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16/04/18
Ronaldo Fraga - Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem
Ronaldo Fraga - Foto: Dayvison Nunes / JC Imagem

“A moda como a gente conhecia não interessa mais”, explica Ronaldo Fraga

Publicado por Romero Rafael em Moda às 7:00

Ronaldo Fraga, 50 anos, natural de Belo Horizonte, apareceu para o País nos anos 90, numa geração de estilistas e designers que deu forma à moda brasileira. É, hoje, um dos mais cultuados e respeitados profissionais da moda, sobretudo, por fazê-la ao seu modo, sem apego a tendências de vitrine; também por entender moda como uma linguagem da cultura; e ainda por usar a moda para falar do seu tempo (das questões, dos sentimentos) e dos brasis que existem no vasto Brasil.

Em passagem pelo Recife, para participar de bate-papo com o público na Passarela RioMar, o mineiro falou ao Social1 sobre o seu trabalho: como vê a produção na moda hoje; quais tendências segue; como vende sua ‘moda autoral’; e ainda revela qual o tema do próximo desfile no São Paulo Fashion Week (SPFW), dia 26 de abril. Acompanhe:

Ronaldo Fraga – Fotos: Dayvison Nunes / JC Imagem

Pela carreira, o aposto que mais se utiliza pra falar de você é estilista, mas eu te considero um artista que faz roupa. E que, por isso, é também estilista. Faz sentido?

Faz, mas eu acho que essa coisa de ser artista é definição que o outro dá. É perigoso a pessoa se intitular artista. Eu bebo na fonte das artes plásticas – é o que me oxigena, minha formação vem daí. O curso de estilismo, quando eu fiz, era o primeiro no País e era uma extensão da Escola de Belas Artes da UFMG. Então, os professores das artes plásticas davam aulas no estilismo, porque não existiam professores de moda naquela época. A formação é muito parecida.

Hoje, me desloquei da coisa ensimesmada da roupa; da coisa ensimesmada da moda. Mesmo porque eu acho que essa é uma das saídas para sobrevivência da moda no mundo contemporâneo: estabelecer diálogo com outras frentes. A moda, como a gente conhecia, da roupa, do cumprimento, não interessa mais. No mundo em que a gente vive, isso é perda de tempo. E foi um ganho pra moda, quando realmente ela pode se manifestar em relação a tudo.

Agora, ainda vivemos – hoje menos do que já foi um dia, mas vivemos – muito preconceito da moda como vetor cultural, mesmo porque nem os profissionais da moda conseguem vê-la assim… Houve um ganho quando o governo brasileiro integrou moda à cultura – a moda brasileira tem uma cadeira no Ministério da Cultura -, mas, se não tem uma forma maior do que poderia ter, é muito em função dos próprios profissionais. Todas as vezes em que nós sentamos pra discutir tem sempre alguém falando de alíquota, de imposto – que é necessário, mas não só.

Sei que durante muito tempo eu vivi uma espécie de um sem-lugar. O pessoal da moda falava que o que eu fazia não era moda, era teatro, arte. E o pessoal do teatro falava ‘o que é que esse estilista da moda está fazendo?’. Agora, não, com o tempo eu fiquei velho, então é ‘tá, deixa ele’. [risos]

“O olhar do consumo é muito raso, lá fora já se ultrapassou esse caminho”, disse Ronaldo Fraga

Isso por causa dos seus desfiles conceituais…

Não diria conceitual, porque há conceito em tudo.

Então, autoral…

Isso, autoral. E também outra coisa que não se tinha feito: colocar vetores para dialogar [moda com teatro, música…].

