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04/03/20
"Se o novo coronavírus chegar ao Brasil (transmissão interna) e começar a ser transmitido numa comunidade, o que vai ser feito? Vai se fechar escola, vai se fazer quarentena? Quais são as medidas que serão tomadas?", questiona o médico virologista Ernesto Marques (Foto: Filipe Jordão/JC Imagem)

Coronavírus: “O risco de pandemia existe”, destaca pesquisador

04 / mar
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 04/03/2020 às 16:03

Sobre interrogações do novo coronavírus, o médico virologista Ernesto Marques, professor de doenças infecciosas da Universidade de Pittsburgh (EUA) e pesquisador da Fiocruz Pernambuco, conversou na Rádio Jornal, na terça-feira (3), com os jornalistas Cinthya Leite, Felipe Vieira e Wagner Gomes. Confira:

JC – Como as pesquisas pretendem responder às interrogações sobre o comportamento do novo coronavírus nas populações expostas?

ERNESTO MARQUES – Acabamos de submeter um projeto de pesquisa ao CDC (sigla em inglês para Centros de Controle e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos) cuja intenção é montar um novo sistema de vigilância mais sensível para doenças emergentes, e um dos focos principais é a detecção do novo coronavírus. Para entendê-lo bem, é preciso compreender os demais coronavírus que vêm circulando na população do mundo há várias décadas.

JC – Pessoas que já foram infectadas pelos “velhos coronavírus” podem adoecer de forma mais grave ou leve caso tenham o novo coronavírus?

ERNESTO MARQUES – Esta é a principal pergunta que o nosso estudo busca responder. As observações existentes na atualidade é que as crianças com o novo coronavírus apresentam menos sintomas e praticamente não se detecta doença nelas. Uma possibilidade do que seja a razão disso é que as crianças sejam muito mais expostas a infecções por (outros) coronavírus durante o período inicial da infância e talvez elas estejam mais protegidas. À medida em que a pessoa cresce, ela passa a ter menos com infecções respiratórias. Então, é natural que a quantidade de anticorpos dos idosos sejam menores e, assim, que eles tenham menos anticorpos contra coronavírus. Talvez isso seja uma das razões que fazem o novo vírus ser responsável por um quadro mais exacerbado nas pessoas mais idosas.

JC – Já há relatos de pessoas, fora do Brasil, que foram infectadas pelo novo coronavírus e que tiveram novamente a doença. Isso denota um caráter de maior gravidade para conter a epidemia?

ERNESTO MARQUES – Com certeza. As pessoas normalmente se reinfectam pelos antigos coronavírus, que circulam há décadas. Ou seja, não é o fato de ter tido a doença uma vez que se estará imune para o resto da vida. A questão que pode acontecer é que, após uma infecção grave (pelo novo coravírus, por exemplo), a imunidade da pessoa já está baixa, e talvez nem se trate de reinfecção, mas de recidiva da infecção original.

JC – Como estão os estudos para uma eventual vacina?

ERNESTO MARQUES – O nosso estudo dá as diretrizes de como a vacina deve ser desenvolvida e mostra quais são parâmetros que ela deve ter para que se torne eficaz e segura. Então, no momento inicial, os estudos são em animais, não são estudos clínicos. Ainda há caminho longo a ser percorrido.

JC – Como avalia a atuação dos órgãos sanitários no combate ao coronavírus?

ERNESTO MARQUES – Os critérios que a Organização Mundial de Saúde (OMS) usa para definições de classificação de pandemia são estritos. Baseados nesses conceitos, a OMS não chegou ainda (a declarar essa classificação), mas está em via de. Acredito que muito em breve, à medida em que se confirme transmissão sustentada em múltiplos continentes, será fechada a denominação de pandemia (do novo coronavírus). O risco existe. O que as agências de saúde pública precisam fazer é deixar claro como vão agir ou como implementarão os seus planos de contenção. Se o novo coronavírus chegar ao Brasil e começar a ser transmitido numa comunidade, o que vai ser feito? Vai se fechar escola, vai se fazer quarentena? Quais são as medidas que serão tomadas? É importante explicar à população o que potencialmente pode ser feito, por que e como essas medidas funcionam. Isso é importante porque, caso essas ações sejam necessárias, a sociedade vai reagir à situação com mais tranquilidade e menos temor.


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