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05/10/18
O pediatra João Guilherme Alves, referência no estudo das doenças do adulto com raízes na infância, revela como tudo o que o feto sente, na barriga materna, interfere na saúde física e mental ao longo de toda a vida (Foto: Diego Nigro/JC Imagem)
O pediatra João Guilherme Alves, referência no estudo das doenças do adulto com raízes na infância, revela como tudo o que o feto sente, na barriga materna, interfere na saúde física e mental ao longo de toda a vida (Foto: Diego Nigro/JC Imagem)

‘O útero é a primeira escola’, diz pediatra, que lança livro para gestantes nesta sexta-feira

05 / out
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 05/10/2018 às 10:57

Foi no útero que cada um de nós tivemos contato com o nosso aprendizado primário. Toda a experiência que temos, enquanto feto, na barriga materna, serve como uma espécie de lição valiosa porque possibilita construirmos bases para uma vida saudável após o nascimento. Essa é a principal mensagem revelada no livro O que aprendemos antes de nascer, publicado pela Editora Chiado e que será lançado nesta sexta-feira (5), às 19h, na Livraria Cultura do RioMar Shopping, no Pina, Zona Sul do Recife. Em cem páginas, a obra traduz as mais recentes evidências da medicina fetal para uma linguagem acessível a gestantes e ao público em geral.

“A vida fetal não é tão inerte como se pensava antigamente. Hoje se sabe que o bebê responde, ainda no útero, a carícias que a mãe faz na barriga. Pelas imagens precisas de ultrassom 3D e 4D (com movimento), percebemos que o feto reage quando sente o toque na parede abdominal. É como se ele sentisse uma mensagem enviada para ele”, destaca o pediatra João Guilherme Alves, diretor de Ensino do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) e um dos autores do livro.

O médico sublinha que a ciência demonstra como o acolhimento percebido pelo feto representa a primeira sensação que o faz perceber todo o ambiente que lhe servirá de moradia fora da barriga. O médico assina a obra com a jornalista Maria Paola de Salvo, que é especialista em tradução do conhecimento e consultora da Fundação Bill & Melinda Gates no Brasil.

“Acreditamos que é importante compartilhar esse tema com as gestantes, que devem estimular bem o feto porque tudo indica que esse aprendizado ajudará o desenvolvimento de toda a infância e consequentemente das demais etapas da vida”, reforça João Guilherme, que faz questão de enfatizar como o bebê, ainda no útero, é sábio para captar e reagir a reações psicológicas e fisiológicas da mãe e, dessa maneira, aprender a viver no mundo externo. Imagens das mais tecnológicas ultrassonografias retratam que o feto sorri, chupa dedo e até mostra a língua para expressar contentamento, dor, desconforto ou estresse. Segundo João Guilherme, os achados do ultrassom reforçam o quanto os bebês, na barriga materna, respondem a sentimentos maternos de alegria e estresse. São reações que, para o médico, são armazenadas na memória e podem interferir na saúde mental fora do útero.

“Atualmente estudos mostram que o feto reconhece se foi aceito, amado ou não. Há casos de bebês que já são muito rejeitados na barriga e, após o nascimento, são adotados por uma nova família. Mesmo criados com amor e muito cuidado, alguns têm maior risco de apresentar depressão e revolta. Ou seja, a chance de essas crianças terem transtornos mentais parece ser bem maior do que aquelas bem aceitas desde a concepção”, explica João Guilherme, que não alimenta dúvidas sobre a valia de começarmos a fortalecer o aprendizado dos bebês enquanto eles desenvolvem múltiplas habilidades no aconchego da primeira escola da vida: o útero materno.

“O bebê já nasce sabendo demais”

Nesta entrevista, o pediatra João Guilherme Alves, 64 anos, referência no estudo das doenças do adulto com raízes na infância, revela como tudo o que o feto sente, na barriga materna, interfere na saúde física e mental ao longo de toda a vida.

Alimentação

Quando a gestante se alimenta, a comida vai para o líquido amniótico, deglutido pelo bebê. E ele vai sentindo o sabor das comidas selecionadas pela mãe. Por exemplo: filhos de mulheres comeram cenoura na gestação aceitam melhor uma papinha de cenoura quando chegam ao desmame, em comparação com os bebês daquelas que não ingeriam o alimento na gravidez. É como se, ao oferecer a cenoura pela primeira vez (fora do útero), a criança já a conhecesse. É um exemplo que retrata como o bebê, ao nascer, já sabe de um monte de coisa: reconhece o ambiente e o cheiro da mãe. Isso leva a implicações futuras no desenvolvimento infantil.

Álcool

Se a mãe bebe muito na gestação, haverá consequências no crescimento do feto. Alguns estudos dizem que a bebida alcoólica estimula o olfato e o paladar, pois é passada pelo líquido amniótico. É assim que o bebê experimenta o álcool. Como as memórias recente e tardia vão já se formando no útero, o feto vai ‘guardando’ essa experiência. Na adolescência, vem o contato com o álcool: uma dose, duas, três… E isso vai ativar a memória. Tudo indica que uma pessoa, que teve contato com o álcool no útero, pode despertar mais facilmente para esse tipo de bebida.

Estresse

No livro, há um capítulo sobre a maneira com que o feto percebe o estresse da mãe. Um estudo feito em Nova Iorque (EUA), iniciado após o ataque de 11 de setembro de 2001, avaliou as gestantes que viviam na região naquela época. Um grupo delas desenvolveu a síndrome pós-estresse, enquanto outras ficaram mais tranquilas e superaram (os abalos emocionais). Os pesquisadores acompanharam os dois grupos, além dos filhos dessas mulheres até completarem seis ou sete anos. As crianças passaram por exames de cortisol e adrenalina (hormônios do estresse). Níveis mais altos dessas substâncias foram observados nos meninos das mães que tiveram a síndrome pós-estresse associada aos ataques. Imagina-se que as tensões foram captadas ainda no útero. É importante as gestantes conhecerem essas descobertas e serem orientadas porque tudo o que sentem influencia no desenvolvimento dos filhos.


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