Fala sobre o autoral…

Hoje, passada a euforia da globalização, o autoral é mais caro. Se você entra num shopping e vê uma loja, você já viu todas. Na nova geração de designers – com raríssimas exceções -, o que eles fazem já está na vitrine da Zara, Renner, Riachuelo, quando a gente espera por algo novo. Tem pouco risco… Estamos em crise? A gente sempre ouviu falar em crise. Mas você pode fazer uma coleção e vendê-la pela internet. E, mesmo com essa possibilidade, as pessoas fazem mais do mesmo o tempo inteiro. Teve um momento na história em que você olhava para o Brasil e via nomes aparecendo…

Mas também o mundo vive de euforias. Nós tivemos aquela euforia das blogueiras, que dizia que o que elas vestiam vendia, só que esse formato já deu sinal de esgotamento. Você já consegue ver pessoas escrevendo um pouco melhor, sabe? Indo um pouco além… O que acontece é que o grande buraco desse tempo – mas que é a cara do nosso tempo, e a moda reflete isso muito bem – é a ânsia por autoria, por um propósito, num oceano de vazios.

Ronaldo, você já publicou e ilustrou livros, inclusive infantis; montou exposição sobre o rio São Francisco, foi jurado de reality de moda [Desafio Fashion, do Lifetime], fez figurino para teatro [a peça A Visita da Velha Senhora, com o qual ganhou o Prêmio Shell]… Nos seus desfiles, fala de assuntos de interesse social e difíceis, como os refugiados, as mulheres transexuais, a diversidade de corpos versus os padrões de beleza… Qual é a sua missão?

Todo mundo quer ser uma pessoa do seu tempo. De alguma forma, é uma busca instintiva. Você também acha que vai viver pra sempre, ninguém pensa que a morte está na esquina, ninguém fala em morte. Então, algo que faz te manter e funcionar, como uma eterna fonte da juventude, é você ser um homem do seu tempo, você acompanhar as mudanças do seu tempo. E, não por acaso, eu fui escolhido por uma profissão que é a linha mais fina com que se constrói o tempo. A moda é um eterno diálogo com o tempo.

Eu fiz a coleção da China [inverno de 2007], quando ela ainda nem tinha chegado e provocado. Esses temas são fáceis de falar? Não são! Por quê? A nossa cultura de moda não vai até ali. O entendimento é muito difícil… Só que hoje eu conquistei um lugar que me permite fazê-lo, e abri um caminho para que outros possam vir. No desfile da transexualidade [inverno de 2017], nenhum jornalista – graças a Deus! – me perguntou sobre tecido ou forma. A história era outra, e isso é um avanço.

Não se falou em tecido, mas você precisa vender… Isso não é um assunto que te preocupa?

Claro que eu me preocupo. Pago contas, estão todas em dia e eu sou muito caro! Mas é o seguinte: o que se vende num desfile? Vende imagem. É uma imagem que você tem de vender em sete minutos. Você tem de saber da música, da luz, da modelo, do timing e até da roupa. Aquele lugar ali não é o lugar onde o cumprimento da estação, hoje, vai pesar. Em outro tempo pesou: nos desfiles dos anos 60 e 70, as modelos entravam com plaquinhas com os números das peças, e as pessoas ficavam notando pra comprar. Então, quando os desfiles vão para outro lugar – que pode ser um filme, uma instalação -, é uma imagem que a marca cria e que, a cada estação, ela tem que reativar essa alma; ela tem de dizer para o consumidor que a acompanha, e para novos consumidores, que a seara daquela marca é essa; é disso que ela pensa, é isso que ela fala.

Quando as pessoas vão à minha loja, elas vão encontrar aquilo que elas viram no desfile e muito mais. A roupa vai estar ali. Hoje, o meu maior problema é produção. Sempre foi. Nunca foi produzir e não ter quem comprasse. Tem gente pra comprar? Tem! O povo compra de tudo. Agora é óbvio que eu escolhi o tamanho que eu quero ser. Eu não sou da indústria bélica. E eu acho que todo mundo tem de ter isso muito claro. Eu tenho colegas da indústria bélica que fazem muito bem: pegam uma tendência de imediato e têm uma superestrutura, que vai desenhar, produzir e botar na vitrine com um custo muito barato.

