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Mudanças comportamentais podem alertar para a possibilidade de depressão na infância e na adolescência. Entre os sinais de alerta, tédio crônico ou perda de interesse em atividades de lazer que eram desfrutadas (Foto ilustrativa: Free Images)
Mudanças comportamentais podem alertar para a possibilidade de depressão na infância e na adolescência. Entre os sinais de alerta, tédio crônico ou perda de interesse em atividades de lazer que eram desfrutadas (Foto ilustrativa: Free Images)

Depressão na infância e na adolescência: como lidar? Psiquiatra esclarece dúvidas

09 / abr
Publicado por Cinthya Leite em Blog - 09/04/2017 às 7:44

“A depressão afeta não só você, mas os que estão à sua volta: sua família, seus amigos e colegas (…) Devido ao estigma, poucos querem falar sobre ela”, disse a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (Opas/OMS), Carissa F. Etienne, no início do mês, em evento sobre um tema que deve ser considerado em todas as fases da vida. “Alguns transtornos mentais têm início na infância ou na adolescência”, avisa a psiquiatra Liliane Machado.

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A médica frisa que, perto da puberdade, alguns sinais podem sugerir depressão, o que exige a atenção dos pais e da escola. “São crianças que frequentemente apresentam irritabilidade, problemas de comportamento e queixas como dores de cabeça e no abdome. Adolescentes podem também ficar facilmente frustrados, apresentar extrema sensibilidade à rejeição e dificuldade em manter amizade.”

O relato serve como alerta para percebermos como os pensamentos negativos e demais sinais de depressão não são restritos aos adultos. A boa notícia é que, como em qualquer outra fase da vida, o transtorno na infância tem tratamento – e o quanto antes ele for seguido, melhor para o desenvolvimento saudável dos pequenos.

Confira a entrevista com a psiquiatra da infância e adolescência Liliane Machado:

Casa Saudável – Os transtornos mentais têm origem na infância e na adolescência? Há alguma explicação para isso?

Liliane – Alguns transtornos mentais têm início na infância ou na adolescência. Na realidade, os pacientes podem apresentar sintomas de depressão em qualquer idade. Os sintomas vão variar de acordo com o estágio de desenvolvimento em que o paciente se encontra. Assim, o que vai diferenciar será a forma como a depressão se manifesta. Depressão na infância e na adolescência é resultado de múltiplos fatores. Na verdade, há uma combinação de fatores biológicos (herança genética) e ambientais. Depressão dos pais é o fator de risco mais consistentemente associado para a depressão nos filhos.

Casa Saudável – Quais os sinais e sintomas da depressão nessa faixa etária? Muitos desses sinais são observados primeiramente na escola?

Liliane – Crianças pré-puberais (antes da puberdade), mais frequentemente apresentam irritabilidade (birras excessivas), problemas de comportamento, queixas somáticas como dores de cabeça e dores no abdome. Adolescentes também podem apresentar irritabilidade, são facilmente frustrados, apresentam extrema sensibilidade à rejeição e dificuldade em manter seus relacionamentos de amizade. Muitos desses sinais podem ser observados na escola. Relatos de professores e coordenadores são, portanto, grandes aliados do psiquiatra da infância e adolescência, que precisa saber como a criança ou o adolescente está funcionando em outros ambientes.

Casa Saudável – A que tipo de comportamento os pais devem estar atentos?

Liliane – Os pais devem ficar atentos a mudanças comportamentais que possam alertar para a possibilidade de depressão. É importante que, tão logo identificados esses fatores, o jovem possa fazer uma avaliação com o psiquiatra. Eis algumas queixas: irritabilidade, tédio crônico ou perda de interesse em atividades de lazer previamente desfrutadas (abandono de atividades esportivas ou aulas de dança e música), retiro social ou não mais querer “sair” com amigos, recusa em ir à escola, declínio no desempenho acadêmico (notas que eram boas e agora estão baixas), alteração do padrão sono-vigília (não dormir à noite, dormir pela manhã e recusar ir à escola), queixas frequentes e inexplicáveis de sentir-se doente (dores de cabeça e de estômago) e desenvolvimento de problemas comportamentais (tornar-se mais desafiador, fugir de casa, intimidar outros e desobedecer regras da escola), além do abuso de álcool ou outras substâncias.

Casa Saudável – Como a família pode ajudar a criança e o adolescente com depressão?

Liliane – É importante que os pais se envolvam no processo de avaliação e tratamento, como nas discussões sobre as opções de tratamento disponíveis. Em casos de risco de suicídio, a família deve estar bem vigilante para possíveis comportamentos de risco para a vida do paciente. Porém, não apenas em casos de adoecimento, mas para toda a vida, é importante que o pais se façam presente na vida de seus filhos. Muitas vezes, o jovem está passando por um problema e não sabe como resolvê-lo. Por isso, a importância do diálogo, como uma forma de ajudá-lo a encontrar soluções para seus problemas e resolvê-los. Não estamos falando em dar soluções prontas, mas ajudá-lo a chegar a soluções por eles mesmos. Além disso, o amor, o carinho, a compreensão e a proximidade promovem um sentimento de segurança ao jovem. Tudo isso é muito eficaz no tratamento.

Casa Saudável – Como é o tratamento da depressão nessa faixa etária?

Liliane – A Academia Americana de Psiquiatria da Criança e do Adolescente indica que, em casos de depressão leve, é razoável iniciarmos o tratamento com educação, apoio e gestão de casos relacionados com estressores ambientais na família e na escola. Espera-se que a resposta seja observada após passadas de quatro a seis semanas de terapia de suporte. Em casos de depressão leve-moderada, psicoterapias (especialmente a terapia cognitivo-comportamental e a psicoterapia interpessoal) parecem ser eficazes no tratamento da depressão. Nos casos graves, os antidepressivos são indicados. São medicamentos importantes para o tratamento da depressão em jovens, mas vários antidepressivos que são eficazes em adultos não são eficazes na juventude ou são muito arriscados para usar nessa faixa etária. Dessa forma, faz-se necessário a avaliação de um psiquiatra da infância e adolescência, que vai avaliar a gravidade do quadro e o tratamento mais indicado para o paciente atendido.

Casa Saudável – Mesmo após remissão dos sintomas, é preciso acompanhamento ao longo do desenvolvimento?

Liliane – É importante ressaltar que não é recomendável que o paciente pare a medicação no período em que ele está melhorando, já que isso pode resultar em recaída. Após a recuperação total, o tratamento deve continuar durante pelo menos seis meses. Então, o acompanhamento com o psiquiatra é de extrema importância para avaliar a necessidade da retirada da medicação – que, se for indicada, deve ocorrer de forma gradual.

 


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