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09/09/17
Pessoas afetadas pela perda de alguém que colocou fim à vida fazem parte do grupo dos sobreviventes de perda por suicídio e têm o direito de se enlutar o tempo que for necessário (e como desejarem). E mais do que isso: elas precisam cuidar de si mesma (Foto: Free Images)
Pessoas afetadas pela perda de alguém que colocou fim à vida fazem parte do grupo dos sobreviventes de perda por suicídio e têm o direito de se enlutar o tempo que for necessário (e como desejarem). E mais do que isso: elas precisam cuidar de si mesma (Foto: Free Images)

Luto por suicídio: falar sobre o tema significa cuidar da dor de quem fica

09 / set
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 09/09/2017 às 13:16

Geralmente dói demais experimentar as cicatrizes emocionais que vêm com o luto pela morte de uma pessoa querida. E o sofrimento que acompanha a perda por suicídio é um dos mais doloridos, se não for o pior. É assim que a psiquiatra Alexandrina Meleiro, coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção do Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), define o sentimento lancinante vivenciado pelas pessoas afetadas pela perda de alguém que colocou fim à vida.

Elas fazem parte do grupo dos sobreviventes de perda por suicídio e têm o direito de se enlutar o tempo que for necessário (e como desejarem). Mais do que isso: elas precisam cuidar de si mesmas e não devem hesitar em procurar ajuda, seja de parentes, amigos ou profissionais de saúde. Aqueles que ficam precisam considerar que há maneiras de se viver depois do suicídio.

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“É importante dar assistência para que a pessoa possa passar por todas as fases desse luto, que é sofrido. Isso é fundamental para se seguir em frente. Em geral, essa dor demora mais porque os sobreviventes ficam se culpando. Eles acham que não perceberam os sinais (de comportamento suicida) nem consideraram que a pessoa estava ‘dizendo’ que queria morrer”, informa Alexandrina Meleiro.

“Sem assistência, os sobreviventes também podem vir a ter um comportamento suicida, pois tendem a alimentar a culpa. Por isso, precisam de apoio”, destaca Alexandrina (Foto: ABP/Divulgação)

A psiquiatra explica que, nesse processo de posvenção (intervenção com o objetivo de minimizar as consequências sofridas por quem sofre com o impacto do suicídio), os sobreviventes experimentam um sentimento duplo. “Eles sentem falta de quem morreu e também têm raiva de quem matou. E quem matou é a própria pessoa que morreu: vítima e assassina ao mesmo tempo. É difícil de se apreender.”

Diante do misto de dor, raiva e culpa, a sensação que desponta é de um terremoto que cria feridas no corpo e na alma. Essa estremecida faz os especialistas em saúde mental transmitirem a mensagem de que os sobreviventes precisam de suporte para não adoecerem. Afinal, a morte marca o início de um ciclo de angústias para quem fica. “Sem assistência, os sobreviventes também podem vir a ter um comportamento suicida, pois tendem a alimentar a culpa. Chegam a pensar que poderiam ter evitado o ato, ruminam pensamentos de que falharam, apresentam insônia e somatizam problemas de saúde. Ou seja, eles têm reações físicas e emocionais pela perda brutal”, salienta Alexandrina Meleiro.

A psiquiatra acrescenta que os sentimentos ambivalentes são comuns em relação à perda de uma pessoa querida, que tirou a própria vida. “Cada uma dessas mortes impacta de cinco a dez pessoas de forma direta. Esse número pode ser maior, dependendo do local onde ocorreu o ato. Felizmente a maioria dessas pessoas consegue superar (o sofrimento). Por isso, é importante falar sobre o tema para as pessoas perceberem que há ajuda”, acrescenta.

Quando crianças e adolescentes estão entre os sobreviventes, não se recomenda esconder o luto. “As crianças podem não ter noção da irreversibilidade da morte. Então, tende a ser mais fácil o entendimento. Mas a família deve vivenciar bem esse luto com crianças para que, no futuro, diante de uma adversidade ou frustração, eles não repitam o ato”, orienta Alexandrina Meleiro. Embora possa existir influência genética no pensamento suicida, a médica destaca que não se descarta a possibilidade de esse comportamento ser apreendido.

