma ou o PT que esquece a rasteira, distancia-se de aliados, veta alternativa própria e, como traído arrependido, volta à casa abandonada? Resposta: ambos não prezam fidelidade. É política, “cara”!

É uma questão de sobrevivência política. Para o PT e o PSB. Sem ironias: a política é pragmática. Não deve ser condenada por isso, mas fica ruim quando não respeita regras (não escritas) de convivência. O mínimo de lealdade, o mínimo de afinidade, fidelidade e solidariedade, acordos e diálogo com os militantes.

O esquecimento é a alma da ingratidão. Quem lutou, lutou; quem gritou, gritou. Agora, a vez é do silêncio, irmão da cumplicidade.

Não se desconhece a necessidade de alianças e as influências das circunstâncias nacionais e locais. Mas, em tese, pelo que se conhece da militância petista, depender de quem lhe foi algoz parece ser um perdão às avessas. No caso específico de descartar uma candidatura própria, em Pernambuco, é como abrir mão de tentar ser protagonista para ser coadjuvante. É a má política? Resposta: é a política como ela é.


FECHAR