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22/01/20
"O que temos que pensar agora é num possível cenário de zika se tornando endêmico e circulando entre macacos, além da chance de isso favorecer a situação de adaptação desse vírus, de ele sofrer processos de mutações e, assim, aguardamos o que possa resultar dessa nova interação", diz Constância Ayres (Foto: Cinthya Leite/Casa Saudável)

‘Descoberta de zika em macacos é forte indício do ciclo silvestre da doença em Pernambuco’, diz pesquisadora

22 / jan
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 22/01/2020 às 20:52

Vice-diretora de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Serviços de Referência da Fiocruz Pernambuco, Constância Ayres conversa com a jornalista Cinthya Leite sobre a descoberta do zika vírus em macacos encontrados mortos em Camaragibe, no Grande Recife. Nesta entrevista, ela explica por que acredita na existência de um forte indício de o ciclo silvestre da doença estar se estabelecendo em Pernambuco, além de destacar como a Fiocruz atua na investigação.

Qual o papel da Fiocruz Pernambuco nesta investigação?
CONSTÂNCIA – Os nosso dois centros de referência em arboviroses (um em relação ao vírus e o outro focado no controle de vetores) estão à disposição da Secretaria Estadual de Saúde (SES) para dar assistência e infraestrutura para investigação deste novo processo de identificação do zika no ambiente silvestre e desta epizootia (doença detectada em animais ao mesmo tempo e na mesma região).

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A senhora se surpreendeu com o fato de ter sido encontrado o zika vírus nos saguis encontrados mortos em Aldeia?
CONSTÂNCIA – Precisamos lembrar que zika é um vírus silvestre, identificado pela primeira vez numa área silvestre, em Uganda. Por isso, o cenário que temos hoje não surpreende. Quando o zika entrou no Brasil, pela primeira vez, uma das questões que logo foram levantadas era se existia a possibilidade de ele se tornar endêmico na nossa região através de um ciclo silvestre. Então, essa possibilidade vem agora, e a gente tem que investigar a fundo se realmente há esse ciclo e se vai se tornar endêmico. Como o secretário de Saúde de Pernambuco (André Longo) destacou, isso pode complicar a o controle da doença no Estado.

Das seis amostras coletadas dos macacos mortos, cinco foram positivas para zika. É preocupante?
CONSTÂNCIA – Isso mostra que existe um forte indício de o ciclo silvestre estar se estabelecendo no Estado, pois é um número muito elevado (de amostras positivas para o vírus). Se fosse um mosquito picando um animal, poderia ser uma situação ocasional. Mas realmente devemos pensar na chance de o vírus estar se tornando endêmico por aqui e, dessa maneira, sendo estabelecido o ciclo silvestre.

E a coinfecção (zika com herpes em duas amostras de macacos mortos) pode dar alguma outra pista?
CONSTÂNCIA – Esta é uma questão importante que precisamos investigar agora porque o vírus herpes identificado em apenas três animais, e o zika foi constatado em cinco deles. A questão que fica é o que causou a morte dos macacos.

A Fiocruz Pernambuco vai analisar mosquitos coletados em Aldeia?
CONSTÂNCIA – A SES coletou amostras, e nós da Fiocruz estamos à disposição para a pesquisa. O que temos que pensar agora é num possível cenário de zika se tornando endêmico e circulando entre macacos, além da chance de isso favorecer a situação de adaptação desse vírus, de ele sofrer processos de mutações e, assim, aguardamos o que possa resultar dessa nova interação.

Como se daria esse ciclo silvestre?
CONSTÂNCIA – Precisamos antes saber quem seria esse vetor. Vale lembrar que o Aedes aegypti é antropofílico. Ou seja, ele se alimenta preferencialmente por humanos. Então, muito provavelmente a transmissão (de zika) para os macacos deve estar acontecendo por outras espécies de mosquito. Devemos identificar quem são esses vetores para definirmos estratégias de controle apropriadas.


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