No Recife, os sobreviventes contam com o suporte do Grupo de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio Anônimo (Foto: Free Images)

Apoio

No Recife, os sobreviventes contam com o suporte do Grupo de Apoio aos Sobreviventes do Suicídio Anônimo. “Não se trata de um apoio terapêutico, mas o fato de a pessoa estar envolvida numa roda de conversa é acolhedor. Muitos chegam, ao primeiro encontro, com uma dor imensurável e saem fortalecidos”, diz a psicóloga Neuma Silva de Siqueira. O atendimento é realizado na sede do Instituto Pernambucano de Práticas Educacionais e Psicológicas, na Rua do Progresso, 151, na Boa Vista, Centro do Recife. Informações: www.institutoppep.com.br.

“Podemos encontrar maneiras de superar a perda. Eu mesma dei um novo sentido à minha vida”, relata mãe sobre a perda do filho

Joana (nome fictício), 55 anos, em depoimento a Cinthya Leite

Nunca havia associado a depressão ao risco de suicídio até o dia em que meu filho tirou a própria vida, aos 21 anos. Nem o psiquiatra que o acompanhava chegou a me alertar. Era introvertido, calado, não gostava de sair de casa… A depressão foi detectada depois que percebi a intensa insatisfação dele com a aparência. Ele foi ao psiquiatra, que deu o diagnóstico de síndrome mista de ansiedade e depressão.

Aos 20 anos, ele resolveu estudar fora do País. Passou três meses no exterior, fez amizades e ficou bem durante o intercâmbio. Chegou a dizer que não queria voltar para o Brasil. Mas voltou. E voltou triste. A psicóloga acredita que ele chegou depressivo porque, durante o tempo que passou longe de casa, não encontrou o ‘algo’ que gostaria no país onde esteve. O suicídio ocorreu quatro meses após o seu retorno. Ele demonstrava sinais, mas eu não conseguia fazer relação com o ato. Por volta dos 15 anos, ele me falava que não iria envelhecer, que morreria primeiro do que eu e que não sabia por que havia nascido. Hoje vejo que eram sinais (de comportamento suicida), mas eu não percebia.

Alguns meses após ele voltar do intercâmbio, eu estava prestes a viajar. No dia em que estava fazendo as malas, passei pelo quarto dele e percebi algo estranho. Havia tentado o suicídio e o levei ao hospital. Cheguei a pensar que teve esse comportamento por causa da homossexualidade, que todos da família aceitavam. Hoje vejo que não foi por isso. Enquanto estava internado no hospital, ele pedia muito para ir pra casa. Chegou a dizer que tentaria novamente, mas eu não quis aceitar (esse sinal).

Um dia após o internamento, teve alta e, na primeira noite em casa, cometeu o suicídio. Fiquei de cama. Contei com o apoio do meu marido, parentes e amigos. Lembro que, na época, as pessoas me perguntavam por que ele havia se matado e chegaram a inventar muitas coisas. Meses após o suicídio, eu estava grávida. Na minha cabeça, o filho que perdi ‘voltaria’ com o bebê. Quando percebi que isso era impossível, entrei em depressão. E foi durante a gestação, bem complicada, que vivi o luto. Um luto tardio.

Procurei ajuda, e a minha psiquiatra falava que eu iria ficar bem. Após o parto, a depressão foi embora. Acho que o nascimento deu sentido à minha vida. Voltei à rotina, mas ainda tenho muita saudade do filho que perdi. Sinto culpa, acho que poderia ter dado mais amor e ficado mais ao lado dele. Hoje percebo que outras mães também passam por isso. E para as que estão vivenciando o luto agora, digo que continuem a viver, pois existe uma luz no fim do túnel, apesar de todas as dificuldades. Podemos encontrar maneiras de superar a perda. Eu mesma dei um novo sentido à minha vida, embora até hoje não tenha algumas respostas.

Assista ao programa sobre prevenção ao suicídio na TV JC:


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