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30/07/06

O cordel no século XXI / Maria Alice Amorim

30 / jul
Publicado por jamildo em Colunistas às 9:30

Por Maria Alice Amorim
Jornalista e pesquisadora



Embora se tenha anunciado tantas vezes o fim da literatura de cordel, sobretudo com o vertiginoso avanço tecnológico dos meios de comunicação de massa, a realidade é que o folheto se mantém vigoroso neste in?cio de século XXI. Uma prova de tal vigor são os t?tulos surgidos, em todo o pa?s, a partir dos fatos e desdobramentos do trágico 11 de setembro, e a conseqüente aceitação do público, apesar de a m?dia ter explorado o assunto à exaustão. Longe de serem método ineficaz de comunicação ou desprovidos de valor literário, os folhetos sobre os atentados atra?ram a atenção de leitores e ouvintes, da m?dia impressa e eletrônica, levando, inclusive, à produção de matérias, artigos e reportagens. No folheto de circunstância, o fato jornal?stico ganha contornos próprios com a versificação e o charme da linguagem poética: em sintonia com as demandas contemporâneas, recheado de humor e ironia, mistura-se tradição, modernidade e os prazeres da arte.


Ao longo dos últimos 50 anos, numa declarada estratégia de sobrevivência, os custos tipográficos fizeram surgir folhetos datilografados, mimeografados, fotocopiados. Há cerca de 15 anos, são digitados e impressos em computador e impressora domésticos, e divulgados via Internet. Pipocam na rede das redes folhetos, pelejas virtuais, sites dedicados aos versos de cordel. Quanto à produção gráfica industrial, editores e autores independentes fazem imprimir e circular uma cota de publicação anual de centenas de t?tulos, dentre os quais novas histórias e reedição de clássicos.


Em decorrência do caráter oral da poesia popular, os recitais, festivais e congressos enfeitiçam as platéias pelo jogo de sedução da palavra rimada e metrificada. A gravação de CDs e DVDs também permite a conquista e fixação de novos públicos, fascinados por esta poética que se caracteriza pelas imagens constru?das sobre formas fixas e antigos temas da oralidade. Vertente da mesma poesia secular dos cordelistas, o improviso dos
violeiros dialoga com o slam e o rap. Prova de que os poetas populares, longe de estarem confinados numa redoma, existem justamente porque souberam firmar um pacto entre tradição e contemporaneidade.


O cordel



Resultante da persistência pela oralidade e da convergência de motivos literários de séculos passados, o folheto popular, ou a literatura de cordel, é uma junção de tradição literária herdada da Pen?nsula Ibérica associada a invenção/reinvenção de temas e aglutinação de formas fixas chegadas com o romanceiro português e outras manifestações de poesia. Se em Portugal já existia, no século 16, uma literatura que, a partir do século 18, passou a ser chamada de cordel porque era vendida escanchada em barbante pelos cegos de Lisboa, esta literatura, que podia ser texto teatral, ficção narrativa ou texto em verso, tomou feição própria ao se fixar no Nordeste brasileiro.


Entre nós, cordel significa poesia, com rima e métrica, impressa em folhetos de tamanho em torno de 11 x 16 cent?metros, e que trata, sobretudo, de temas regionais, como o do cangaço, padre C?cero, frei Damião, violeiros, valentia de vaqueiros, coisas do sertão, not?cias de jornal, o sofrimento e a luta dos nordestinos, sem deixar de ressaltar que há temáticas relacionadas a histórias tradicionais seculares transmitidas entre gerações.


Em Pernambuco, especificamente no Recife, uma parte da história do cordel foi constru?da, com a atuação decisiva de poetas, editores, vendedores de folhetos. A praça do mercado de São José, na primeira metade do século 20, foi testemunha da movimentação que existia nela, e arredores, em torno de poetas e editores, como Leandro Gomes de Barros (1865-1918), João Martins de Athayde (1880-1959), Delarme Monteiro (1918-1994), João José da Silva (1922-1998), José Soares (1914-1981).


Athayde, paraibano radicado no Recife, responsável pela impressão de folhetos a partir de 1908, consagrou-se como grande editor de cordel entre 1921 e 1949. João José da Silva fundou em 1953 a folhetaria Luzeiro do Norte, que funcionou até 1964, considerada por Roberto Benjamin \”a principal editora de cordel do Brasil\”. Diretamente das gráficas, sa?am pacotes e mais pacotes de folheto, para diversos pontos de venda no pa?s.


Houve dificuldade, a partir dos anos 60, com o custo de produção gráfica, mas a vontade de criar alternativas de impressão fez surgir folhetos datilografados, mimeografados, fotocopiados e, há cerca de 15 anos, digitados e impressos em computador e impressora domésticos. Já existe acervo que pode ser consultado eletronicamente, via Internet e/ou em CD Rom.


O folheto popular nordestino há muito tempo não é mais produzido apenas no Nordeste brasileiro. Com as correntes migratórias, migraram poetas e as tradições culturais e o folheto conquistou o Brasil, sedimentando-se diversos pólos de produção de cordel: São Paulo, Rio de Janeiro, Bras?lia, Goiânia, Manaus, Belém do Pará, e localidades tradicionais como Fortaleza, Crato e Juazeiro do Ceará, Teresina, São Lu?s, Natal, Mossoró, Recife, Timbaúba, Caruaru, Bezerros, João Pessoa, Campina Grande, Salvador.


Na atualidade, duas editoras se destacam com catálogo de cordel, que inclui histórias clássicas e contemporâneas: a Tupynanquim, em Fortaleza, do poeta, quadrinista, ilustrador e artista gráfico Klévisson Viana, e a Coqueiro, no Recife, de Ana Cely Ferraz. O mais publicado pela Coqueiro é José Costa Leite, 78 anos, atuante poeta e xilógrafo com vasta produção. Em Caruaru, o xilógrafo e poeta José Soares da Silva, conhecido por Dila, imprime folheto com máquina de tipos móveis e faz capas em prensa manual, na própria residência. José Francisco Borges, ou J. Borges, vive em Bezerros, onde produz e imprime folhetos e xilogravuras, também artesanalmente.


No Recife, uma conquista importante foi a recente criação, em abril do ano passado, da União dos Cordelistas de Pernambuco (Unicordel), que vem congregando os poetas das novas gerações, a exemplo de autores já publicados e conhecidos, como José Honório, Allan Sales, Jorge Filó, Paulo Dunga, Mauro Machado. Preocupados em reavivar o gosto pelas narrativas dos folhetos, o grupo de escritores vem desencadeando ações voltadas para uma ampla divulgação em escolas, espaços públicos de lazer, rodas de leitura, livrarias, além da publicação, independente, dos próprios t?tulos de cordel.


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