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30/10/16
Foto: Facebook de Antônio Campos
Foto: Facebook de Antônio Campos

Aconselhado por João de Deus a se candidatar, irmão de Eduardo Campos não cumprirá “missão” em Olinda

30 / out
Publicado por Marcos Oliveira em Notícias às 19:29

Antônio Campos (PSB) aprendeu a sorrir, mas não venceu em Olinda. Com 42,97% dos votos válidos, o advogado irmão do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos não conseguiu superar neste domingo (30) outra surpresa neste pleito, o Professor Lupércio (SD), que ficou com 57,04% e o candidato do Solidariedade se torna prefeito de Olinda a partir de 1º de janeiro de 2017. O desafio que o socialista não conseguiu ganhar foi além de superar Lupércio e começou quando enfrentou resistência de lideranças do próprio partido, capitaneada pelo governador Paulo Câmara e pela viúva de Eduardo, Renata Campos. Além disso, contou a falta de traquejo político de um postulante que se lançou pela primeira vez na disputa.

Um começo difícil

De fala pausada, sem variação no tom de voz e um sorriso que mais parecia o de uma criança forçada pela mãe a sorrir durante a formatura do ABC, Antônio Campos, até meados do primeiro turno, tinha dificuldade para falar olhando nos olhos com as pessoas que o abordavam. Lá atrás, se mostrava um pré-candidato deslocado dentro do próprio escritório político no Largo do Amparo, na parte histórica de Olinda. Era um Campos que pouco lembrava a presença marcante do irmão mais famoso. As dificuldades foram sendo superadas com o contato das ruas, mas isso bem mais pra frente. Para isso, contou também com Ceça Silva, do PHS, candidata a vice-prefeita da chapa socialista, e da namorada, a empresária Luciana Hazin.

Centralizador como Eduardo

Apesar do comportamento diferente do que tinha o irmão morto durante a campanha presidencial há dois anos, uma semelhança de estilo mais clara entre eles, vista desde as primeiras reuniões, era a necessidade de centralizar em si o que se passa em sua volta. Coisas que costumam ficar sob a responsabilidade dos profissionais contratados eram acompanhadas de perto pelo candidato. Antônio indicava, mesmo no meio do calor dos eventos, as fotos que deveriam ser enviadas pelo pessoal da fotografia. Durante o primeiro turno, era ele quem escrevia a maioria, para não dizer todas, as matérias enviadas à imprensa. Tudo passava por ele, e ele orientava a todos pessoalmente ou pelas constantes mensagens monossilábicas pelo WhatsApp. Após o repórter enviar um e-mail com mais de cem palavras solicitando uma entrevista, o socialista respondeu com um singelo: “Ciente”. Pelo menos concordou com o pedido.

A reunião que formalizou o apoio com o PHS, no fim de julho, aconteceu em uma sala apertada; reformada, mas que ainda lembra as das casas antigas no Sítio Histórico da Cidade Patrimônio. Um grupo de aproximadamente 40 pessoas – apenas uma coincidência com o número da legenda -, sentado em cadeiras de plástico sem apoio para os braços começou a se formar por volta das 18h30. Esperavam Antônio Campos na sala abafada, que estava em outro ambiente, no fim do corredor. Lá, o irmão de Eduardo recebia cumprimentos de lideranças locais ou de populares em busca de emprego na campanha que se avizinhava. Marcada para as 19h, a reunião só começou às 20h13.

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Quando ele veio, a formalidade era perceptível. De cabeça baixa, passo acelerado, como se corresse dos olhares. Calça e sapatos sociais pretos, camisa no mesmo estilo, sendo que branca e com uma discreta inscrição vermelha: “A.R.C.”, de Antônio Ricardo Campos, cravada no lado esquerdo. Sem o “Accioly”, que vem antes do “Campos” e completa o nome.