Pra você entender moda, começa a ver o que está acontecendo com alimentação. Até pouco tempo, quando as pessoas falavam de orgânico logo pensavam ‘ah, isso é caríssimo’, e hoje é uma realidade que está ‘pegando’ na vida da população. Sobre a roupa bem cuidada, com autoria, as pessoas, hoje, não têm vergonha de falar que estão vestindo um estilista brasileiro. Até pouco tempo as pessoas não queriam dizer.

Mesmo as suas?

Acho que sou uma geração que rompeu com isso. Mas até os anos 90 tinha isso. E ainda tem. Claro que sempre vai ter uma elite horrorosa que quer morar num prédio azul com vidro blindex fazendo sombra às 14h, como acontece aqui e em Fortaleza, mas vivemos num mundo diverso, onde não existe o certo e o errado.

Em uma palestra pra falar de tendência, eu disse que hoje, com a internet, elas perderam o sentido. A tendência é rapidamente consumida e deixa de existir imediatamente. O que interessa são as histórias particulares, a verdade da marca, mas que não é a verdade única e absoluta.

E quando te perguntam sobre tendência, o que você responde?

Instituiu-se que eu era contra tendência. Gente, eu não sou contra tendências, e sim contra à forma como são lidas. Agora, o que me interessa é o macro, porque quando você tem uma tendência de roupa você está numa escala aqui nas suas costas já [diz apontando para os ombros, como indicando algo que já chegou ou está à porta], e se você pensa em macrotendência, vai para onde o mundo está caminhando, para o que vai influenciar todo o estilo de vida de uma época. O exemplo da alimentação orgânica é uma tendência que a moda tem de prestar atenção nela, e não ficar naquela coisa da tendência da vitrine, da última cor…

Do que você vai falar no próximo SPFW?

Ah, um assunto espinhento… A arte – no meu caso, a moda -, tem o poder de enxergar poesia em terreno árido; e quando ela lança luz, uma pequena fagulha, cria ali uma floresta. Nessa coleção eu falo de um trabalho que desenvolvi em Barra Longa [MG], uma cidade que foi encoberta pela tragédia de Mariana e que é um polo de bordados.

Suas postagens no Instagram têm falado muito sobre sexo, puritanismo versus hipocrisia… Como você analisa o País?

As pessoas acham que estou falando de sexo, mas estou falando de censura. Se ver os presentes que as pessoas começaram a me mandar… morro de vergonha quando abro as coisas. As pessoas pensam que eu sou um devasso. [risos]

Mas a gente está passando por um momento de uma censura velada, que é a pior delas. Isso engloba tudo: a questão do sexo, da religião… E é como se a gente voltasse à Idade Média. Como se, num jogo, a gente jogasse a pedra e dissesse ‘volte 30 anos atrás pra casa tal e fique lá’. Estou com essa sensação de conservadorismo.

Eu sempre estou pesquisando movimentos de arte contemporânea, no mundo, e o que me emociona eu sempre dou um bom-dia falando daquilo. Às vezes, realmente, as pessoas ficam um pouco assustadas. No início eu também recebia muita ameaça, no inbox… era uma coisa absurda! No tempo da história do Mam [a performance La Bête, em que o artista Wagner Schwartz fica nu] e do Santander Cultural [em Porto Alegre, quando cancelou a exposição Queermuseu], nossa… eu via as mensagens e pensava ‘eles vão quebrar a loja amanhã’, mas eu não me intimidei. E eles foram diminuindo. Hoje, uma ou outra ‘perpétua’ [como ele batizou os seguidores conservadores] aparece pra me encher o saco. E muitas falaram ‘ah, eu era perpétua, e agora, antes de discordar, eu penso em você, paro, procuro saber, me informar’. As pessoas se ofendem com qualquer coisa, mas não podemos nos intimidar.

REVEJA desfiles de Ronaldo Fraga no SPFW:

Ronaldo Fraga fez ato político em desfile de só um vestido e 28 modelos trans

Ronaldo Fraga pôs refugiados na passarela

Ronaldo Fraga fez espetáculo sobre amor com performances de gênero e poliamor

Ronaldo Fraga escreveu poema para apresentar coleção

 

* Colaborou Inês Calado



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