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20/10/16
Defesa de Lula tentou, sem sucesso, anular a validade das gravações (Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)
Defesa de Lula tentou, sem sucesso, anular a validade das gravações (Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

Uma sentença à espera de um réu

20 / out
Publicado por jamildo em Notícias às 12:53

Por Roberto Numeriano, em artigo enviado ao blog

Nos idos de março, exatamente no dia 21, este blog publicou o artigo “A era do terror (um golpe a galope)”, no qual analisávamos que a condução coercitiva do ex-presidente Lula era o ato primeiro de um golpe de Estado parlamentar que veio a ocorrer com a participação de quadrilhas de corruptos no Congresso Nacional, omissão e/ou participação direta de autoridades do Judiciário, mídia reacionária (Rede Globo como protagonista) e corporações empresariais com DNA da Casa-Grande.

Lula, o negro fujão da senzala ancestral, continua solto e desafiando os “capitães do mato” da Polícia Federal, uma entidade hoje dominada por uma maioria que a transformou em uma espécie de polícia política da República Corporativa Judiciária do Brasil.

O ex-presidente é o alvo principal do que resta da Lava Jato e demais órgãos ideologizados por imberbes fascistinhas sem controle (procuradores e promotores inchados de vaidosa sanha persecutória), cuja função essencial sempre foi criar uma sentença para enquadrar um réu existente a priori.

A Lava Jato está condenada a condenar Lula.

E esta é a sua desgraça e a sua glória.

Para condenar esse aquilombado brasileiro será preciso achar um crime, mas um crime real para convencer a tantos paneleiros de varandas gourmet, estranhamente em silêncio depois da derrubada golpista da presidente Dilma e instalação de uma ilegítima junta de ocupação do Poder Executivo, muitos dos quais envolvidos em graves casos de corrupção.

O crime real é necessário, mas nem por isso será obrigatório Lula tê-lo cometido concretamente (basta a tíbia “convicção” de quem acusa).

Esta é a kafkiana desgraça e glória da justiça da Casa-Grande.

A sentença já existe: Lula, desde que se aboletou num pau-de-arara e saiu de Pernambuco, é réu culpado.

À antiga sentença condenatória contra os clássicos três “pês” (preto, pobre e prostituta), agregou-se um novo, o de petista.

As mazelas da Casa-Grande forjaram um país dividido desde sempre, mas nunca ousaram apontar quem era a causa de tudo. Encontraram. Só podia ser um antigo assenzalado, é claro.

Está na hora, pois, de prender o Lula de uma vez por todas, condená-lo e torná-lo inelegível para a disputa de 2018. O pelourinho da República de Curitiba já está azeitado e os chicotes da coerção já estão no ar.

Daí não ter causado surpresa a mim a prisão, somente agora, do ex-deputado Eduardo Cunha, facínora político cuja omissão do STF propiciou a liberdade de conspirar e liderar a derrubada de um governo legítimo por motivos ilegais e ilegítimos.

O ato judicial do morolismo é claramente diversionista: Cunha, já cassado e abandonado depois de feito o serviço sujo, era afrontoso em sua liberdade de ir e vir.

Notório corrupto com sobejas provas materiais (para além das “convicções” ideológicas travestidas em legais), sua desfaçatez ficou intragável até para os extensos padrões imorais da Casa-Grande. Era o bandido sobre o qual a justiça da Casa-Grande não queria apontar culpa.

A prisão tardia de Cunha é diversionista porque compõe um cálculo político claro dos membros da República Corporativa Judiciária do Brasil: trata-se de um argumento prévio de neutralidade e imparcialidade das operações da Lava Jato.

O morolismo (depois de muitos atos arbitrários e persecutórios) pretende justificar a iminente prisão do Lula, sem prova cabal de culpa, a partir da prisão de um operador do crime que há décadas trafegava incólume entre os poderes republicanos.

A cortina de fumaça já ganhou os céus.

Resta saber se Lula terá o tratamento VIP de Cunha, que mais parecia uma autoridade de Estado prestes a embarcar num jatinho, quando de sua prisão e viagem para Curitiba.

Meus botões me dizem que não.

E não será surpresa se a TV Globo for avisada e o porta-voz do golpe, Bonner, transmitir tudo ao vivo, desde o hangar da Polícia Federal, com direito a imagens das algemas no negro fujão.

Roberto Numeriano apresenta-se como jornalista, professor e pós-doutor em Ciência Política, autor de O que é Golpe de Estado (em co-autoria com Mário Ferreira) e O que é Guerra, ambos pela Editora Brasiliense.


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