A expectativa era pelo que ele poderia se tornar em pouco tempo, não pelo que ali estava postado. De jeito tímido, Antônio agradeceu ao apoio recebido e anunciou como uma profecia lógica o que estava por vir. “Esse… é o começo… de uma caminhada… uma luta difícil… que enfrentaremos juntos”, indicou após o discurso de um candidato a vereador que ao se dirigir a ele não lembrou-se do nome do “irmão de Eduardo e neto do ex-governador Miguel Arraes”. Características que os jingles de campanha sempre enfatizaram. Mas aquele não era o começo.

Missão dada por João de Deus

Em praticamente todas as entrevistas dadas por Tonca, como o socialista também é conhecido, além de lembrar a sua linhagem familiar – “tenho sangue Campos/Arraes correndo nas minhas veias” – ele sempre afirmou que a sua candidatura era uma “missão”. Como se um anjo o tivesse visitado e anunciado a profecia. Como se toda a briga que ele precisou enfrentar dentro do PSB, e da própria família, fossem provações. Fossem obstáculos que precisaria enfrentar para atingir a terra prometida que mana leite e mel. Neste caso, a Canaã de Antônio está longe do refrigério bíblico. Falamos de Olinda, que ao invés de leite e mel, tem obras inacabadas e outros problemas como lixo, saneamento e uma atual administração rejeitada por mais de 80% da população – gestão de Renildo Calheiros, do PCdoB aliado dos socialistas na cidade-irmã Recife.

Essa missão dada a Antônio Campos veio muito antes do início da campanha ou do encontro realizado no Amparo. No fim de 2014, ainda sob a comoção da morte trágica de Eduardo, ele foi até a cidade de Abadiânia, no interior de Goiás. Um município, com aproximadamente 15 mil habitantes, que poderia passar despercebido como mais um com jeitão típico de cidade do interior. De gente simples, fala arrastada e um cotidiano que na sexta-feira poderia parar no tempo. Para acordar só na segunda-feira seguinte.

Porém, Abadiânia difere. É um ponto turístico conhecido no mundo todo pela presença da Casa de Dom Inácio de Loyola, onde o médium João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus, realiza suas cirurgias espirituais sem anestesia. Antônio já se operou, sem a necessidade de cortes pelo menos quatro vezes com o religioso e o tem como um grande amigo e conselheiro de vida. Desde 2014, esse aconselhamento também passou para o campo político.

Foi nesse encontro com João de Deus, que três meses antes da morte de Eduardo havia dito a Antônio que o seu irmão teria um ano de “perda e fogo”, colocou o propósito para ele. “Ele viu no meu destino Olinda”, comenta Antônio; mas se esquiva de falar sobre o tema.

Como se investido de uma ordem divida, Tonca saiu daquele encontro dividido entre a dor da perda recente e o novo destino que ele antes não tinha em mente. Até ali, sua maior ligação com a cidade era a Fliporto, uma feira literária que chegou à 16ª edição em 2016.

Se a ligação viesse à tona durante a campanha, o risco de perder os votos evangélicos, principalmente no segundo turno contra o Professor Lupércio, da Assembleia de Deus, seria considerável. De acordo com o Censo 2010, Olinda tem 30% de evangélicos.

Em uma eleição que se mostrava como uma das mais disputadas, com nove candidatos no primeiro turno, a escolha de uma vice evangélica, após algumas recusas, foi vista como fundamental. E a ligação com João de Deus mantida em absoluto sigilo.

Recusas para a escolha da vice

De posse de pesquisa qualitativa, ficou claro para Antônio o que o olindense esperava dele: uma vice mulher e evangélica. Tentou, em março, a esposa do que viria a ser seu principal opositor, Professor Lupércio (SD). Mas a militante social Cláudia Cordeiro não topou e o presidente estadual do Solidariedade, Augusto Coutinho, não conseguiu convencer a estrela em ascensão no partido de desistir da candidatura própria. O Professor foi eleito vereador em 2012 e deputado estadual dois anos depois. Mesmo com a oferta de que o SD indicaria os nomes para a composição de três secretarias. Essa tentativa de aliança chegou a ser usada por Lupércio contra Antônio durante a corrida eleitoral.

