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28/06/17
Depressão anaclítica é caracterizada por um quadro depressivo que se inicia nos primeiros meses de vida. Entre os sintomas, estão distúrbios do sono, face inexpressiva e olhar perdido (Foto ilustrativa: Pixabay)
Depressão anaclítica é caracterizada por um quadro depressivo que se inicia nos primeiros meses de vida. Entre os sintomas, estão distúrbios do sono, face inexpressiva e olhar perdido (Foto ilustrativa: Pixabay)

Bebês também podem ter depressão; sintomas aparecem no 8º mês de vida. Psiquiatra tira dúvidas

28 / jun
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 28/06/2017 às 10:40

Neste ano em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) deu início a uma campanha sobre depressão, que pode afetar pessoas de qualquer idade em qualquer etapa da vida, a psiquiatra Ana Christina Mageste, secretária do Departamento de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), chama a atenção para o transtorno, que também pode atingir os bebês. “É um sofrimento expresso em todo o corpo e no desenvolvimento das potencialidades. A criança vai deixando de existir”, diz Ana Christina Mageste, nesta entrevista à jornalista Cinthya Leite.

– Como a depressão pode se manifestar nos bebês? 

Do nascimento até aos 2 anos, as manifestações depressivas do bebê aparecem como consequência de perda ou separação de um ‘objeto’ significativo do seu meio externo, como a mãe e os cuidadores. Há três tipos de depressão nessa faixa de idade.

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– E quais são esses tipos de depressão? 

Há a depressão anaclítica (após os 8 meses), caracterizada por choro intenso e repetido, grande dificuldade na alimentação, distúrbios do sono, retardo ou diminuição dos graus de desenvolvimento psicológico, face inexpressiva, bebê imóvel e olhar perdido. É em torno dos oito meses que o bebê começa a estranhar; ou seja, percebe a diferença dele com as pessoas externas, principalmente a mãe. E vendo desconhecidos, os vê como estranhos. Assim, pode sentir mais falta.

“No bebê, as manifestações da depressão são geralmente a partir do oitavo mês, quando ele se percebe diferente da sua mãe e reconhece que existem pessoas externas. Na falta ou privação dessas pessoas, sente-se só, desamparado”, destaca a psiquiatra Ana Christina Mageste (Foto: ABP/Divulgação)

– E quais os outros tipos de depressão que podem acometer os bebês? 

O hospitalismo é a privação emocional total, lentidão e passividade motora, expressão facial vazia, diminuição progressiva do coeficiente de desenvolvimento, índice de mortalidade alto no primeiro ano. Ou seja, ocorre em bebês que têm hospitalização prolongada ou que estão em orfanatos ou abrigos. Também existe o transtorno reativo do apego, no qual se enquadram as crianças de choro fácil, hipersonia (distúrbio do sono caracterizado por sonolência excessiva durante o dia e/ou sono prolongado à noite), apatia, hipotonia muscular (diminuição do tônus muscular e da força) e reflexo de sucção débil. Ocorre em crianças com repetidas mudanças de responsáveis primários, com dificuldade de formação de vínculos, com cuidados patogênicos em relação às necessidades básicas da criança.

Segundo psiquiatra, a prevalência de depressão, entre 0 e 12 anos, é em torno de 6% (Foto ilustrativa: Pixabay)

– É um quadro depressivo diferente da depressão em outras fases da vida?

Esses sintomas são diferentes das outras fases da vida porque estão relacionados com essa etapa do desenvolvimento. Quando a criança não fala, expressa seus sentimentos da maneira com que ela consegue se relacionar: com o corpo, desenvolvimento psicomotor, olhar sem foco, dificuldades alimentares, sono e retardo no desenvolvimento. Ou seja, é um sofrimento expresso em todo o corpo e no desenvolvimento das suas potencialidades. A criança vai deixando de existir.

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– Nos bebês, a depressão geralmente pode aparecer a partir de quantos meses de vida? 

As manifestações são geralmente a partir do oitavo mês de vida, quando o bebê se percebe diferente da sua mãe e reconhece que existem pessoas externas. Na falta ou privação dessas pessoas, sente-se só, desamparado. Como é difícil fazer esse diagnóstico (de depressão em bebês), trabalhamos com uma prevalência de depressão em torno de 6% nas crianças de 0 a 12 anos.

Filhos de grávidas deprimidas, de acordo com Ana Christina Mageste, têm uma maior probabilidade de nascerem de parto pré-termo e com menor peso do que o estimado (Foto ilustrativa: Pixabay)

– A depressão durante a gestação é um fator de risco para a depressão nos bebês?

É importante salientar que a depressão na gravidez é tão frequente quanto a chamada depressão puerperal (no pós-parto). A questão é que a gestante tem mais dificuldades em admitir a depressão. A nossa sociedade diz que  a gravidez é ‘o período mais feliz da vida de uma mulher; está gerando um ser’ e, então, é muito difícil para a grávida assumir a sua depressão. ‘Como assim: vem um filho e eu estou deprimida?’. Sabemos, há muito tempo, que filhos de grávidas deprimidas têm uma maior probabilidade de nascerem de parto pré-termo e com menor peso do que o estimado. Uma explicação plausível: será que a depressão materna provoca uma desregulação do eixo hipotálamo hipofisário estimulando a liberação dos hormônios do estresse com consequente restrição de oxigênio e nutrientes para o feto? Se sim, isso levaria a uma restrição do crescimento intrauterino e/ou precipitação de um parto pré-termo. Verificou-se que recém-nascidos, cujas mães eram depressivas, tinham perfis fisiológicos semelhantes aos perfis maternos e incluíam aumento do cortisol e das catecolaminas (noradrenalina) e diminuição dos níveis periféricos de dopamina e serotonina. Essas alterações poderiam resultar tanto de um ambiente bioquímico pré-natal desregulado como de uma predisposição genética ou ambos. Outra questão em estudos: mulheres com depressão durante a gravidez, por questões epigenéticas (ambiente interferindo no gene), poderão transmitir a depressão nesta e na próxima geração.

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– Como é feito o diagnóstico nesta faixa etária? E o tratamento? Os pais também precisam de acompanhamento?

O diagnóstico é clinico, observando os bebês, principalmente os que sofreram alguma privação de figuras importantes nos primeiros meses de vida. É feita uma correlação (dessa privação) com os sintomas. Os pais têm que ser tratados, pois uma mãe deprimida com certeza vai apresentar muitas dificuldades em cuidar do seu filho. E toda a família tem que se mobilizar e procurar o parente ‘mais maternal do grupo’ para cuidar da criança. Fico pensando nas crianças refugiadas… Que geração de deprimidos teremos!

Os pais têm que ser tratados, pois uma mãe deprimida, segundo a psiquiatra, apresentará dificuldades em cuidar do filho (Foto: Pixabay)


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