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02/01/19
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Cientistas questionam recorde de longevidade da decana da humanidade

02 / jan
Publicado por Letícia Saturnino em Ciência - 02/01/2019 às 17:00

AFP – E se o recorde de longevidade da francesa Jeanne Calment fosse um engano? A nova teoria apresentada por pesquisadores russos gera interesse e controvérsia na comunidade científica.

Jeanne Calment, oficialmente falecida aos 122 anos e 164 dias em 1997 – um recorde mundial de longevidade para homens e mulheres -, adorava dizer que “Deus tinha esquecido” dela, mas nada disso convence o matemático Nikolai Zak.

Apoiado pelo gerontologista Valeri Novosselov, analisou durante meses biografias, entrevistas, fotos, os arquivos de Arles, a cidade do sul da França onde viveu, e também escutou os testemunhos daqueles que a conheceram.

“A análise de todos estes documentos me levou à conclusão de que a filha de Jeanne Calment, Yvonne, assumiu a identidade de sua mãe”, afirmou Zak, consultado pela AFP.

Zak, integrante da Sociedade de Naturalistas (MOIP) da Universidade de Moscou, publicou recentemente seu estudo “Jeanne Calment: the secret of longevity” (Jeanne Calment: o segredo da longevidade) no site ResearchGate, uma rede internacional para pesquisadores e cientistas.

O relatório, considerado tendencioso por críticos, foi bem recebido por alguns cientistas, que enfatizaram a necessidade de verificações mais detalhadas nos registros de longevidade.

Zak sugere que em 1934 não foi a filha de Calment, Yvonne, que morreu de pleurisia, como dizem os registros oficiais, mas sim Jeanne Calment. Yvonne, em seguida, assumiu a identidade de sua mãe, a fim de evitar o pagamento de imposto sobre herança.

De acordo com essa teoria, a mulher que morreu em 1997 tinha 99 anos.

Entre os 17 elementos apresentados pelo pesquisador, há uma cópia do documento de identidade de Jeanne Calment, que data dos anos 1930, onde a cor de seus olhos (pretos), sua estatura (1,52 metro) e a forma de sua testa (descrita como “baixa”) não correspondem às características da decana francesa nos últimos anos de vida.

“Como médico sempre tive dúvidas sobre sua idade. O estado de seus músculos era diferente daqueles de outros longevos. Ela conseguia sentar sem nenhum apoio. Não tinha sinais de demência”, diz Novosselov, que lidera a seção de gerontologia da Sociedade de Naturalistas de Moscou.

Pedido de exumação

Depois da morte de Jeanne Calment, os cientistas lamentaram que não tenha sido feita nenhuma autópsia para explicar a longevidade excepcional desta centenária que gostava de comer chocolate, beber vinho do porto e fumar um cigarro de vez em quando, antes da deterioração da sua saúde.

Em um gesto que alimentou as dúvidas, Jeanne Calment ordenou que parte das suas fotos antigas fosse queimada quando ficou famosa, revelaram os pesquisadores russos.

O demógrafo e gerontologista francês Jean-Marie Robine, que participou da validação da idade de Calment pelo Livro Guinness, afirmou à AFP que “nunca houve nenhuma dúvida sobre a autenticidade dos documentos” da decana.

Ele criticou o que considerou um texto tendencioso “que em nenhum momento examina os fatos a favor da autenticidade da longevidade da senhora Calment” e disse que lhe parece “difamatório em relação a sua família”.

Michel Vauzelle, que era prefeito de Arles quando Jeanne Calment morreu, considerou que esta teoria é “completamente impossível e inverossímil” porque a idosa foi atendida por vários médicos, disse.

“A ideia da identidade assumida já tinha sido considerada pelos que validaram (a alegação) e eu convidei regularmente os demógrafos a sustentarem essa hipótese”, disse Nicolas Brouard, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED) da França.

“É bom que Nikolai Zak tenha feito pesquisas independentes e que sobrem a mesma área de investigação. É um trabalho muito bom e um argumento a favor da exumação dos corpos de Jeanne e Yvonne Calment”, disse.

Segundo Brouard, um teste de DNA seria capaz de finalmente resolver o debate.

O demógrafo belga Michel Poulain, da Universidade de Louvain, elogiou o que chamou de “uma investigação bastante detalhada” que, segundo ele, mostra a necessidade de mais pesquisas científicas “para validar a idade excepcional desses supercentenários” (pessoas com mais de 110 anos).


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