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Em julho, até dias próximos da convenção, Antônio tentou contar com a desistência da candidatura do deputado estadual Ricardo Costa (PMDB) para compor a sua chapa. O possível aliado, embora não evangélico, agregaria para ele o maior tempo de televisão entre todos os postulantes. Entre idas e vindas, ficou quase acertado que o peemedebista receberia em troca duas secretarias e 30 cargos na administração municipal. Ricardo não aceitou e se lançou numa aventura que o deixou no distante sexto lugar.

Embora não confirme e garanta exatamente o oposto, foi após estas recusas que o socialista se voltou para o nome da esposa de outro político local, a evangélica da Assembleia de Deus, professora de matemática e militante social Ceça Silva (PHS). Ela é casada com o vereador Algério Nossa Voz, do mesmo partido.

Nos primeiros eventos, a imagem saltitante e risonha dela ajudava para quebrar o jeito ainda sério e monocórdico do socialista. Principalmente na convenção partidária em 31 de julho. Enquanto ele se apresentava com falas pausadas, gesticulando, pontuando, como se golpeasse uma mesa imaginária abaixo; ela pulava e sorria, mostrando mais desenvoltura com o microfone. Era também mais aplaudida. E parecia não se incomodar com a ausência da parte mais destacada do clã Campos e do governador Paulo Câmara.

Campos x Campos

A coordenação da campanha sempre esteve nas mãos do ex-secretário estadual de Comunicação do governo João Lyra, Ivan Maurício, com quem Tonca começou as articulações um ano antes do período eleitoral. “Antônio me chamou e eu aceitei esse desafio. O PCdoB já prejudicou muito Olinda, muito, e esqueceu os pobres. Por isso a cidade está do jeito que está”, comentou o discreto jornalista.

 

Ivan, se não fosse ex-secretário de Comunicação de Pernambuco e tivesse uma vida profissional consolidada, passaria despercebido nos atos. Embora faça da inteligência um charme; tem cabelos brancos pelas laterais da cabeça, com raros fios pretos. É baixo, anda quase curvado, o que o deixa ainda mais baixo; e tem um tom de voz firme mas diminuto, o que faz com que o interlocutor precise se aproximar mais para escutar aquele senhor de pele alva.

“A discrição é fundamental nos bastidores”, disse uma vez. Ivan é articulado, conhece e é conhecido pelas lideranças políticas locais. “Você viu Ivan Maurício por aí?”, sempre perguntava um cabo eleitoral ao chegar nas reuniões que antecederam a campanha. Foi definido por Antônio como o “estrategista da sua candidatura e conhecedor profundo da política e de Olinda”.

Porém, o PCdoB que Ivan citou inicialmente como o maior desafio, se mostrou uma dor de cabeça não tão incômoda para a Coligação Muda Olinda quanto o distanciamento do governador e de parte da família Campos. Mesmo tendo ido fazer campanha para outros socialistas, em Jaboatão, com Heraldo Selva, e no Recife, ao lado de Geraldo Julio, Paulo Câmara não esteve no palanque de Antônio durante todo o primeiro turno.

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Pessoas ligadas aos dois lados evitam comentar o assunto, por isso todas pediram para ficar no anonimato. A briga nos bastidores é pelo legado político de Eduardo. Enquanto os afilhados de Eduardo no Estado e na capital preparam terreno para a “maioridade” do filho mais velho do ex-governador, João Campos, Antônio tenta ocupar um espaço de liderança no presente. Para se lançar em Olinda, contou com a articulação nacional vinda de São Paulo – do presidente do PSB, Carlos Siqueira – e da sua mãe, a ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), Ana Arraes. Coube aos dirigentes socialistas locais engolir Tonca.

Internamente, uma fonte ouvida de dentro do Palácio e outra aliada de Antônio, ambas em reserva, indicaram que a resistência partia fortemente da viúva Renata Campos, que prepara João, chefe de gabinete de Paulo, para seguir os caminhos do pai e se lançar deputado federal em 2018.

