19/jun
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A questão central. Por Ayrton Maciel

19 / jun
Publicado por Amanda Miranda em Opinião às 17:44

Por Ayrton Maciel, jornalista

Comparar episódios e medir dimensões de crises em épocas distintas são avaliações imprecisas. A evolução ou retrocesso político, econômico e social de um País é único de cada época. Situações e crises políticas são consequências de circunstâncias e condicionantes do período em que ocorreram. Medir tamanhos de crises em tempos diferentes – dando maior e menor dimensão a um e a outro – pode levar a maximização de um e a minimização do outro. As dimensões podem não corresponder à realidade dos fatos e momentos históricos. Não é preciso, então, medir e concluir que o País vive a sua maior crise política e a sua maior crise econômica.

O Brasil passa por um momento único. O de agora. E tem uma oportunidade única de corrigir a deformação do seu sistema político. Imaginar o fim da corrupção ou a sua redução a índices civilizados é utópico. Isso terá de passar por gerações, longos estágios de escolaridade até a consolidação de um padrão permanente, constantes investimentos e, em paralelo, níveis de fiscalização rigorosos dos Poderes e aparelhos do Estado brasileiro. Hoje, temos um sistema político degenerado.

O dilúvio de fatos reveladores, más notícias políticas e desdobramentos igualmente negativos afundaram o País na perplexidade. Estranha e suspeita é a passividade. Neste inferno de Dante, é surpreendente o silêncio dos clubes militares e de comandantes das três Forças – sempre em tom ameaçador nos governos do PT – quanto às acusações, com provas, contra o presidente Michel Temer (PMDB) e uma dezena de seus ministros. Mais que acusações, flagrantes do próprio Temer e de assessores diretos. Militares que, em posição de tutores da sociedade, em público advertiam sobre medidas nos governos petistas.

Derrubada a presidente Dilma, por incompetência e por ser obstáculo à impunidade de seus algozes, nenhuma defesa da legalidade e da vontade das urnas partiu dos militares. No momento atual de espanto do País, ante os fatos e provas contra o governo Temer, o silêncio se repete. Nem um conselho: “Senhor presidente, por favor, tenha uma atitude digna: renuncie”. Todo silêncio é igual? Não na sua natureza.

Não se deve perdoar o PT e a esquerda pelos mesmos e tradicionais erros da direita. Mas, a impressão é de que o que vale para um lado não vale para o outro e vice-versa. É como a postura do Gilmar Mendes: “o TSE não é lugar para julgar crimes político-eleitorais”. Frase que não foi dita quando Dilma ainda estava no cargo. À esquerda, o calabouço; à direita, o benefício da dúvida e do silêncio. É segurar um governo moralmente liquidado em troca da tese de que a sua queda será a ruína da economia.

O impeachment de 2016 demonstrou o que é e ao que veio. Alheios aos “nudes” da má política, o silêncio atual dos que foram às ruas revela que só queriam tirar do poder Dilma e a esquerda, não importa se eleitas. Criaram o mote e formaram a maioria parceira no Congresso, sem a preocupação com quem assumiria. Afinal, Temer era o líder maior no Congresso. Uma cumplicidade.

A democracia é um paradoxo: é um processo simples e complexo, principalmente em sociedades sem tradição de respeito às liberdades, com níveis de educação precários e de pouca consciência política. Simples porque “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido”, a partir das liberdades individuais e coletivas, das liberdades de imprensa e expressão, das eleições livres. Complexo porque onde persistem pouca formação política, baixa escolaridade e vazios de liberdade há sempre setores dispostos a tutelar o povo.

Inquestionável é que a sociedade civil é soberana; a sociedade militar, sua derivação. Nas sociedades democráticas europeias, na América do Norte, na Ásia, isso está consolidado. O contrário – Américas do Sul e Central, África, Oriente Médio, onde fatores religiosos e tribais também influenciam – é uma ameaça sempre presente. Mesmo que – como exemplos – ditaduras e regimes de exceção, à direita e à esquerda, tenham caído. Em mais ou menos tempo, caem, e com um custo alto.

O amadurecimento do brasileiro vai se dar pela educação, o que levará gerações. No momento atual de instabilidade, cabe à consciência democrática dizer que encontrar liderança ou lideranças, para o País, só é admissível pela via política. O que se espera dos militares é a sensatez para continuar a resistir às provocações fascistas. Mesmo que o silêncio que lhes disciplina não seja igual. Nos governos à esquerda, sempre alertas; com Temer, complacentes.

O saudosismo irracional de Jair Bolsonaro e seguidores, de militares radicais e de civis militaristas tem se expressado pela apologia à força bruta e à ilegalidade. Deles não parte a indignação com as denúncias, com provas, que se multiplicam contra Temer e seu “governo de amigos”. Consequência de 2016, Temer – principal líder – é a síntese da maioria fisiológica de líderes e partidos citados na Lava Jato que busca a autoproteção contra o Judiciário e legislar em causa própria no Congresso.

Neste momento histórico, o pior que pode ocorrer ao País é a seletividade da Justiça ou a ação corporativista protetora do Congresso (anistia ao caixa 2 e uma lei de abuso de autoridade). Ou ambas. Que a falta de pressão das ruas não seja senha para a impunidade. O silêncio é parceiro da cumplicidade. Há o interesse da maioria do Congresso em salvar Temer, como em salvar a própria pele. Conta com quem bradou tanto contra a corrupção e agora silencia. Nessa busca, uma questão está sendo desconsiderada: a Presidência é uma instituição e um dos símbolos da República. A continuidade de Temer é a desmoralização do cargo, da instituição. Eis a questão central.



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