Sem conseguir parar o correligionário, que indicava que poderia tumultuar os planos de reeleição do prefeito do Recife Geraldo Julio (PSB), coube aos socialistas entregar o diretório municipal a Antônio. Porém contrariado, o Palácio das Princesas se movimentou para que os olindenses tivessem a maior quantidade possível de candidatos da própria base, impedindo que fossem arregimentados pelo PSB de Olinda. Foram sete postulantes ligados ao governador. Fora isso, Paulo prometeu não pisar em Olinda. A ausência se consolidou no início, mas mudou no segundo turno. Diferente da família formada por Eduardo, que não esteve na Marim dos Caetés e não gravou para o guia eleitoral. Nem quando as pesquisas indicavam o crescimento de Lupércio no fim de outubro.

Campos x Lupércio

Se antes da campanha uma aliança se mostrou possível, a mesma parecia nunca ter sido pensada durante o segundo turno. Foi uma corrida judicializada, com quase 70 ações protocoladas em menos de 30 dias. Só Antônio, que possui um escritório de advocacia, deixou de prontidão um séquito de 10 advogados voltados para encontrar deslizes no adversário. Fora isso, os temas passaram, por vezes, longe das questões reais da cidade. Com Lupércio acusando Antônio de ser “forasteiro”, por morar no bairro recifense de Casa Forte; e o socialista batendo na tecla de que o adversário era a continuidade dos governos de Luciana Santos e Renildo Calheiros, ambos do PCdoB. Contra a pecha de forasteiro, o socialista sempre citou a realização da Fliporto e um dos livros literários publicados por ele: “Olinda, um olhar”.

Antônio aprende a sorrir

Nove quilos mais magro no fim do pleito, o candidato, que no primeiro turno sofria para sorrir naturalmente para as câmeras e discursava tão pausadamente que provocava, muitas vezes, o momento mais entediante dos eventos, com o decorrer da campanha foi se mostrando leve. Embora ainda sofra por vezes de “robotismo” quando fala para as lente. Aprendeu a discursar mais solto; olhando no olho das pessoas, cumprimentando inclusive os profissionais da imprensa; tomando café aguado, como na casa de uma eleitora no bairro de Rio Doce, em 21 de setembro; abraçando que vê pela frente. E até – vejam só – contando piada.

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Em uma reunião com a juventude, realizada na quarta-feira (5) de setembro, Tonca contou uma, que, pela alegria dele ao término, é do tipo de humor que o diverte. Quando falou sobre a necessidade de disponibilizar internet para os olindenses: “Uma pessoa chegou a um enterro e a primeira coisa que fez foi perguntar qual era senha da wi-fi, antes mesmo de perguntar pelo defunto”, falou, recebendo alguns sorrisos de volta. No entanto, quem parecia estar ouvindo pela primeira vez era o próprio, que mostrou os dentes mais que todos.

Foi esse o primeiro momento, segundo a memória do repórter que ele se soltou com mais naturalidade, mesmo diante de um público, no mesmo escritório no Amparo, de mais de 200 pessoas. Talvez a dificuldade, nesse sentido, não seja rir, mas a timidez com a câmera, com o julgamento que será feito depois.

Perguntado se tinha feito algum curso “para aprender a sorrir”, Antônio sorriu acompanhado da gargalhada característica da namorada, a empresária Luciana Hazin, antes de responder: “O curso foi a rua, a democracia”, afirmou. O advogado de 48 anos tem dois filhos adolescentes do primeiro casamento.

Tonca foi apresentado durante toda a campanha como irmão de Eduardo Campos e neto de Miguel Arraes, mas mostra que não vê a hora de iniciar uma linhagem política própria. Independente da derrota deste domingo, um cenário já era claro, como o próprio havia constatado em entrevista. Antônio Ricardo Accioly Campos aprendeu a sorrir, e isso vai incomodar ainda mais “alguns setores do PSB”.



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